“O Vinicius escreveu uma crônica no jornal ‘Última Hora’ em que ele dizia para mim: ‘Que você seja jovem e ouça música jovem, tudo bem. Mas que você troque meu sobrenome pelo desse beatle com boca de chupar ovo, não dá’”, lembra Georgiana, encantada. “Acho que ele ficava com ciúme, achando que podia ficar para trás. Mas os Beatles também são clássicos, como ele, Tom... Imagina se eu ouvisse música ruim?”
‘A Vida Tem Sempre Razão’, em 17 músicas, faz um apanhado de clássicos de Vinicius com intérpretes como Chico Buarque (‘O Amor em Paz’), Edu Lobo (‘Canto Triste’), Arlindo Cruz e Moyseis Marques (um pot-pourri com ‘Consolação’, ‘Formosa’ e ‘Pra Que Chorar’), Ana Carolina (‘Eu Sei Que Vou Te Amar’), Seu Jorge (‘Canto de Ossanha’), Joyce Moreno e Roberta Sá (‘A Felicidade’), Toquinho (a faixa-título) e Maria Creuza (‘Onde Anda Você’). Fagner traz com uma pérola menos conhecida do Poetinha, ‘Chora Coração’. “Escuto essa música desde 1973 e fiquei muito emocionado em cantá-la”, recorda. João Bosco, que chegou a ser parceiro de Vinicius quando bem jovem, preferiu reler, só com voz e violão, ‘Medo de Amar’, que tem tocado em shows. “Vinicius significa pra mim mais de 40 anos de carreira. Acho que fiz o dever de casa que ele me passou durante toda a vida”, crê.
“Levávamos ideias para todos os nomes, mas cada um vinha com uma sugestão. Não sei se pecamos, já que o disco não tem um conceito, tipo ‘novos artistas gravam Vinicius’, mas o grande conceito foi a beleza. Muitas músicas foram tocadas de uma forma que as torna mais lindas.” De bônus, dois grandes sucessos: ‘Pela Luz dos Olhos Teus’, composta apenas por Vinicius, na gravação de Tom Jobim e Miúcha feita em 1977. E ‘Garota de Ipanema’, de Tom e Vinicius, gravada em 2000 por Emilio Santiago, morto em março. “Ele precisava estar no disco.”
Terceira dos cinco filhos de Vinicius, filha de Lila Bôscoli, Georgiana foi percussionista do pai a partir dos anos 70. “Nem sou um grande talento da percussão, mas sempre tive ritmo. Fui meio na cara de pau”, lembra ela, que viu o poeta ser censurado no palco, em Brasília, em 1973. “Meu pai recitou um poema que falava das mortes dos Pablos Picasso, Casals e Neruda, e encerrava com um ‘vá para a p... que o pariu’. Foi proibido de voltar ao palco.” Em 1977, estava na banda quando Vinicius, Miúcha, Tom Jobim e Toquinho fizeram uma temporada de quase oito meses no Canecão. “Desde os anos 60 o Tom e o Vinicius não apareciam juntos no palco. Foi um marco.”






