Por tabata.uchoa

Rio - Compositor, mestre do cavaquinho e autor do célebre choro ‘Brasileirinho’, Waldir Azevedo (1923-1980) era, assim como Ronaldo da Conceição Júnior (o Ronaldinho do Cavaquinho, como é carinhosamente chamado o músico carioca), morador do Méier, e tem parte de sua história registrada no bairro. Ronaldinho herdou da própria viúva do mestre o acervo desse que é um dos mais importantes músicos do Brasil.

Fotografias, diplomas, partituras, instrumentos, vitrola, mobiliário, cartas e objetos pessoais estão entre os itens guardados por Ronaldinho. Em breve, esse acervo parte para a cidade de Conservatória, a 142 quilômetros do Rio, que passará a abrigar o Instituto Waldir Azevedo. O projeto já conta com o espaço e oferecerá oficinas de música e artes em geral.

Ronaldinho do Cavaquinho%2C com instrumento de Waldir Azevedo%2C olha o quadro que foi parar na contracapa de um discoMazé Mixo / Divulgação

“Essa história é bem interessante e cheia de coincidências”, entusiasma-se Ronaldinho. “Fui tocar cavaquinho em uma pousada de Conservatória, em 2007. Um hóspede me deu uma carta com muitos elogios ao meu trabalho e fazendo referências a Waldir Azevedo. Meses depois, recebi um telefonema. Era Dona Olinda, viúva de Waldir, dizendo que queria me conhecer. Quando fui encontrá-la, levei a tal carta. Ao ver, ela chamou a atenção para a data: era de 27 de janeiro, dia do aniversário de Waldir”, espanta-se.

A viúva só entrou em contato com Ronaldo por ter ouvido um CD dele em um consultório médico.
“A médica tinha comprado o meu CD em Conservatória. O disco estava tocando como música ambiente, e a Dona Olinda pensou que era o marido. Pegou o número do meu celular na contracapa e aí me contou sobre sua preocupação com o acervo”, relata ele.

Depois de uns anos abrigando o material em sua própria casa, finalmente Ronaldo conseguiu o imóvel que vai acolher o instituto, avaliado em pouco mais de R$ 1 milhão. “A maior parte do dinheiro foi doação de um músico e amigo de Conservatória, José Luiz Teixeira, morto no ano passado. Ele doou R$ 600 mil em espécie para a compra de uma sede, mas morreu 11 dias depois, em um acidente de carro”, lamenta Ronaldo. “Depois, arrecadei mais verbas. Vamos levar faculdades para visitar, vai ter uma orquestra que Furnas já prometeu patrocinar, a Light também vai ajudar.”

RARIDADES

Entre as peças raras do acervo, Ronaldinho destaca um quadro específico. “Quando o Waldir perdeu um dos dedos da mão esquerda, que depois foi reimplantado, ele ficou quase um ano sem tocar e a pintora Cléa Maria Novelino fez esse quadro dedicado a ele, de nome ‘Minhas Mãos, Meu Cavaquinho’, que acabou batizando também uma musica e um disco do Waldir, de 1976. Ele fez esse álbum em agradecimento a Deus por ter voltado tocar cavaquinho. Na contracapa tem a foto do quadro, com um texto assinado por ele contando essa história”, relata.

Ronaldinho do Cavaquinho lista ainda outros objetos que vão atrair a atenção no Instituto Waldir Azevedo. “Tem um baú onde ele guardava uns livros, a vitrola onde tocava seus discos. Mas, especialmente, a cadeira de balanço onde sentava por horas, chorando com cavaquinho depois que uma de suas filhas morreu e onde compôs muitas músicas. Tem ainda copos, abajur, muitas coisas musicais e pessoais”, lista. “Estava muito frustrado de guardar esse acervo na minha casa. Queria expor para as pessoas.”

'Virou toque de celular'

Ronaldinho do Cavaquinho adora contar a história de ‘Brasileirinho’, música mais emblemática do mestre Waldir Azevedo, também compositor dos clássicos ‘Delicado’ e ‘Pedacinho do Céu’. “Ele era jovem, foi visitar a prima da esposa. Um sobrinho de 11 anos tinha lá um cavaquinho com apenas uma corda e pediu para o Waldir tocar alguma coisa. Ele falou que não dava, mas pegou o cavaquinho, começou a brincar nessa única corda e saiu ali o início do ‘Brasileirinho’. Aí ele chegou em casa, desenvolveu a música e cinco semanas depois tocou ela em um programa, em 1949. O (compositor) Braguinha estava na plateia, viu o potencial do Waldir e o chamou para gravar. E foi uma epidemia nacional. É o único choro que toca em Copa do Mundo, Olimpíada e até já virou toque de celular...”, destaca.

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