Ventos associados ao ciclone tendem a causar estragos Reprodução/internet

Uma questão que inquieta o brasileiro: com as mudanças climáticas, o Brasil pode deixar de ser um território livre de grandes intempéries, como furacões, terremotos, tsunamis e outros fenômenos violentos?
Prever isso está além das capacidades dos cientistas. No entanto, as estatísticas comprovam o grande aumento de eventos naturais extremos, alguns nunca presenciados em boa parte das localidades recentemente afetadas.  
Até há pouco tempo, raramente presenciávamos ou ouvíamos falar em ciclones. Porem, hoje, já estão incorporados ao nosso noticiário local, junto com a maior quantidade e intensidade das frentes e ondas frias.
Na década de 1990, eram menos de dois registros por ano desses tipos de fenômenos, aumentando na seguinte em 240%. E saltou para 19 vezes a mais entre 2021 e 2024.
Aumento Assustador
Desde 1991, o clima extremo e seus fenômenos impactaram 1,2 milhão de brasileiros. A média anual de pessoas afetadas hoje é três vezes maior do que os dez anos anos anteriores. Nesses últimos cinco anos, , registros diretos, de 27,6 mil desalojados e desabrigados, 2,2 mil feridos ou enfermos.
"Os municípios vão enfrentar cada vez mais situações extremas como essas e precisarão de apoio e financiamento climático para ações imediatas de prevenção e recuperação. A pauta climática é urgente e precisa ser tratada agora”, alerta o pesquisador Ronaldo Christofoletti.

Apesar dos prejuízos financeiros, as consequências mais drásticas estão nos bens intangíveis, que não aparecem nas estatísticas, como luto, desaparecimento de animais, perda de documentos, fotografias e objetos de valor sentimental. Dos 97% afetados, mais de 1 milhão de pessoas, sofrem impactos emocionais.
COP30
Como se a natureza tivesse aproveitado a oportunidade para alertar as autoridades mundiais, dias antes do início, em Belém, do encontro global do clima, a COP30, cidades no Sul do Brasil foram devastadas. O saldo no Paraná foi de sete mortos e 700 feridos. E o pior: a previsão é de que outros eventos devam ocorrer até o fim do ano atingindo principalmente as regiões Sul e Centro-Oeste que concentram 74% de incidência.

Ainda como alerta as autoridades, um elaborado estudo está sendo lançado e disponibilizado aqui na COP30. O documento lista 232 municípios brasileiros climaticamente vulneráveis, sendo 83% das ondas de frio no interior e 93% dos ciclones nas cidades litorâneas. 
Providências Urgentes
O dossiê aponta caminhos preventivos diferenciados de acordo com a região. Nas cidades costeiras, é recomendada a aplicação de ações inspiradas na metodologia de  Soluções Baseadas na Natureza (SBN) — como a restauração de manguezais, dunas, restingas e recifes — pode reduzir os impactos de ondas, ventos e ressacas, além de proteger a biodiversidade e oferecer benefícios como alimento, turismo e pesca.

“Em vez de apostar apenas na rigidez da infraestrutura cinza, precisamos ampliar investimentos em soluções verdes e azuis, como manguezais recuperados, dunas preservadas e áreas verdes urbanas, que se adaptam ao ambiente, reduzem riscos e criam cidades mais saudáveis”, frisa Janaína Bumbeer, gerente de projetos da Fundação Boticário.

Já para o interior, o dossiê aponta para o fortalecimento da agricultura sustentável, sistemas agroflorestais, plantio direto, rotação de culturas e o manejo eficiente da água. Essas práticas são listadas como fundamentais para aumentar a resiliência climática.
Conta para pela População
Estamos ainda na metade da década vigente, que já contabiliza no país a destruição de 142 mil bens e infraestruturas, 94% provocada pela passagem de ciclones.
O prejuízo já chega a R$ 1,5 bilhão. O preço pago pelo cidadão acaba sendo em triplo. Com seus impostos, acaba arcando também com os gastos do setor público, estimado em R$ 200 milhões, maior parte em  infraestruturas de energia, transporte e distribuição.
Como consumidor comum ainda acaba subvencionando o setor privado que, na maior parte repassa os gastos extras através de aumento dos preços dos produtos. As empresas somam gastos na ordem de  R$ 2,5 bilhões, principalmente na agricultura e no comércio.
Se não bastasse, o cidadão ainda tem que arcando com os danos diretos sofridos nas suas habitações em 52% dos casos e 46% em obras de recuperação.