Sem mais educação, conectividade e qualificação, o Brasil perderá a corrida pelos empregos na área de tecnologiaMarcelo Camargo/Agência Brasil

Num momento em que o Brasil comemora a queda nas taxas de desemprego, um desafio silencioso ganha destaque: a escassez de trabalhadores qualificados para o setor de tecnologia. Trata-se de um gargalo estrutural na formação profissional, que precisa entrar na agenda dos governos se o país pretende disputar espaço em uma economia global cada vez mais baseada no conhecimento e na inovação.
Hoje, o Brasil forma pouco mais de 53 mil profissionais de tecnologia por ano. É um número claramente insuficiente diante de um mercado que demanda, de forma crescente, especialistas capazes de atuar em áreas como desenvolvimento de aplicativos, comércio eletrônico, análise de dados e segurança da informação. O resultado é um déficit que já ultrapassa 500 mil profissionais qualificados — vagas que existem, mas permanecem abertas por falta de gente preparada para ocupá-las.
Superar esse desafio exige enfrentar diversas frentes ao mesmo tempo. Uma delas é a ampliação da conectividade, especialmente nas instituições de ensino. O tema foi analisado no estudo “O Abismo Digital no Brasil – Como a desigualdade de acesso à internet, a infraestrutura inadequada e a educação deficitária limitam nossas opções para o futuro”, elaborado pela PwC em parceria com o Instituto Locomotiva. O levantamento aponta que as barreiras tecnológicas e educacionais estão diretamente relacionadas às dificuldades de formação de mão de obra para a nova economia digital.
A desigualdade de acesso à internet é um dos principais entraves. Em regiões afastadas dos grandes centros e nas periferias urbanas, a conexão ainda é precária ou simplesmente inexistente. Isso exige soluções estruturais que envolvam tanto o poder público quanto a iniciativa privada, capazes de garantir o chamado acesso significativo — não apenas a presença da internet, mas uma conexão de qualidade que permita estudar, trabalhar e produzir conhecimento.
Essa desigualdade também tem forte dimensão social. Enquanto praticamente 100% dos brasileiros da classe A estão conectados, entre as classes D e E esse percentual cai para 64%. No campo educacional, a diferença é igualmente marcante: estudantes de escolas privadas têm acesso muito mais amplo à internet e às ferramentas digitais do que os alunos da rede pública — um contraste que se tornou ainda mais evidente durante a pandemia de Covid-19.
Outro obstáculo está na própria qualidade da educação básica. O Brasil apresenta um dos dez piores desempenhos do mundo em matemática e resultados frágeis em leitura no exame Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), avaliação realizada em 79 países pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Dados de 2018 indicam que 68% dos estudantes brasileiros não possuem conhecimentos básicos de matemática e metade deles não consegue identificar a ideia central de um texto de complexidade moderada.
A infraestrutura educacional também contribui para ampliar o problema. Mais de 8 milhões de estudantes — cerca de 21% dos alunos das redes municipais e estaduais de educação básica — frequentam escolas sem acesso à banda larga, ferramenta essencial para o ensino digital. No ensino médio, uma em cada quatro escolas ainda não possui internet adequada para atividades pedagógicas.
Diante desse cenário, torna-se fundamental garantir financiamento contínuo para expandir as chamadas infovias digitais e fortalecer redes de pesquisa de alto desempenho, sobretudo nas regiões mais carentes. A autonomia tecnológica é peça-chave para o desenvolvimento nacional. Sem infraestrutura e conectividade, a pesquisa brasileira corre o risco de estagnação justamente em um momento em que o mundo acelera sua transformação digital.
Mas é preciso dizer com franqueza: o Brasil não enfrenta apenas um problema tecnológico — enfrenta, sobretudo, um problema de prioridade. Enquanto países investem pesadamente na formação científica e na inclusão digital, aqui ainda tratamos educação e inovação como despesas, e não como investimentos estratégicos. Sem uma política consistente de formação técnica, expansão da conectividade e valorização do ensino público, assistiremos de longe à revolução tecnológica que deveríamos estar ajudando a construir. O país do futuro tem que ser também o país do presente.