Amizade: acima, Beth cercada pela atual formação do Fundo de Quintal; à dir., a capa de 'De Pé No Chão'
 - Rafaê
Amizade: acima, Beth cercada pela atual formação do Fundo de Quintal; à dir., a capa de 'De Pé No Chão' Rafaê
Por Ricardo Schott | [email protected]

Rio - Grandes revoluções na música têm fama de serem (à primeira ouvida) incompreendidas pelo grande público. Não foi o que aconteceu com 'De Pé No Chão', disco de Beth Carvalho lançado em 1978. O álbum no qual ela apresentava aos fãs a rapaziada do bloco carnavalesco Cacique de Ramos - que originaria em 1980 o grupo Fundo de Quintal - imortalizou clássicos como 'Goiabada Cascão' (Wilson Moreira e Nei Lopes); emocionou admiradores com a bela 'Passarinho' (Chatim), que foi parar na trilha da novela 'Pai Herói'; e ainda imprimiu no DNA do brasileiro os versos multiuso de 'Vou Festejar', de Dida, Neoci e Jorge Aragão (é a do "você pagou com traição/a quem sempre lhe deu a mão").

"Logo depois que o disco saiu, em cada esquina tinha alguém tocando pandeiro, repique, tantam. Era um som novo que eu estava ajudando a trazer", conta Beth, que encontra pela primeira vez com seus afilhados do Fundo de Quintal neste sábado, no KM de Vantagens Hall, na Barra da Tijuca, para tocar o repertório do disco - além de outros sucessos - e celebrar uma relação que já dura 40 anos.

Beth e FDQ já dividiram palcos, mas é a primeira vez que unem os dois nomes em pé de igualdade no letreiro. "Temos com ela uma amizade indestrutível", conta Ubirany, fundador do Fundo, banda que já cantou o sentimento fraterno em 'A Amizade' ("nem mesmo a força do tempo/irá destruir"). "A Beth passou a fazer parte dos nossos laços familiares". 

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NA PALMA DA MÃO

A rapaziada do Cacique já vinha de projetos com a turma que viera antes - Almir Guineto, presente na primeira formação do Fundo de Quintal, foi violonista dos Originais do Samba durante os anos 1970. E nos pagodes da quadra do Cacique, em Ramos, rolava enorme admiração aos mais antigos. "Lembra daquele trio fantástico, Elizeu, Luna e Marçal?", conta Ubirany, referindo-se Elizeu Félix, Roberto Bastos Pinheiro (o Luna) e ao mestre Nilton Delfino Marçal, tropa de ritmistas que aparecia em inúmeros discos de samba nos anos 1960 e 1970. "Nós os adorávamos, não tinha disco de samba em que eles não estivessem. Chegamos dando nossa contribuição, sem querer confrontar ninguém".

A revolução musical proposta pelos fundadores Ubirany, Sereno, Bira Presidente (estes três, ainda hoje no Fundo), Almir, Neoci, Jorge Aragão e Sombrinha, vinha da adaptação de instrumentos de percussão usados em outros estilos musicais, como tantam e repique de mão, além do banjo com braço curto, bojo mais arredondado e afinação de cavaquinho.

"E é importante deixar claro que o banjo é um instrumento africano. Muita gente pensa que ele é americano", ensina Beth. "O som deles era novo, eles usavam tamanco como percussão. É como se fosse os pés das pessoas batendo. Eles atacavam os instrumentos com as mãos, sem usar baqueta. Isso fez diferença".

Ainda sem Beth na história, a turma - além de amigos que ainda virariam celebridades, como Arlindo Cruz, Luiz Carlos da Vila e Zeca Pagodinho - se reunia no Cacique para a infalível mescla de peladas e samba. "Jogávamos pelada em frente ao Cacique e depois sentávamos com nossos instrumentos. Era uma brincadeira que virou coisa séria", conta Ubirany.

Ele deixa claro que a turma não tinha noção da mudança que provocaria. "Depois vimos que a batida tinha virado coqueluche. E o que contava não era só os instrumentos, era a batida, a levada".

