Rio - Durante muito tempo, incapaz de me desvincular do meu antigo trabalho — anos depois, descobri que a chave da porta da liberdade estava em minhas mãos —, encarava o engarrafamento nosso de cada dia ouvindo a mesma música. ‘Capitão de Indústria’ era um mantra que antecipava uma possível e redentora mudança de ares. A canção dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle ganhou fama na voz de Djalma Dias, cantor com nome de craque da bola, em 1972, ao ser incluída na trilha da versão original da novela ‘Selva de Pedra’. Mas ela me chamou atenção mesmo ao ser regravada pelos Paralamas do Sucesso no disco ‘Nove Luas’, de 1996, um dos que mais amo nesta e em outras vidas.
Tenho um grande amigo, que não vejo há anos, dos tempos em que vivi em Manaus, que me deu, na juventude, uma lição musical inesquecível. Grande cantor e violonista, músico da noite, Rui me fez prestar atenção em ‘Certas Canções’,de Milton Nascimento e Tunai. “Eu conheço”, disse instantaneamente, na afobação dos meus 15, 16 anos. Ele levou o indicador à boca, me pedindo silêncio. “Certas canções que ouço/ Cabem tão dentro de mim/ Que perguntar, carece/ Como não fui eu que fiz?”. Uau, eu não conhecia nada! Quantas músicas passam pelos nossos ouvidos desatentos, entram em nossas cabeças, mas não em nossas almas? Letrista, homem de palavra e palavras que sou, passei a levar a sério cada gota de suor, cada fagulha de inspiração de um compositor.
Talvez por isso, ‘Capitão de Indústria’, e toda a sequência de ‘Nove Luas’, um raro disco que conta uma história, que te pega pela mão para um passeio sublime por sensações que extrapolam as canções, me ganhou de jeito. Não canso de ouvi-lo. Mas preciso voltar à música que inspira esta coluna — ai, maldita distração que me aflige —, uma reflexão profunda sobre o nosso lugar, ou a ausência dele, no mundo moderno, na correria insana do dia a dia, na necessidade de justificar nossa presença nesta maravilhosa esfera subvalorizada pelo ser humano. Era um momento de questionamento pessoal, de absoluta decepção com o que fazia e com as relações profissionais. Não, eu não precisava mais agredir a minha própria natureza.
“Eu às vezes fico a pensar/ Em outra vida ou lugar/ Estou cansado demais/ Eu não tenho tempo de ter/ O tempo livre de ser/ De nada ter que fazer”, diz a música. Nem sempre é possível abrir mão de algo que conquistamos, que lutamos muito para conquistar, mas por vezes é preciso pensar que outras vitórias estão por vir, que as glórias que ficaram para trás já estão em nossas salas de troféus, e elas têm muitas prateleiras vazias à espera de novos triunfos, sejam eles pessoais ou não. E essa era a questão que me afligia. Eu me encontrava, como continua a música, “perdido nas coisas que eu criei”. Eu não via, “além da fumaça, o amor e as coisas livres, coloridas, nada poluídas”.
Foram cinco anos ouvindo a mesma canção, me revirando no divã, jogando conversa fora nos botequins, me lamuriando pelos corredores. Até que um dia caiu a ficha no velho orelhão. Procurei alguns amigos do peito, abri meu coração e, em uma semana, isso, cinco anos em uma semana, estava livre, em outro lugar, com outras pessoas, recuperando as rédeas da minha vida. Ganhando menos, vivendo mais.
No Dia do Trabalho que se aproxima, além de Ayrton Senna, nosso ídolo das manhãs de domingo, que morreu exercendo seu ofício, procuro lembrar também que não quero mais acordar, dormir, correr, viver para trabalhar como diz a canção. Adoro trabalhar, produzir, criar, mas também há vida lá fora e eu quero viver.






