Nessa época acontece de tudo: final de futebol, décimo-terceiro, despesas extras, Natal, Ano Novo e, como se não bastasse, agora ainda temos as malditas dietas de última hora! Haja pressão arterial para aguentar tanta pressão. O amigo Ronaldo, dono de um novíssimo combo de marca-passo e desfibrilador, ouviu do médico a pachorra de que ele deveria escolher um único item da ceia natalina pra servir à mesa. Ou seja, não basta ser privado das delícias do natal europeu, que abraçamos há décadas, como pernil, presunto, peru, bacalhau, castanhas.... O sujeito doutor pretende que a família toda do companheiro passe pelo mesmo perrengue. E sobre as rabanadas, ele aconselhou, é melhor nem pensar.
Desafiador.
Levei o assunto pra reunião do Conselho aqui do Principado de Água Santa, onde só temas importantes são postos à mesa, que aliás, se depender do médico do amigo, vai ter espaço de sobra pra botar discussões.
A pergunta para os amigos veteranos era que item escolher para a ceia. Peru? Chester? Pernil com farofa?
– Churrasco! – Defendeu Júlio, lembrando que ali caberia um pouco de todas as carnes num único prato! E ainda serviria para manter a grande tradição daqui da caverna.
Melhor não. Acontece, senhores, que é nessa época do ano também que os corações brasileiros mais batem às portas dos hospitais. Afinal, aqui não é Europa. Aqui é verão. E o calor, não é um bom fermento pra tanta festa e comida pesada. Mas, cá pra nós, essa também é a pior época pra se iniciar uma dieta. Temos para além do Natal e do Ano Novo, as feijoadas preparatórias do Carnaval, onde o rei é Momo!!
Mas voltando à mesa vazia de comida e farta de assuntos, o papo dos velhos amigos rende sempre muitas histórias. E, mais uma vez, falamos dos golpes que andam por aí: golpes do pix, do consignado, do aposentado. Todos esses, golpes financeiros. Um perigo nesse Brasil, do Oiapoque ao Chuí. É todo mundo roubando um bocadinho. O jeito é por cadeado nos bolsos. E desconfiar até mesmo da própria voz quando falar no celular.
De repente, Nelson retornou com a questão natalina:
– Mas se a ceia não for grande coisa, o que fazer mais na noite de Natal?
Antes que alguém respondesse, surgiu Adilsinho. Com o sino da porteira, foi entrando. Trazia uma pasta à prova d’água e já foi avisando:
– Não são presentes. Eis as contas a pagar.
E dá-lhe contas: IPTU, IPVA, Imposto de Renda... ihh, melhor mudar de assunto.
Júlio, ainda amoado com a ideia de fazer dieta no Natal, perguntou:
– Há alguma chance de recebermos alguma coisa?
Antes de responder, Adilcinho segurou logo um canecão com a sopa de grão de bico e deu uma boa golada, pra segurar a rebordosa. Aproveitei o momento para falar.
A última ventania, da madrugada de quarta-feira, levou, mais uma vez, as telhas que cobrem o meu quarto aqui na caverna. Estou até mesmo pensando em deixar o buraco aberto pra ver se papai Noel desce aqui trazendo um presente pra patroa. Porque eu, assim como o telhado, ando a descoberto.
Ibiapina, que até então estava pensativo, respondeu:
– Tomara que ele traga uma boa cesta, porque pra fazer dieta, a gente tem o ano inteiro. Tem uma cerveja gelada aí, amigo?
Não resisti: prefere suco de manga com abacate?