João Pimentel: Não deixe o samba morrer

Se hoje já não há espaço em suas próprias casas, as escolas de samba, ele mantém acesa a sua chama nas ruas

Por daniela.lima

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Rio - “O dia se renova todo dia/ Eu envelheço cada dia e cada mês/ O mundo passa por mim todos os dias/ Enquanto eu passo pelo mundo uma vez”. Bastou Monarco lembrar este samba de Alvaiade, como o mestre costuma dizer dos seus pares, “honra e glória da Portela”, para cair a ficha, para a realidade surgir de forma dolorida. O show de lançamento do disco ‘Passado de glória’, comemorativo dos seus 80 anos, uma esmerada produção do seu filho e herdeiro em talento Mauro Diniz, foi uma apoteose no belo teatro do Imperator, no Méier, hoje renomeado de Centro Cultural João Nogueira. Mas ao evocar o já citado Alvaiade, além de Manacéia, Chico Santana, Alberto Lonato, Argemiro, Jair do Cavaquinho e outros baluartes, Monarco, despropositadamente, me lembrou que não há renovação nas velhas guardas das escolas.

No dia seguinte, foi a vez de eu desfrutar da amizade de Nelson Sargento numa festa promovida por amigos no restaurante Sobrenatural, em Santa Teresa. Isto porque a Mangueira não planejou nenhuma comemoração pelos 90 anos do maior personagem vivo de sua história. Mas o presidente Chiquinho da Mangueira teve ao menos a coragem de aparecer por lá, levar representantes da escola e prometer uma homenagem à altura da mais alta patente do samba. Mas foi inevitável, ao ver o grande Tantinho com sua voz ímpar entoando sambas de Cartola, Nelson Cavaquinho, Padeirinho, Carlos Cachaça, lembrar o dia anterior e confirmar a tese de que teremos que recorrer aos mestres do passado para contarmos a história de escolas que parecem não perceber o problema.

Não é necessário fazer nenhum grande estudo para constatar que as mudanças ocorridas no Carnaval — onde o dinheiro passou a ditar as regras e os compositores representativos perderam lugar para escritórios de sambistas — foram responsáveis por esta terra arrasada de talento.

Mas o samba tem o dom de se reinventar, de renascer diariamente. Se hoje já não há espaço em suas próprias casas, as escolas de samba, ele mantém acesa a sua chama nas ruas, nas rodas da Pedra do Sal, do Renascença, do Beco do Rato, do Cacique de Ramos, e novos e bons compositores surgem. São nomes distantes, é claro, da magnitude de um Sargento e de um Monarco, mas que fazem a roda do samba girar. Artistas que ainda terão o talento reconhecido.

Para citar alguns, João Martins, Inácio Rios, Raul Di Caprio, Baiaco. E também cantores como Makley Mattos, Julio Estrela, Leo Russo, Marina Íris, Gabriel da Muda. No Sobrenatural, eu me vi na figura de um garoto dos seus 16, 17 anos, sei lá. Ele conhecia todos os sambas cantados na roda. E acompanhava tudo com um sorriso no rosto e um brilho nos olhos. Depois conversamos e descobri que ele se chama Ney Souza, que é um jovem talento do violão brasileiro, que é de Itaguaí e estava com os pais de passagem pelo Rio. Quando eu tinha a sua idade, me lamentava por não ter conhecido pessoalmente Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho. Mas tive o prazer de conviver com Monarco, Sargento, Wilson Moreira, Zé Keti, Tantinho, Argemiro e a maioria dos já citados acima.

Faz bem ele em desfrutar desse convívio, em estar por perto de alguns dos brasileiros mais importantes, mestres de uma época em que ser sambista ia além de compor versos imortais. Pena é saber que a sabedoria, a elegância, a educação e o respeito ensinado por estes personagens não são absorvido por todos.

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