Bia Willcox: Pra sempre nem sempre

A verdade é uma baranga, feia que dói: nada é para sempre. É no mínimo algo que, se não acaba, se transforma

Por daniela.lima

Bia Willcox%3A Pra sempre nem sempreDivulgação

Rio - Para sempre não é para sempre. Estranha contradição. Óbvia afirmação.

Você já deve ter se dado conta disso antes de mim. Tenho a nítida impressão de ter sido uma das últimas pessoas a descobrir isso.

É duro de acreditar. Eu devia ter suspeitado. Devem ter coisas para sempre. Mas só coisa chata, sem graça. Coisa que não dá vontade de ser. Estou falando de pedra, tijolo, cimento, tronco de árvore, areia. Aí, só de teimosia elas são — são pra sempre.

Mas voltando à minha descoberta, como eu demorei tanto a perceber que o para sempre é fake? Conversa para boi dormir. Vou processar os irmãos Grimm e todos os demais da turminha deles por danos morais: eu acreditei nos contos de fadas. A gente morre. E se a gente não é para sempre, por que algo que tem a ver com gente deveria ser? A verdade é uma baranga, feia que dói: nada é para sempre. É no mínimo algo que, se não acaba, se transforma. E isso se considerarmos a morte como o prazo de validade máxima do para sempre.

Sendo o para sempre até que a morte chegue e separe todo mundo, eu abro exceção para os amores maternais, fraternais, filiais. Esses podem sempre ser para sempre.

Mas os demais afetos jamais serão para sempre. Nossas paixões não são para sempre. As estações não duram para sempre. Nem as gestações. Nem o inevitável teto preto que bate em todo mundo um dia pelo menos ao longo da vida. Nada dura tanto que não acabe. Feio assim. O para sempre, sempre acaba (e isso não foi dito nem cantado por mim).

E cá entre nós, se os casos, paixões, tesões e amores fossem para sempre, sempre os mesmos, acho que iam ser sem graça como as pedras, troncos e areias. Eles acabam. Ou ao menos têm um fim para recomeçar com algo de novo, diferente.

Não adianta brigar, rezar, fazer promessa nem macumba. Não adianta buscar fórmula, nem estudar bem o assunto: acaba.

E olha, dizem por aí, que muito do que acaba está abrindo alas para algo que, até que se acabe de novo, será melhor. Hei, não estou falando de namorada, marido ou afins tão somente. Pode ser dentista, psicanalista, manicure ou professora de inglês. Estou falando de se acostumar ao fim. Estou falando de para sempre enquanto durar. Aquela tal chama que mantém a gente aceso e pulsando (também não fui eu que recitei) — eterna enquanto dure.

É. Não processarei mais os ficcionistas históricos da humanidade que patentearam o ‘viveram felizes para sempre’. O para sempre deles tinha o prazo de até a próxima. Eu que não captei a mensagem tão rapidamente.

E assim caminhamos. Acreditando numa verdade mais formosa e atraente, onde nossos instintos e impulsos teimam em nos fazer crer que é para sempre.
Mesmo sabendo que não, está valendo a crença.

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