João Pimentel: A cidade simplesmente flutuou

O outro passa a ser outro, ou a outra passa a ser outra, e a vida segue o seu rumo natural da incerteza

Por daniela.lima

Rio - Então depois de alguns anos decidiram que era hora de recolher seus trapos e seguirem caminhos diferentes vida afora. No rádio do carro, nos momentos chorosos de arrependimentos, de mágoas e da tristeza de saber que aqueles sonhos de felicidade ficaram para trás, uma música do Skank veio como uma pá de cal poética: “Quando eu disse a ela que o amor passou/ a cidade simplesmente flutuou”. Já não cabia neles “reinventar o espaço/ juntos manter o passo/ não ter cansaço/ não crer no fim” dos versos de Gil. 

João Pimentel%3A A cidade simplesmente flutuouDivulgação


E a cidade simplesmente flutuou. É incrível como, salvo raras exceções, as pessoas se preocupam com a vida alheia mais do que com a própria vida. Até quem é distante se aproxima para lamentar o fim de um amor. “Nunca imaginei que vocês fossem se separar.” “Vocês pareciam tão bem.” “Mas como isso aconteceu?”

“Acontece que o meu coração ficou frio e o nosso ninho de amor está vazio”, responderia Cartola. “De repente, não mais que de repente/ Fez-se de triste o que se fez amante/ E de sozinho o que se fez contente”, argumentaria Vinicius de Moraes. Mas “de tudo ficou um pouco/ Do meu medo, do teu asco/ Dos gritos gagos/ Da rosa ficou um pouco”, acrescentaria Drummond.

O fato é que a dor da gente é privada, é contida, e não deve ser compartilhada nem curtida na mediocridade da lógica facebookiana que assola a humanidade.

Então a vida, aos poucos, retoma o seu caminho. As lembranças ruins vão se esvaindo, as boas ficam como velhas fotografias no baú da memória e o outro passa a ser outro, ou a outra passa a ser outra, e a vida segue o seu rumo natural da incerteza.

Dividir a vida é uma experiência sublime, independente do tempo que isso dure. São pensamentos, músicas, sensações, lugares, gostos. Não tem explicação para quem está de fora. É como ir a um museu e dar de cara com uma pintura de Monet, de Van Gogh; é como chegar em um bar como o Semente e encontrar o Chico Buarque dando uma canja; é como ter tido o prazer de ter visto o Zico, ou o Maradona, ou o Pelé jogar. Ou talvez ter ouvido Luiz Carlos da Vila cantar versos inéditos numa madrugada suja no Nova Capela. Não há explicação possível. Sensações não são fáceis de explicar.

Por essas e outras, é difícil recomeçar, acreditar que ser feliz novamente é possível. E muitas vezes isso passa por estar atento, por não dar ouvidos aos outros, por seguir a nossa intuição. Nem tudo tem que ser dividido, nem tudo deve ser falado, quase nada deve desviar o foco do encantamento. Quebrar a cara é sempre um lugar possível. Mas deixar a vida passar sem riscos é uma estrada muito da sem graça.
Fico com Tom Jobim: “A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar / Voa tão leve, mas tem a vida breve/ Precisa que haja vento sem parar.”

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