Bia Willcox: Cisma não é paixão

Na cisma, você acha que é um azarado(a) porque vive se decepcionando

Por thiago.antunes

Rio - Dia desses estava eu no Baixo Gávea, Rio de Janeiro, sentada com amigos e levando aquela típica conversa de bar. Amigos solteiros, recém-separados, casados e arranjados — amigos de chope e de filosofia. 

E eis que surge o eterno questionamento da humanidade: o que faz as pessoas se apaixonarem? Qual é o gatilho? Há um modelo? O que se espera da paixão ou dos efeitos dela? É muita dúvida para um chope só. Vamos por partes, disse eu, do alto da minha pretensão:

1) Cisma e paixão são coisas diferentes. Cisma é quando você é apaixonado pela ideia de estar apaixonado por alguém. É quando você ama você mesmo pelo seu estado de paixão. Daí qualquer um ou uma pode ser vítima da sua cisma, que normalmente acontece à primeira ou à segunda vista e até por Tinder ou Happn.

2) Na cisma, você acha que é um azarado(a) porque vive se decepcionando e “tomando toco” de outras pessoas que, unilateralmente, você decidiu que seriam “as pessoas da sua vida”. Isso não é azar, é egocentrismo, ingenuidade ou até mesmo uma certa infantilidade. Faltou aprender que paixão não é fast food como se pensa erroneamente.

3) Paixão é aquela que começa por uma primeira conexão de atração física, intelectual ou as duas juntas. Há que haver qualquer tipo de admiração inicial — seja pelo corpo, os olhos, o jeito de mexer o cabelo, a inteligência, a personalidade ou até por um feito heroico que revela caráter raro.

4) A atração é só um ponto de partida. Às vezes, começa-se algo pela atração física e se descobre uma admiração qualquer no caminho. Outra vezes, é o contrário, através de uma relação de amizade onde, além das afinidades, há recíprocas e múltiplas admirações, pode se desenvolver um tesão até então oculto e, bingo, a paixão acontece.

5) Para a cisma podemos ser cegos. Afinal, cisma é uma expectativa alta e unilateral. Algo na fronteira entre a idealização extrema e um conto de fadas.

6) Para a paixão, os olhos devem estar bem abertos e atentos (a cegueira dos apaixonados vem depois e é parte integrante do pacote da paixão), pois, caso contrário, podemos deixar passar experiências incríveis, pessoas que nos proporcionarão momentos de felicidade extrema, só porque “não é o meu tipo”, “não é padrão fitness”, “é estranho”, “bobo, dentuço, chato”, ou ainda, “não é o que planejei pra mim”. Se você reage assim às novas possibilidades, você é um cismado que não entende nada de paixão. Nada impede que você dê sorte e transforme a sua cisma em um lindo romance apaixonado e recíproco, mas saiba, as chances de você se tornar um reclamão amargurado são bem maiores.

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