BATE-BOLA

Beth conheceu a turma por intermédio do ex-jogador e ex-técnico do Vasco, Alcir Portela. "Ele a levou lá e ela ficou maravilhada", conta Ubirany. Beth passou a ir sempre, e teve a ideia de levar aquele clima de samba de terreiro para o estúdio, numa época em que samba "de meio de ano" não era bem visto nos ensaios das escolas, e os compositores estavam se reunindo em grupos e agremiações independentes. Colocou a turma no estúdio da RCA, em Copacabana (onde hoje é o Companhia dos Técnicos), e fez um bate-bola com o produtor Rildo Hora para escolher os sambas.

"Eu tinha ficado encantada com aquela forma deles de cantar, de compor. O Rildo ficou desconfiado, falou: 'Olha que uma coisa é ao vivo, outra é em estúdio...'. Garanti que ia ficar legal e o Rildo foi se convencendo de que eu estava com a razão", conta Beth, explicando as desconfianças de Rildo. "É porque eles faziam tudo no acústico, era no não-microfone. Ninguém ali tinha experiência de estúdio". Ubirany recorda que, na quadra, o que contava mesmo era o improviso. "Eu cheguei com o repique, mas na falta de instrumento, a gente batia em qualquer balde!", brinca.

AGRADECIMENTO

Passados quarenta anos, o repertório de Beth em 'Dé Pé No Chão' continua a animar não apenas os shows dela, como vários pagodes pelo Brasil afora. 'No Pagode', o disco seguinte (1979), continuava na mesma linha, trazendo clássicos como 'Senhora Rezadeira' (de Dedé da Portela e Dida) e o interplanetário 'Coisinha do Pai' (Jorge Aragão, Almir Guineto e Luiz Carlos da Vila).

Boa parte da turma do Cacique se reuniria com o nome de Fundo de Quintal em 1980. Até hoje resistem às mudanças, que levaram para a carreira solo nomes como Jorge, Almir, Arlindo Cruz (integrante da segunda formação do grupo) e Sombrinha.

"Vai ser um prazer incomensurável fazer esse show porque, se tudo aconteceu para a gente dessa forma, foi por causa da madrinha Beth. Foi graças ao interesse dela que tudo aconteceu", agradece Ubirany. "Ainda hoje tenho uma convivência muito grande com eles. Fundo de Quintal já esteve em DVD meu, eu já participei de show deles, mas uma apresentação inteira vai ser memorável para nós e para os fãs", alegra-se a madrinha Beth.

O REPERTÓRIO

O segredo de 'De Pé No Chão' era, além da musicalidade da turma nova, misturar gerações. Tanto que, ao mesmo tempo em que revelou a turma do Cacique, voltou a nomes como Chatim e Paulo da Portela. Promoveu encontros entre nomes como Martinho da Vila e Candeia. Revelou um clássico feito pelo já veterano Nelson Sargento, que encerrou o álbum. E ainda foi dedicado a Cartola.

Embaixo, confira o que você vai escutar no show. E vale informar que 'De Pé No Chão' acaba de ser reeditado em LP e formato digital. Ouça no volume máximo.

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO DESTE FIM DE SEMANA

ANA COSTA

A cantora faz show em homenagem a Martinho da Vila, revisitando seu repertório. Teatro Ipanema. Rua Prudente de Morais 824 A, Ipanema (2267-3750). Hoje, às 21h. R$ 50.

BNEGÃO E SELETORES DE FREQUÊNCIA

O grupo traz para o Rio a turnê comemorativa de 15 anos do disco 'Enxugando Gelo'. Teatro SESI Duque de Caxias. Rua Arthur Neiva 100, Duque de Caxias (0800 023-1231). Hoje, às 20h. R$ 10 (estudantes e maiores de 65 anos pagam meia-entrada). Teatro SESI Jacarepaguá. Avenida Geremário Dantas 940, Pechincha (3312-3788). Amanhã, às 20h R$ 10 (estudantes e maiores de 65 anos pagam meia-entrada).

BLITZ

A banda lança seu novo DVD. Imperator - Centro Cultural João Nogueira. Rua Dias da Cruz 170, Méier (2597-3897). Hoje e amanhã, às 21h. R$ 70 (estudantes e maiores de 65 anos pagam meia-entrada).

GRITO DA FOLIA DA SÃO CLEMENTE

A escola faz festa para marcar o primeiro evento de preparação para o desfile do ano que vem, onde reeditará o enredo 'E o Samba Sambou'. Show do Arlindinho na abertura. São Clemente. Avenida Presidente Vargas 3.102, Centro (9 9642-3472). Domingo, às 16h, R$ 10.

