Quem mora aqui no Rio sabe: é só a temperatura subir pra aquele som ensurdecedor que parece mais uma mistura de sirenes, amplificadas por turbinas de avião reaparecer. São elas, as benditas cigarras, anunciando o verão. E dizem que são cigarras machos e que “cantam” para atrair as fêmeas. Difícil acreditar que conquistam alguém com tamanha zoeira!
A natureza deve de ter lá seus motivos, mas o fato é que, pelo menos aqui pelas bandas do principado de Água Santa, não há como negar, o verão é mesmo a estação mais barulhenta. Que digam as infernais, mas lindas, maritacas. Elas formam o coral mais desafinado do reino das pequenas aves.
Mas, sejamos justos, também é nessa época que o som melodioso dos sabiás laranjeira, dos bem-te-vis, dos pintassilgos ecoam pelo ar, trazendo mais alegria pra cidade de concreto. O verão é mesmo uma estação festiva... seria a melhor, não fosse esse calor insuportável que o acompanha.
Então, pra amenizar o braseiro, acordei bem cedinho, madrugando mesmo, e espalhei vasilhas com água em pontos estratégicos, como à sombra das árvores. A intenção foi garantir água fresca para a sede e o banho dessa frágeis, mas maravilhosas, criaturas.
Para o casal de Beija Flor, que tomou conta, com exclusividade do pessegueiro, ficou a "banheira" menor. Deu certo.
A maior chegada é a dos sabias. Com filhotes!
Os amigos foram avisados, com antecedência, da presença, revitalizada pela estação, do passaredo no quintal. Deixei um caminho para os humanos.
Detalhe: as ararinhas chegaram em três bandos. Elas devoraram o estoque de milho, com barulho ensurdecedor. O que me deixou pasmo foi a atitude do casal de Beija-Flor. Não saíram do seu pedaço. Adilcinho explicou:
Estão defenderam o seu pedaço.
Mas, depois da algazarra matinal, o passaredo tomou o rumo das matas, e seguimos nossa rotina de churrasco, cerveja e bate-papo.
Por volta das 17h que as ararinhas voltaram. Dois ou três bandos diferentes para se reabastecerem com agua e milho. Pouco depois outros pássaros fizeram a mesma rota com o mesmo sentido. Devem vir da Floresta da Tijuca, num voo longo. Desse lado de cá, a Serra dos Pretos Forros é composta por capim. Do outro lado apenas é que formada por floresta. Embora não haja placas e nem sigam rotas de aviação, a natureza é sabia. Elas vão e voltam sem perder o rumo.
E dessa vez, a turma toda estava reunida para assistir ao espetáculo. Quem não gosta disso é a Chiquinha, a cadela, porque (seguro morreu de velho), eu mantenho ela trancada no varandão, distante do quintal, nesses momentos de ocupação aviária. Sei que alguns vizinhos fazem o mesmo, preparando seus quintais para a temporada. Mas, garanto, a caverna é o point preferido na região, pelo passaredo.
Mas desconfio que tem alguém mantendo um sabiá em cativeiro próximo daqui. Porque escuto o canto sempre vindo do mesmo lado, sempre a mesma hora e sempre solitário. Não sei quem é o safardana, mas vou investigar.

Lugar de passarinho é em liberdade. O amigo Ronaldo vem notando a presença constante nos últimos dias de cinco tucanos, seis gaviões e inúmeros sabias e bem-te-vis no conjunto de árvores que cercam o Clube Federal, no Alto Leblon. Não é só uma sinfonia, mas um balé aéreo que dá gosto de ver, ele diz. Seja no subúrbio, seja na Zona Sul carioca, as aves nessa época do ano migram pra onde há boa oferta de sombra e água fresca.
Aliás, vou reforçar o estoque aqui do quintal da caverna. Afinal, na próxima semana a temperatura do Rio chega a 40 graus. Haja sombra, milho e água fresca!!