Esse ano o carnaval começou mais cedo. Em janeiro. Desde a semana passada pelo menos uns 30 blocos, entre oficiais e não autorizados, cruzaram as ruas da cidade, com suas fantasias, baterias, carros de som e legiões de ambulantes vendendo cerveja. Embora a data oficial dos festejos comece daqui a três semanas, já tem pelo menos uma que a brincadeira anda solta pelas ruas. Posso dizer que o carnaval é, de fato, a única festa que conheço que não tem hora pra começar.
Essa sempre foi a graça dessa festa profana que as autoridades insistem em regular. Enquanto abastecia de alpiste os comedouros aqui do meu quintal, observado de perto, por um bando de andorinhas ávidas pela refeição, ouvi no rádio uma velha marchinha, carregada de lembranças, do tempo que lança-perfume era liberado....
E me vi, em outros carnavais. Naquele tempo, a delegacia de Vigilância, na Marechal Floriano, em frente ao Palácio do Itamaraty, prendia as pessoas por pequenos delitos durante o carnaval e botava eles expostos, presos algemados, numa loja velha que tinha no prédio antigo da Vigilância, que tinha, e ainda tem, um movimento de pedestres muito grande por causa da Central do Brasil. A polícia dizia que ali era a sessão de manjamento, mas o apelido era “o que eu vou dizer em casa”, porque eles só eram soltos na quarta-feira de cinzas. Muitos saíam dali ainda fantasiados. Espetacular o troço.
Essa prática resultou na criação da sessão de manjamento de ladrões, autores de pequenos furtos, que ficavam expostos ali durante parte da manhã e parte da tarde, para pegar o fluxo de ida e volta dos passageiros da Central, possíveis vítimas dos gatunos da região.
Lembro também do antigo bloco da quarta-feira de cinzas, que era proibido. O “Chave de Ouro”, que tinha esse nome, exatamente para fechar o carnaval com chave de ouro. A polícia vinha atrás, pra acabar com a festa. Até que anos e anos depois, um administrador regional da área, eu esqueci o nome dele, conseguiu liberar o bloco. E ainda vinha um camburão da polícia abrindo alas. Pô, foi só liberar a festa pro bloco acabar, sumiu. O proibido é que era o gostoso.
Nas ruas aqui do Méier, Encantado, Engenho de Dentro e Piedade, tinha desfile dos pequenos blocos e pequenas escolas de samba. Mas também com o tempo acabou, sumiu. Aqui no bairro tinha o Unidos da Água Santa, num terreno quase em frente ao presídio, onde hoje há um conjunto de habitação coletiva.
Eu lembro que a Unidos de Água Santa tinha como o maior incentivador o Quirino. O Quirino tinha uma cadeira de engraxate no Tribunal do Júri do Centro do Rio. Era o maior incentivador. Ele já morreu há muitos anos. E a escola não existe mais.
Eu tinha meus 14, 15 anos, desfilei a primeira e única vez na minha vida no Arranco do Engenho de Dentro. Eu lembro que eu saí de índio, mas, confesso, eu não sou chegado ao samba, gosto mais de chorinho. Mas desfilei, firme e forte.
Mas a atenção do pequeno público que acompanhava a escola não era pra mim, mas pra parceira que sambava ao meu lado como se fosse meu par. Ela que chamava a atenção. E eu besta, besta, achando que estava abafando. Nunca mais sai em escola de samba. Só a trabalho. Mas é como canta a canção do mestre Dorival Caymmi: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé.”
Acho que sou doente do pé!