Retrocesso na COP30foto divulgação

Um pensamento equivocado o de que as questões de gênero surgidas aqui em Belém estão fora do seu “lugar de fala” (expressão em voga) aqui na COP30. Trata-se de um atraso conceitual de pelo menos 3 décadas, quando chegou-se a óbvia conclusão do social ser indissolúvel do ambiental. Não se consegue avanço em um sem que o outro caminhe junto.
Ficam impossíveis os progressos sustentáveis quando alguns países tentaram impor uma viagem regressiva pelo túnel do tempo rumo a Idade Média. Estão usando esses pontos já ultrapassados como condicionantes para seus avais em acordos ambientais.
Choque com Calendário: Semana da Consciência Negra e Parada Gay
Trata-se de um retrocesso social.  São temáticas já pacificadas e aparentemente consensuais que agora, ressurgem das trevas aqui na COP30, como: diferenças raciais, entre homens e mulheres e de exclusão da Comunidade LGBTQIA+.
E o mais afrontoso é que essas pautas colidem com o calendário do Brasil, pais anfitrião, especificamente no Dia Nacional da Consciência Negra e às vésperas da trigésima edição da Parada do Orgulho Gay, a mais antiga do Brasil e de grande parte do hemisfério sul.
LGBTQIA+ e o avanço do Conservadorismo Global
A retórica  do retrocesso na COP30 chega junto com os últimos preparativos para a emblemática trigésima edição, marcada para este domingo na Praia de Copacabana. A primazia carioca não assegurou um percurso tranquilo nessas três décadas, marcada pela perda de apoio e pela perseguição literal por gestões públicas aliadas a grupos religiosos conservadores.
Coincidentemente com a realização da COP30, reaparecem tentativas de impor, “em nome de Deus”, um retrocesso rumo ao obscurantismo. E não são apenas países historicamente intolerantes liderando o atual movimento retrógrado.
Surpreendentemente, comandam essa ofensiva Paraguai e Argentina, desnudando seus contrassensos. São as nações que mais enviam turistas às Paradas do Rio e de São Paulo. Junto na marcha ré da história, o o esperado posicionamento do Irã e chocante retrocesso do Vaticano. Após avanços do pontificado anterior de base franciscana e acolhedora, parece tentar resgatar dogmas medievais marcados por intolerância com as pessoas consideradas “diferentes”.
É significativo o apoio desses três países, a tentativa iraniana de substituir o termo “gênero” por “sexo” como manobra para limitar o conceito e excluir pessoas trans e não-binárias das ações já acordadas em edições anteriores. Essa pressão pela revisão excludente só serviu para travar discussões fundamentais para a continuidade de políticas inclusivas e interseccionais no âmbito climático.
20 de Novembro e perpetuação do Racismo Ambiental
A cidade do Rio também foi a primeira a reverenciar o aniversário de Zumbi dos Palmares, em 2002, demorando 21 anos para que a data se tornasse incorporada como feriado nacional. Essa primazia carioca não garantiu, por muito tempo, que fosse contida quase uma tradição racista em que grupos pichavam, nas vésperas do evento, o gigantesco monumento alusivo, erguido no meio da pista da Avenida Presidente Vargas, uma das mais importantes e movimentadas do Centro carioca.
Isso desafiava, ou contava, com a conivência das autoridades policiais, pois jamais eram flagrados ou identificados em investigações que nunca avançavam.
E, embora nada original, o discurso do anfitrião Lula da Silva repetiu um ponto que parecia pacificado há décadas nas discussões da COP: o de que o momento de emergência climática reflete desigualdades. 
O retrocesso proposto por setores conservadores colide com as demandas históricas do movimento negro. A COP30 expõe uma verdade incômoda: os efeitos da emergência climática recaem com força desproporcional sobre populações afrodescendentes, que enfrentam séculos de desigualdade estrutural e compõem as camadas mais precarizadas do planeta.
O negacionismo desse quarteto de países em retrocesso exemplificam a dificuldade de gestões ultraconservadoras em admitir a dimensão racial da crise climática contrariando consensos científicos e ignorando que o racismo ambiental é uma das bases das desigualdades globais.
O tema entrou em uma Declaração da presidência da COP, que recomenda que as nações promovam a equidade étnico-racial nas dimensões climáticas. Até a véspera do fim do evento em Belém, apenas 19 dos 196 países participantes, incluindo o Brasil, haviam endossado a proposta.
Feminino do Calor da Crise
Os ensaios para o retrocesso em relação às políticas reparatórias voltadas às mulheres também marcaram essa edição do evento da ONU. Inclusive, dificultaram de forma significativas as negociações ambientais, especialmente nos pontos que evidenciam como meninas e mulheres sofrem mais com os efeitos da mudança do clima.
O absurdo é tão evidente que nem é preciso ir longe cientificamente: basta imaginar os impactos do climatério em um planeta escaldante pelo aquecimento global.
O feminino foi introduzido nas negociações climáticas em 2001 e, em 2014, o Programa de Trabalho de Lima sobre Gênero foi aprovado para criar políticas climáticas interseccionais. No ano passado, durante a COP29, no Azerbaijão, a vigência dessa atenção especial foi prorrogada por mais uma década.
O novo rascunho do texto de gênero possui quatro notas de não concordância no rodapé, dos mesmos: Paraguai, Argentina, Irã e Vaticano
Essa tentativa de reduzir o termo pode impedir a atualização do GAP (Plano de Ação de Gênero), que pretende detalhar a agenda para os próximos dez anos, incluindo caminhos de financiamento para adaptação climática destinada às mulheres.
O papel feminino e das minorias são relevantes e não podem ser escondidos embaixo do reluzente tapete do verde ambiental. Além disso, são presenças majoritárias em espaços vulneráveis como favelas, palafitas e áreas conflagradas, o que as torna mais expostas a acidentes decorrentes de eventos climáticos extremos e de conflitos sociais.