FPSO em operação na Bacia de Campos: os royalties não são um benefício, são uma indenização necessáriaDivulgação/Modec

A cada ano que começa, prefeitos de diversos municípios fluminenses se veem diante de um novo desafio: ampliar as redes de educação, saúde e serviços públicos. O fato revela uma realidade pouco compreendida fora dos municípios produtores de petróleo. Em cidades impactadas pela indústria de óleo e gás, o crescimento econômico vem acompanhado de uma pressão brutal sobre os serviços públicos.
A atividade petrolífera atrai empregos. E, com eles, chegam milhares de pessoas em busca de oportunidades. Esse fluxo populacional transforma rapidamente a dinâmica local: mais alunos nas escolas, mais pacientes nos hospitais, mais demanda por transporte, saneamento, segurança e infraestrutura urbana.
Mais gente chegando à cidade não significa apenas construir prédios escolares. Significa contratar professores, auxiliares, merendeiras e inspetores, aumentar a quantidade de merenda, etc. Também significa ampliar postos de saúde, reforçar equipes médicas, investir em mobilidade urbana e habitação. É um crescimento que cobra seu preço — e esse preço recai, diretamente, sobre os cofres municipais.
É justamente para compensar esse impacto que surgem os royalties do petróleo. Eles não são um privilégio — são uma compensação econômica, social e ambiental pelos efeitos diretos da atividade petrolífera. Mais do que isso: são um direito garantido por lei. Retirar ou reduzir essa indenização não é apenas uma decisão financeira; é uma intervenção direta na capacidade de gestão e sobrevivência desses municípios.
Nesse contexto, ganha força o debate em torno do julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4917 no Supremo Tribunal Federal (STF), marcada para o dia 6 de maio. A ação discute mudanças na distribuição dos royalties e pode provocar um impacto bilionário no Estado do Rio de Janeiro. Estará em jogo a análise sobre a constitucionalidade ou não da Lei 12.734/2012, que trata da redistribuição dos royalties do petróleo entre estados e municípios produtores e não produtores em todo o país.
Segundo o Instituto de Estudos do Rio de Janeiro, a proposta levanta questões críticas. A primeira delas é a quebra de regras já estabelecidas: alterar contratos e critérios de partilha com campos já licitados compromete a segurança jurídica e afeta diretamente a previsibilidade dos entes federativos.
Outro ponto sensível é o desequilíbrio entre ônus e bônus. O Rio de Janeiro — e, sobretudo, seus municípios produtores — arcam com os impactos ambientais, urbanos e logísticos da exploração. Retirar a compensação financeira significa deixar essas cidades com a conta, mas sem os recursos para pagá-la. Vale lembrar: por lei, o ICMS gerado pela atividade petrolífera no estado do Rio de Janeiro não é cobrado na origem, e sim no destino. Os royalties, além de indenização, são os recursos que sobram num país onde as disputas tributárias são “brigas de cachorro grande”.
Caso a Lei 12.734/2012 seja considerada constitucional, os efeitos podem ser devastadores. Há estimativas de que municípios como São João da Barra possam perder até 85% de sua arrecadação praticamente da noite para o dia. Um cenário que levaria ao colapso de serviços públicos essenciais, afetando diretamente a população.
O próprio estado do Rio pode ser atingido em cheio. A perda de receitas comprometeria o cumprimento do Regime de Recuperação Fiscal, abrindo espaço para sanções, bloqueios e um agravamento da crise financeira.
Diante disso, o julgamento no STF não é apenas uma discussão técnica; é uma decisão com potencial de redefinir o equilíbrio federativo no país. Redistribuir recursos pode parecer, à primeira vista, uma medida de justiça. Mas fazê-lo ignorando quem produz — e quem suporta os impactos diretos dessa produção — é criar uma distorção que ameaça a sustentabilidade de regiões inteiras.
No fim das contas, a fala daquele prefeito ganha um novo peso. Não se trata apenas de construir escolas. Trata-se de garantir que cidades inteiras continuem funcionando. Porque, sem os royalties, não falta apenas dinheiro — faltam condições de manter o básico. E isso, definitivamente, não é privilégio. É questão de sobrevivência.