Professor e mestre em Sociologia Política, Carlos FrotaDivulgação

Carlos Frota é professor de Português Literatura, palestrante da Escola do Legislativo do Estado (Elerj) e mestre em Sociologia Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio (Iuperj). Advogado especializado em Direito Eleitoral e Partidário, concluiu a dissertação de mestrado com o tema "A Sub-representação feminina no Legislativo Brasileiro: uma análise da política de cotas e seus efeitos", onde revela a falta de representatividade feminina no poder, embora as mulheres sejam maioria no eleitorado.
SIDNEY: A sua dissertação aprofunda um problema crônico na política brasileira: a falta de representatividade feminina. Apesar de as mulheres serem a maioria do eleitorado, ocupam menos de 20% das cadeiras no Legislativo. Como o senhor analisa essa contradição?
CARLOS FROTA: Essa é a grande questão que moveu minha pesquisa. O Brasil é um país onde 52% do eleitorado é composto por mulheres, segundo o IBGE, mas essa maioria não se traduz em poder. Os dados do Tribunal Superior Eleitoral de 2022 são alarmantes: apenas 18% das cadeiras da Câmara dos Deputados foram ocupadas por mulheres e somente 13% no Senado. Essa sub-representação não é um problema de números, é uma questão estrutural. Ela reflete desigualdades históricas e sociais, como a divisão sexual do trabalho, que impõe às mulheres uma dupla e até tripla jornada, restringindo o tempo e a energia para a vida política. A política brasileira, mesmo com pequenos avanços, ainda está muito aquém de refletir a realidade da sociedade.
O Brasil implementou políticas de cotas de gênero para candidaturas, determinando que 30% têm que ser femininas, mas sua pesquisa indica que essas medidas ainda não "viraram o jogo". O que está falhando?
As cotas de gênero, que exigem no mínimo 30% de candidatas femininas desde 2009, foram um passo importante e um tipo de ação afirmativa. Em 2012, os partidos de fato cumpriram essa exigência pela primeira vez, e o número de candidatas aumentou significativamente. No entanto, esse aumento não resultou em um crescimento proporcional de mulheres eleitas. Isso nos leva a uma conclusão preocupante: a inscrição de candidatas muitas vezes tem o único objetivo de cumprir a lei, sem um compromisso real com a viabilidade de vitória. Além disso, a lei garante 30% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para candidatas, mas, na prática, a distribuição desses recursos ainda é desigual e persiste o problema das candidaturas "laranjas" ou fictícias. Ou seja, as políticas existem, mas não são suficientes para superar as barreiras institucionais e culturais que as mulheres enfrentam.
O financiamento de campanha é outro ponto crucial na sua análise. O senhor afirma que o dinheiro "pode definir a eleição" e que a falta de recursos é um grande obstáculo para as candidatas. Por quê?
O financiamento é, sem dúvida, um fator determinante. Em um sistema eleitoral competitivo, como o brasileiro, a capacidade de arrecadar fundos é central para divulgar a candidatura, mobilizar eleitores e ter uma campanha eficaz. Minha pesquisa mostra que as candidatas recebem menos recursos, o que as coloca em desvantagem direta em relação aos homens. Embora a decisão do STF de 2018 tenha determinado a destinação de, no mínimo, 30% do Fundo Eleitoral para candidaturas femininas, a distribuição desses recursos continua desigual. É um ciclo vicioso: sem financiamento competitivo, é quase impossível ter chances de vitória. O financiamento não é apenas um recurso financeiro, mas uma ferramenta de compensação para as múltiplas barreiras enfrentadas pelas mulheres.
Seu estudo também aponta para uma desigualdade regional. Enquanto algumas capitais avançam na eleição de vereadoras, outras parecem estagnadas. Quais são os destaques positivos e negativos nesse cenário?
A análise das últimas quatro eleições municipais, de 2012 a 2024, nas 26 capitais, revelou um padrão claro. Capitais com maior grau de urbanização e concentração populacional, como São Paulo (36,3%) e Belo Horizonte (28%), apresentaram avanços significativos na eleição de vereadoras em 2024. Nessas cidades, a maior diversidade social e a atuação de movimentos sociais e feministas criam um ambiente mais favorável à inclusão. Em contrapartida, capitais como Campo Grande (6,8%), João Pessoa (7,4%) e Manaus (7,3%) ficaram praticamente paradas no tempo, com profunda sub-representação feminina. Isso mostra que, mesmo em condições de "capital", a fragilidade das dinâmicas partidárias podem limitar o progresso. O caso de Cuiabá, que alcançou 33,3% de vereadoras em 2024, serve como um importante contraponto, mostrando que a mobilização local e o engajamento genuíno dos partidos podem romper com padrões estabelecidos.
O senhor sugere que o Brasil pode aprender com exemplos internacionais, como México e Chile. Quais lições podemos tirar dessas experiências?
A análise comparada foi fundamental para esta pesquisa. O México é um exemplo contundente. Após constitucionalizar a paridade de gênero e adotar um sistema de lista fechada, o país alcançou a marca histórica de 50% de mulheres no parlamento. A experiência mexicana é uma das mais avançadas do mundo e demonstra um compromisso sistêmico com a igualdade. O Chile, por sua vez, demonstrou o poder da vontade política ao adotar a paridade na sua Convenção Constitucional de 2021, revertendo décadas de exclusão em poucos ciclos eleitorais. Esses exemplos deixam claro que a adoção de sistemas eleitorais proporcionais com lista fechada e alternância de sexo é mais eficaz do que o sistema de lista aberta do Brasil. Enquanto a lista aberta favorece candidatos com maior acesso a recursos e notoriedade prévia, o que marginaliza as mulheres, a lista fechada garante uma representação mais justa e equitativa. Ter mais mulheres na política não é só uma questão de justiça, mas de fortalecer nossa democracia, tornando-a mais diversa e representativa dos interesses de toda a sociedade.