LUEDJI LUNA BIXIGA 70

A cantora lança seu disco, 'Um Corpo no Mundo', e o grupo Bixiga 70 lança o CD 'Quebra-Cabeça'. Circo Voador. Arcos da Lapa s/nº, Lapa (2533-0354). Hoje, ás 22h. R$ 80 a R$ 100 (estudantes, maiores de 65 anos e pessoas com um quilo de alimento não-perecível pagam meia-entrada).

OS MARIANOS

Roda de samba do grupo, trazendo como convidado Marcos Sacramento. Trapiche Gamboa. Rua Sacadura Cabral 155, Gamboa (2516-0868). Amanhã, às 21h30. R$ 30.

MELISSA ALDANA

A jazzista faz show no Rio. Blue Note Rio. Avenida Borges de Medeiros 1.424, Lagoa (3799-2500). Amanhã, às 20h e 22h30. R$ 120 (estudantes e maiores de 65 anos pagam meia-entrada).

MOSKA

O cantor lança o novo CD, 'Beleza e Medo'. Na abertura, Suricato. Circo Voador. Arcos da Lapa s/nº, Lapa (2533-0354). Amanhã, às 22h. R$ 100 (estudantes, maiores de 65 anos e pessoas com um quilo de alimento não-perecível pagam meia-entrada).

PARADISE LOST

A banda de heavy metal faz show da turnê do álbum 'Medusa'. Teatro Rival Petrobras. Rua Álvaro Alvim 33/37, Cinelândia (2240-9796). Hoje, às 21h. R$ 220 (estudantes e maiores de 65 anos pagam meia-entrada).

RENNAN DA PENHA

O funkeiro, que toca funk em 180 bpm (bem mais acelerado) faz show. Barril 8000. Rua Adolfo Bergamini 371, Méier (9 9250-6346). Domingo, às 19h. R$ 20.

SEMANA ARMANDO PRAZERES

O evento encerra-se com música romântica para a formação de clarineta, trompa e piano, incluindo obras de Carl Reinecke e Johann Sobek. Sala Cecilia Meirelles. Rua da Lapa 47, Lapa (2332-9223). Hoje, 12h30. R$ 10

SOLIDARIEDADE É SHOW

Evento beneficente em prol da Casa de Apoio à Criança com Câncer de Santa Teresa. Lucy Alves, Sandra De Sá, MC Duduzinho, MC Théo, MC Perlla, Kássia Marvila, DJ Yago Gomes, Banda Fuze, Mouhamed Harfouch, Dhu Moraes, Sandra Pêra, Lucas Moraes. Shopping Downtown. Avenida das Américas 500/Praça Central, Barra da Tijuca (9 8119-9555). Domingo, às 16h. Entrada: 1 quilo de alimento não-perecível.

TRIBUTO AO REI DO POP

O cantor Rodrigo Teaser recria toda a estrutura das principais performances de Michael Jackson. Vivo Rio. Avenida Infante Dom Henrique 85, Parque do Flamengo (2272-2901. Amanhã, às 20h. Domingo, às 19h. R$ 110 a R$ 180 (estudantes e maiores de 65 anos pagam meia-entrada).

URCA BLUES FESTIVAL

O evento traz hoje Perlla Cortazzo, Filhos de Rosemary Blues Co. e Taryn Kern Szpilman. Amanhã, Gilli Emanuel, Dauro Prates com Banda DRB, Rockabolics, Corcel Mágico Kleber Dias e Kdias Luthieria. Domingo tem Club Soda JAZZ, Parada Noturna, Olhos de Led (Tributo a Led Zeppelin) e Flávio Guimarães (gaitista do Blues Etílicos). Praça General Tibúrcio s/nº, Urca. Hoje, de 17h às 23h. Amanhã, de meio-dia às 23h. Domingo, de meio-dia às 21h. Ingresso: R$ 10 ou dois quilos de alimentos não perecíveis.

XANDE DE PILARES

O cantor faz sua primeira roda de samba autoral, 'De Sol a Sol', tendo Arlindinho como convidado. Ilha Itanhangá. Estrada Da Barra Da Tijuca 793, Barra Da Tijuca. Domingo, às 15h (roda do Xande às 19h). R$ 50 a R$ 80.

 

 

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