FPSO Almirante Tamandaré: rico em petróleo, o estado ainda é pobre em alternativas econômicasSBM/Divulgação
Pobre estado rico...
Rio de Janeiro, que concentra a riqueza do petróleo, ainda carece de planejamento para transformar recursos em desenvolvimento, inovação e empregos de qualidade.
Dizem, em tom de ironia, que o estado do Rio de Janeiro não é para amadores. A frase, repetida com humor, carrega uma verdade incômoda. Mesmo sendo, de longe, o maior produtor de petróleo do Brasil e detentor do segundo maior PIB entre os estados brasileiros, o Rio ainda patina em indicadores modestos quando o assunto é geração de empregos e dinamização de setores estratégicos, como a indústria e a agropecuária.
Recorro aqui a um recente artigo publicado por um grande amigo, o professor e economista Alcimar Chagas Ribeiro. Diretor do Núcleo de Pesquisa Econômica do Estado do Rio de Janeiro (Nuperj), vinculado à Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Alcimar sustenta que, embora seja um dos estados mais endividados do país, o Rio sempre contou com uma espécie de “sorte geográfica”.
Ele cita como exemplo o fato de o mar territorial fluminense ser responsável por 85,34% da produção nacional de petróleo, com cerca de 4,17 milhões de barris extraídos diariamente nas Bacia de Campos e na Bacia de Santos. Esse protagonismo se consolidou desde o final dos anos 1990, quando os recursos do ouro negro passaram a inundar os cofres do governo estadual e dos municípios fluminenses. Somente em royalties e participações especiais, mais de R$ 23,5 bilhões foram injetados na economia fluminense no ano de 2025.
Diante de tamanha pujança no setor de óleo e gás, seria razoável esperar que esse dinamismo se refletisse em outros segmentos da economia. Mas os números mostram um cenário bem mais modesto. Em 2025, a produção industrial geral do estado cresceu apenas 5,1%. Na fabricação de produtos alimentícios, o avanço foi de 6,4%. Já o setor comercial apresentou retração de 1,3%, enquanto o setor de serviços registrou crescimento de 1,7%. Atualmente, os serviços respondem por 47,25% dos empregos formais no estado e, como alerta o professor Alcimar, uma parcela significativa dessas atividades opera com baixo padrão tecnológico e baixos salários.
Os vínculos ativos somavam cerca de 4,7 milhões de empregos formais no estado em 2024. Desse total, quase metade está concentrada nas atividades de serviços (47,25%), seguida pela administração pública (18,48%) e pelo comércio (17,55%). Chama a atenção o fato de a máquina pública representar mais empregos formais do que todo o setor comercial. Enquanto isso, um setor com enorme potencial econômico e territorial — a agropecuária — responde por apenas 0,6% das vagas formais.
Na avaliação do economista, o problema do Rio de Janeiro não está exatamente na falta de receita, mas na baixa eficiência fiscal. Alcimar também toca em um ponto que tenho abordado em diversos artigos: a ausência de um planejamento estratégico consistente, capaz de promover as transformações estruturais de que o estado tanto necessita.
O Rio ainda é um estado excessivamente centralizado na capital e frequentemente indiferente às potencialidades do interior. Com isso, acaba não atendendo plenamente nem uma região nem outra. A riqueza gerada por muitos municípios não se traduz em oportunidades proporcionais para suas populações. Sem oportunidades, muitas famílias acabam migrando para a Região Metropolitana e fazendo multiplicar as comunidades, carentes de infraestrutura, onde a criminalidade dita as regras.
Faltam projetos de médio e longo prazo. Falta uma política mais ousada voltada à educação, à ciência e à tecnologia — e um dos sintomas mais evidentes dessa lacuna é a pouca atenção que o Governo do Estado dispensa, por exemplo, à própria Uenf, criada justamente para ser um dos principais eixos de desenvolvimento do Norte e Noroeste Fluminense.
Se há algo que a história econômica mostra com clareza é que riqueza natural, por si só, não garante prosperidade duradoura. Sem planejamento, sem investimento consistente em conhecimento e sem uma estratégia que integre capital e interior, o petróleo corre o risco de permanecer apenas como uma abundância circunstancial. E o Rio de Janeiro continuará sendo, paradoxalmente, um estado rico em recursos — mas pobre em oportunidades.

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