Pequeno no mapa do Brasil, o estado do Rio de Janeiro é gigante em desafios e potenciaisImagem gerada por IA

Há uma velha armadilha nas eleições para governador do Rio de Janeiro: imaginar que o Estado termina onde acaba a Avenida Brasil.
A política fluminense, porém, é muito maior — e mais complexa — do que a capital. O Rio é uma soma de territórios que convivem, mas nem sempre se enxergam. Há a capital, com sua enorme visibilidade; a Região Metropolitana, onde milhões enfrentam problemas de transporte, segurança, saneamento e emprego; e um interior vasto e heterogêneo, com enormes riquezas e potenciais, mas infraestrutura deficiente. Quem quiser governar o Estado precisará, antes de tudo, compreender essa geografia.
Os números eleitorais ajudam a dimensionar o desafio. Em 2026, o interior ganhou cerca de 70 mil eleitores em relação a 2022, chegando a aproximadamente 3,4 milhões. Enquanto isso, o eleitorado do Grande Rio recuou para cerca de 9,45 milhões, e a capital perdeu cerca de 1% de seus eleitores.
A capital continua decisiva, mas o interior não pode mais ser tratado como território complementar. Esse talvez seja o primeiro grande desafio de quem pretende ocupar o Palácio Guanabara: deixar de fazer uma campanha para a capital e começar a fazer uma campanha para o Estado do Rio de Janeiro.
E há uma diferença fundamental entre visitar o interior e compreendê-lo. O eleitor de uma região produtora de petróleo quer discutir royalties, infraestrutura, logística, qualificação profissional e diversificação econômica. O agricultor quer estrada, crédito, assistência técnica, mercado e segurança no campo. O morador de uma cidade turística quer infraestrutura, saneamento, mobilidade e emprego. Em municípios pequenos, a preocupação pode ser uma estrada vicinal ou a chegada de um médico. Não existe, portanto, um único “interior”.
Esse é outro desafio: entender que o Rio é um Estado de múltiplos Rios.
Na Região Metropolitana, os problemas assumem outra dimensão. Milhões de pessoas enfrentam deslocamentos intermináveis, violência, precariedade urbana e dificuldades de acesso a serviços públicos. A Baixada Fluminense, eleitoralmente decisiva, é um exemplo de como o Rio precisa ser pensado como território integrado. Não adianta melhorar a capital se o trabalhador continua levando horas para chegar ao emprego. Nem falar em desenvolvimento sem discutir mobilidade, saneamento, habitação, segurança e infraestrutura metropolitana.
E talvez nenhum tema seja mais capaz de unir esses diferentes territórios do que a segurança pública. A sensação de insegurança tornou-se uma espécie de idioma comum dos fluminenses. O desafio dos candidatos será apresentar uma política que combine inteligência, investigação, prevenção, tecnologia, valorização profissional e articulação entre Estado e municípios.
Há ainda um terceiro desafio, menos vistoso nas campanhas, mas decisivo para a capacidade de governar: as contas públicas e a máquina estadual. O Rio chega à eleição depois de anos de crise fiscal e de restrições do Regime de Recuperação Fiscal (RRF). Um levantamento recente mostrou que apenas 56% dos gastos com pessoal são destinados a servidores ativos, enquanto 44% vão majoritariamente para aposentadorias, pensões e terceirizações.
O próximo governador, portanto, não receberá apenas um mandato. Receberá uma máquina pública que precisa funcionar, uma folha que precisa ser administrada e serviços essenciais que dependem de gente trabalhando.
Prometer é fácil. Financiar a promessa é outra história. Educação, saúde, segurança, ciência e tecnologia, infraestrutura e desenvolvimento regional disputam recursos limitados diante de necessidades praticamente ilimitadas. A pergunta inevitável será: qual estado o candidato pretende construir e como pretende pagar por ele?
Há ainda uma questão que atravessa todas as outras: o desencanto. Depois de sucessivas crises, escândalos e prisões de governadores, muita gente já não espera grandes transformações. Quer apenas que o básico funcione: uma escola, um posto de saúde, uma estrada, um ônibus no horário, uma polícia capaz de investigar, uma cidade que não fique refém da violência.
No fim das contas, a disputa pelo Palácio Guanabara pode ser decidida menos pela capacidade de cada candidato de falar para o Estado inteiro do que pela capacidade de fazer o Estado inteiro se reconhecer na sua fala.
Porque o Rio de Janeiro não é uma cidade grande com algumas cidades ao redor. É um estado desigual, diverso, contraditório e cheio de potencialidades. Tem petróleo e pobreza, universidades de excelência e escolas que ainda lutam pelo básico, grandes portos e estradas precárias, turismo internacional e municípios que lutam para gerar empregos, centros tecnológicos e enormes bolsões de exclusão.
Governar tudo isso exige mais do que uma campanha vitoriosa. Exige uma visão de Estado. E talvez esse seja o verdadeiro desafio das eleições de 2026: convencer o eleitor de que, desta vez, alguém pretende governar o Rio inteiro — e não apenas o pedaço do Rio que aparece na televisão.