Roberto Bomfim - Globo/Divulgação
Roberto BomfimGlobo/Divulgação
Por BRUNNA CONDINI | [email protected]

Rio - Ele é machista e preconceituoso: renega e humilha a filha lésbica, e expulsa de casa com violência a outra herdeira quando descobre que ela é garota de programa. Além disso, menospreza diariamente a companheira de muitos anos. Sim, é ficção e de novela das 21h, mas infelizmente, também poderia ser realidade. Talvez por isso, Agenor, personagem de Roberto Bomfim em 'Segundo Sol', tem despertado a ira do público feminino e masculino nos últimos capítulos da trama.

Mas afinal, ele pode ser considerado mais um vilão no currículo de Bomfim?

"Agenor não é mau, ele é um escroto. Um troglodita escroto", define. "Mas podem considerar ele um vilão. Já não fazia um personagem assim há muito tempo. Gostei".

Conhecido por ser um dos recordistas na TV Globo, com mais de 60 produções entre novelas e séries, o ator brilha muito na pele do garçom do restaurante de Cacau (Fabíula Nascimento), marido de Nice (Kelzy Ecard), e pai intransigente de Rosa (Letícia Colin) e Maura (Nanda Costa).

"As mulheres vêm falar comigo e dizem que querem me matar. Isso é sinal de que o trabalho está sendo bem feito", acredita. "Mas o público é sempre carinhoso e respeitoso comigo".

RELEVÂNCIA

Ele volta em grande estilo ao horário das 21h, depois de pouco mais de dois anos longe dos folhetins. “Na última novela, ‘Império’(2014), fui diagnosticado com uma artrose nos quadris. No final, já estava de cadeira de rodas, mas sambando”, lembra, sem perder o humor.

“Coloquei um balão (intragástrico), que depois você tira. Perdi 20 kg. E coloquei prótese nos quadris”, conta. “Depois, fiz uma minissérie no Pantanal, uma produção do Mato Grosso”.

Conhecido ao longo de 50 anos de carreira por seus personagens populares, o ator ressalta a importância dos assuntos abordados na trama de João Emanuel Carneiro.

“Ali, com Agenor, existe uma discussão da violência contra a mulher. Da mulher que se deixa depender e ser diminuída pelo marido. Essa discussão ainda é necessária”, reflete. E acrescenta: “Olha, o que eles vivem não está longe. Já socorri uma mulher no apartamento ao lado. Arrombei uma porta. As pessoas não queriam se meter”.

REPERCUSSÃO

Roberto afirma ser inadmissível ver uma relação desrespeitosa como a que Agenor mantém com Nice. “Sempre fui um grande defensor das mulheres, me indigno. Eu as amo”, diz. “Não tem essa de ‘em briga de marido e mulher não se mete o colher’. Se mete, sim. Não ouse bater numa mulher na minha frente”, avisa.
Mesmo tendo vasta experiência em sets, o ator comenta ainda sobre a dificuldade de fazer algumas cenas. “Ele é um covardão. É terrível. Tem cenas muito difíceis. Eu e Kelzy (Ecard) nos abraçamos antes e depois”, compartilha.

“É um núcleo familiar em que somos muito amigos. Aliás, nesta novela, vemos o quanto o elenco se ama. Isso se reflete na tela. Já tinha visto assim em núcleos, mas nunca na novela toda. É de verdade”.
Para ele, todo mundo conhece um Agenor. “Já vi muito isso. Está ‘encruado’ na sociedade. Este comportamento machista. E a mulher, muitas vezes por dependência econômica, se sujeita a isso”, comenta.

“Ele também levanta a discussão sobre intolerância quando lida com as filhas. Com ele não tem diálogo”.
E conclui: “A pressão que a mulher sofre é diária e não tem classe social. Eu e a Kelzy estamos com nossos personagens dando voz a esta importante discussão. É impressionante, estou assustado com a repercussão”, confessa o ator, que até este ano não tinha nenhuma rede social.

PERSONAGENS NORDESTINOS

Carioca, Roberto Bomfim acumula uma galeria de personagens nordestinos, como o atual. “Sou carioca do Leblon. Na verdade, acabam me escalando para personagens mais populares. Deve ser porque conheço o povo brasileiro. Adoro pegar o carro e viajar pelo interior do Brasil. Conheço muito, gosto do país”, opina.
“Viajo, sento, bebo uma cachacinha e observo. Tiro férias e tomo banho de Brasil. Ando quilômetros, entendo o povo, então sei fazer o povo”, completa.

SEGUNDA CHANCE

Será que Agenor vai mesmo se arrepender?

“Ainda não sei, mas acho que todo mundo merece uma segunda chance”, afirma, mencionando o mote da trama. “Isso é permitir ir fundo, tentando encontrar o bom que existe em cada um”.

Aos 73 anos e com uma trajetória extensa na TV, no teatro, onde começou, e no cinema, Bomfim planeja continuar dando vida a personagens que possam ajudar as pessoas.

“Sonho em continuar trabalhando a vida toda. Gosto de fazer o meu trabalho. Nada mais e nada menos”, admite.

“Quando penso na minha carreira, vem uma alegria grande de ter trabalhado no que gosto. É um privilégio. Dever cumprido. Fazer o que se gosta não é trabalho, é diversão. Tenho satisfação de ter atravessado essa romaria fazendo o que amo e que as pessoas respeitam”, completa.

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