Por daniela.lima

Rio - Elas não dançam conforme a música. Pelo contrário: assumem as carrapetas e comandam o som. Se há alguns anos eram poucas as mulheres DJs, hoje não só é comum vê-las no papel da figura central da noite, como a cada dia surgem novos talentos femininos das picapes, mostrando que os tempos em que os homens reinavam nas pistas ficaram para trás.

Katrina%2C Sabrina%2C Marcela e Mary Dee%3A InDelicadas comandam festa com seu nomeDivulgação


“O preconceito de gênero existe e nós temos que combater todos os dias. Acho uma grande vitória ter tantas mulheres produtoras e DJs na cena atual. Para mim, foi difícil estabelecer laços. Comecei com 18 anos, produzindo meus primeiros eventos. Mas, nesse caso, acho que a minha idade era mais contrastante do que o fato de eu ser mulher”, conta Ingrid Gründig, de 20 anos, que há dois começou a tocar e produzir a festa Quebrando a Cena, que acontece uma vez por mês, e mistura funk e rock. Companheira de profissão, Júlia Gameiro, de 23, concorda.

“O sexismo está diminuindo de uma maneira geral... Separação de gênero é uma coisa bem ultrapassada, na minha opinião. Eu toco pop, funk e trash nacional. Spice Girls, Valesca, Pepê e Neném e por aí vai. Já vi as pessoas torcendo o nariz muito mais por eu tocar pop brega do que pelo meu sexo”, opina ela, que há um ano produz e comanda, junto ao amigo Raphael Narciso, a festa Bomba Santa, na Fosfobox.

Mas, por mais que os frequentadores da noite estejam acostumados a ver mulheres à frente do som, elas volta e meia ainda têm que lidar com o assédio. É o que contam Sabrina, Mary Dee, Tchella e Katrina, as meninas do quarteto InDelicadas. “É claro que chama muita atenção quatro mulheres tocando juntas. Já passei por umas situações tensas, de mexerem no meu som, desligarem meu equipamento”, diz Mary Dee. “Muitas vezes, nós temos que lidar com pessoas que bebem demais e perdem a noção. Já recebi puxões meio agressivos e cantadas de assustar. Mas eu sempre levo na boa e tento tratar todo mundo com carinho”, revela Ingrid.

PRECONCEITO NO CAMINHO

Os inconvenientes hoje são exceção, mas o caminho para isso não foi fácil. Em um meio antes majoritariamente masculino, as DJs de gerações anteriores enfrentaram muito preconceito para se estabelecerem como profissionais com mais do que charme e beleza a mostrar. “Eu tinha que enfrentar dois preconceitos: o fato de ser mulher e o de ser atriz. Quando eu chegava em algum lugar para tocar, vinha sempre um DJ querendo dizer ‘mexe aqui, é assim que faz’, querendo ensinar. Eu costumava ficar quieta, porque sabia que, quando chegasse a hora de tocar, eu mostraria o que sei fazer”, afirma Giordanna Forte, ex-residente da festa Chá da Alice.

Desde que Giordanna começou a comandar as picapes, há quase dez anos, muita coisa mudou, e, atualmente, as meninas vêm conquistando mais moral no comando das pistas de dança. Desrespeitos à parte, a vez é delas. “Acompanho e vejo que tem muita menina muito boa surgindo!”, opina a veterana Giordanna. Na canção ‘Run The World’, de Beyoncé, a cantora afirma que as mulheres dominam o mundo. As pistas, com certeza, já estão dominadas por elas.

NO SOM E NA PRODUÇÃO

Além de comandar o som, muitas meninas também ficam responsáveis pela produção das festas e pensam em todos os detalhes para fazer com que a experiência seja marcante para os frequentadores. Vale tudo para imprimir estilo e personalidade à noite que assinam. “Temos um bandeirão que cobre a pista em um determinado momento da noite e a galera pode fazer o que quiser embaixo. Rola concurso de camiseta molhada, menor shortinho e de passinho também.

Tento sempre passar uma visão pessoal e proporcionar uma energia única e divertida”, conta Ingrid, da festa Quebrando a Cena. A Bomba Santa, de Júlia Gameiro, também busca inovar. “A festa é temática e a gente costuma fazer uma coisa diferente a cada edição. Já montamos produção pra tirar foto de diva, contratamos uma cartomante, uma tatuadora... Um monte de coisas!”, conta.

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