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A família Bérlier do longa francês dirigido por Eric Lartigan

Por paulo.gomes

Rio - O filme é do ano passado. Achei curiosa a história de uma família de surdos-mudos em que apenas a filha, Paula, nascera sem nenhuma deficiência. Mas, para variar, eu me programei, me programei e perdi. Outro dia na locadora, sim, eu frequento locadoras, lá estava ‘A Família Bélier’. Pensei: “Uma comédia francesa leve, tá pra mim”.

E realmente o filme caminha para um lugar comum da menina que descobre o amor, o talento para cantar e encontra um professor frustrado que vê nela a oportunidade de se reinventar. A trilha sonora, baseada na obra de um dos mestres da canção francesa, Michel Sardou, é linda, e serve de contraponto para a ambientação do filme: Paula vive numa fazenda — onde a família produz leite e fabrica queijo — e canta no coro da escola. Um mérito do diretor Eric Lartigau é não se deixar levar por estereótipos. Os jovens falam gírias, se vestem conforme a moda e têm as mesmas ambições e dilemas de um jovem qualquer de Paris, Rio ou Nova York. E, no princípio, acham chato ter que cantar músicas de Sardou.

A família Bérlier do longa francês dirigido por Eric LartiganReprodução Internet

Mas o filme tem algo mais. Paula, interpretada pela cantora Louane Emera, descoberta no programa ‘The Voice’ francês, é mais que uma filha que ameaça ir embora ao tentar um teste na Radio France, ela é a voz do pai, que ambiciona a prefeitura da cidade em que vivem, e da mãe, na venda de laticínios na feira local. Tudo gira em torno dela que quer se ver livre daquela situação. E a solução do filme, o tal teste, é comovente.

O pai percebe o mal que estavam fazendo à filha, que havia desistido da música, e pede para ela cantar enquanto encosta o ouvido em seu peito. Na manhã seguinte, eles vão à capital para o teste. Ela, acompanhada apenas do mestre ao piano, a banca, o namorado e a família, que faz cara de paisagem por não poder ouvi-la. A canção, ‘Je Vole’, que fala justamente da inevitável saída de casa, é um primor: “Queridos pais, estou indo embora/ Eu amo vocês, mas estou indo embora/ Não terão mais filho esta noite/ Não estou fugindo, estou voando”.

Eu li em uma crítica que a atriz-cantora peca na cena, que não tem um trabalho corporal à altura de sua voz. Loucura. Ela começa tímida como o seu personagem pede e, em determinado momento, olha pros pais e interpreta a música na linguagem dos sinais, como em uma coreografia. Gestos e música se casam numa das cenas mais emocionantes que eu vi nos últimos tempos. Chorei.

No dia seguinte, ouvi várias vezes ‘Je Vole’ e me veio à mente muitas canções que falam dos rompimentos, da necessidade das pessoas seguirem seus caminhos, alçarem voos próprios, “porque não há nada sem separação”, como disseram Toquinho e Vinicius. “Assim, chegar e partir são só dois lados da mesma viagem”, lembraram Milton Nascimento e Fernando Brant em ‘Encontros e Despedidas’.

Mas Caetano Veloso e Gilberto Gil acertaram na mosca em ‘No Dia Em Que Eu Vim-me Embora’: “No dia em que eu vim-me embora/ Minha mãe chorava em ai/ Minha irmã chorava em ui/ E eu nem olhava pra trás/ No dia que eu vim-me embora/ Não teve nada de mais”. É isso, esse é o caminho natural, dolorido, sofrido, mas natural. Não há de ser nada de mais.

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