Com o uso de novas tecnologias, estima-se que as refinarias brasileiras possam aumentar sua capacidadeJoão Paulo Ceglinsk
Autossuficiência em derivados de petróleo: o próximo passo do Brasil
Crise no Golfo Pérsico expõe vulnerabilidades globais e abre caminho para o Brasil reduzir importações e fortalecer sua soberania energética com mais refino.
O aumento das tensões no Golfo Pérsico voltou a ligar o alerta sobre a segurança energética no mundo. Quando há risco de interrupção no fornecimento de petróleo, os impactos chegam rápido à economia global. Para o Brasil, porém, esse cenário não traz só preocupação — ele abre uma oportunidade para avançar na produção de derivados de petróleo, como o diesel, e reduzir a dependência do que se importa de outros países.
Hoje, o Brasil já produz petróleo suficiente para atender sua demanda. O problema ainda está no refino, ou seja, na transformação desse petróleo em produtos como diesel, gasolina e querosene. Trinta por cento dos derivados são importados. É justamente aí que entra o Plano 2026-2030 da Petrobras, que prevê cerca de 16 bilhões de dólares em investimentos. A ideia é modernizar e ampliar as refinarias que já existem, em vez de construir novas do zero.
Em recente entrevista, o ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates destacou que o país pode aumentar bastante sua produção só com melhorias tecnológicas, mais eficiência e ajustes nos processos. Na prática, isso seria como ganhar a capacidade de duas refinarias do tamanho da Reduc, em Duque de Caxias — sem precisar erguer novas estruturas, o que economiza tempo e dinheiro.
O diesel, que sempre foi um ponto fraco do Brasil, também tende a deixar de ser problema nos próximos anos. Isso porque o país está aumentando a produção e, ao mesmo tempo, mudando a forma de consumo. O uso maior de biodiesel e a entrada de ônibus elétricos nas cidades ajudam a reduzir a demanda. Com esse equilíbrio entre produzir mais e consumir melhor, a expectativa é que o Brasil deixe de depender de importações de diesel em cinco a sete anos.
Esse avanço não começou agora. A busca pela autossuficiência energética é uma meta antiga do país, que atravessou diferentes governos e se tornou uma política de Estado. Mais do que uma questão econômica, isso tem a ver com soberania: quanto menos o Brasil depender de fatores externos, mais protegido estará contra crises internacionais.
Ao mesmo tempo, esse movimento não impede a transição para fontes de energia mais limpas; pelo contrário. O Brasil tem vantagem nesse ponto, com uma matriz já diversificada. Etanol, biodiesel e gás natural ajudam nessa transição, enquanto investimentos em energia solar, eólica (inclusive no mar) e eletrificação da economia apontam para o futuro. Mas essa mudança não acontece da noite para o dia. O petróleo ainda vai ser importante por muitas décadas.
Diante de um mundo instável, garantir a autossuficiência em derivados deixa de ser apenas um objetivo econômico e passa a ser uma necessidade estratégica. O Brasil tem nas mãos a chance de transformar sua condição atual em uma vantagem duradoura, fortalecendo sua independência energética e protegendo sua economia das turbulências lá de fora.

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