Máquina atua na desobstrução de canal em Campos para amenizar o efeito da estiagemCésar Ferreira
O avanço do semiárido no Norte/Noroeste, um tema urgente
Mudanças climáticas afetam produtores, com secas e chuvas irregulares, exigindo políticas públicas e retomada do debate sobre o reconhecimento do semiárido no norte do RJ.
Há muitas décadas, o Norte e o Noroeste Fluminense são reconhecidos pela força do campo. Da pecuária leiteira às lavouras de cana, passando pela agricultura familiar e culturas como o café, a região construiu sua identidade produtiva baseada na terra e na previsibilidade das estações. Mas essa realidade está mudando de forma profunda.
Estudos científicos já apontam uma tendência clara: o aumento da frequência e da intensidade das secas nessas regiões do estado do Rio de Janeiro. Levantamentos acadêmicos indicam que o Norte e o Noroeste Fluminense concentram hoje os maiores registros de déficit de precipitação no estado, com eventos de estiagem cada vez mais recorrentes. Na prática, isso significa menos água disponível, pastagens mais frágeis e lavouras sob constante risco.
Mais do que isso, há sinais consistentes de que o clima local já tem as características típicas do semiárido — marcado por altas temperaturas, baixa umidade e chuvas escassas e mal distribuídas ao longo do ano. Um processo que, em outras regiões do Brasil, já trouxe impactos econômicos e sociais severos.
Mas, para quem vive da terra, o problema não é apenas a seca. O que mais preocupa hoje é a imprevisibilidade. Se antes o produtor rural organizava o plantio com base em ciclos relativamente estáveis, hoje vivem no fio da navalha da incerteza. Não se sabe mais quando vai chover — nem quanto. Há períodos prolongados sem chuva, seguidos por episódios intensos e concentrados, que não ajudam no desenvolvimento das culturas e ainda provocam perdas.
É o caso, por exemplo, dos produtores de cana-de-açúcar. A cultura depende de um regime hídrico relativamente equilibrado ao longo do ciclo. Sem chuva, a planta não se desenvolve. Com chuva em excesso e fora de época, há prejuízos na qualidade e na colheita. O resultado é queda de produtividade e aumento do risco para quem já opera com margens apertadas.
No campo, quem mais sofre são os pequenos. Pecuaristas com pouca estrutura para irrigação, agricultores familiares sem acesso a tecnologia e crédito robusto — todos ficam mais vulneráveis diante de um clima que deixou de ser previsível. A paisagem, antes marcada por áreas produtivas, começa a dar lugar a solos ressecados e pastagens degradadas, num processo que especialistas já associam à desertificação.
Diante desse cenário, surgiu uma tentativa concreta de resposta institucional. O Projeto de Lei nº 1.440/2019, de autoria do então deputado federal Wladimir Garotinho, propôs o reconhecimento oficial do clima semiárido em 22 municípios do Norte e Noroeste Fluminense. A medida permitiria o acesso a políticas públicas específicas, como linhas de crédito diferenciadas, seguros agrícolas mais adequados e programas de convivência com a seca — instrumentos já utilizados em regiões semiáridas do país.
O projeto foi aprovado por unanimidade na Câmara dos Deputados e também no Senado Federal. No entanto, acabou sendo vetado pelo Governo Federal, impedindo que esses benefícios chegassem aos produtores da região. O veto interrompeu, ao menos temporariamente, uma oportunidade de adaptação a uma nova realidade climática que já se impõe no dia a dia do campo.
Por isso, o tema precisa voltar à pauta.
Não se trata apenas de reconhecer uma mudança no mapa climático. Trata-se de garantir condições mínimas para que milhares de produtores — em sua maioria pequenos — consigam continuar produzindo, gerando renda e sustentando suas famílias.
A transformação do clima já está em curso. Ignorá-la não vai revertê-la. Cabe agora às lideranças fluminenses — políticas, institucionais e do próprio setor produtivo — retomar esse debate com urgência. Porque, no campo, o tempo não espera.

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