Edson Celulari, protagonista de 'O Tempo Não Para' - Globo/Raquel Cunha
Edson Celulari, protagonista de 'O Tempo Não Para'Globo/Raquel Cunha
Por BÁRBARA SARYNE

Quando a Globo divulgou a sinopse de 'O Tempo Não Para', teve quem torcesse o nariz para a ideia mirabolante do autor Mario Teixeira. A experiência, no entanto, falou mais alto para alguns que embarcaram no projeto. Com 40 anos de carreira na TV e 60 de idade, Edson Celulari foi um dos primeiros a comprar a história ousada, como se pudesse prever a repercussão do trabalho.

No primeiro encontro com a imprensa, antes da estreia da novela, o intérprete de Dom Sabino disse que o pai de Marocas (Juliana Paiva) tinha potencial para ser o personagem mais importante de sua carreira. Agora, há um mês no ar, dá para afirmar que o veterano estava certo. Nas ruas, Edson escuta bordões de Dom Sabino e diz que pessoas de todas as idades se identificam com o senhor peculiar, que passou um século congelado e agora vive um choque de realidade dia após dia.

Os mais velhos, segundo o ator, concordam que alguns valores do passado deveriam ser resgatados. Já os mais jovens se divertem com o jeito atrapalhado do homem que se descobriu em um novo mundo. "Ele tem um temperamento único, é decidido e educado, vive para a família, não aceita injustiças e enfrenta situações muito engraçadas", diz o artista, afirmando que o papel veio em um ótimo momento, pois o brasileiro anda desacreditado e o personagem que descongelou expressa isso.

Além dos comentários nas ruas e na internet, os números provam que o folhetim agradou a maioria. A primeira semana da trama, inclusive, teve a maior audiência do horário em dez anos. E, para Edson, é um privilégio contar uma história inédita dando voz a tantas pessoas através de Dom Sabino, que expressa de forma leve e ingênua, algumas críticas ao sistema atual.

Em vários capítulos, por exemplo, o personagem afirma que o mundo avançou em tecnologia, mas perdeu ao deixar a família, a convivência e a confiança nas pessoas em segundo plano. Outro ponto muito abordado pelo senhor tem a ver com o racismo. Embora tivesse escravos no século 19, Sabino tinha simpatia pelo movimento abolicionista e não costumava castigar seus empregados. Por esse motivo, ele sempre se revolta quando vê que em 2018 os negros são livres, mas continuam sofrendo.

"Ele não aceita que Eliseu (Milton Gonçalves) puxe carroça, porque esse era um serviço que nem os escravos dele faziam na época", explica o ator, que acredita que a escravidão não acabou e acha importante trazer essa reflexão na TV aberta. "A escravidão existe há milênios e agora anda disfarçada. Com relação especificamente ao negro no Brasil, o lado bom é que eu vejo um movimento saudável de busca por espaço, mas ainda falta muito", diz ele, ao citar a importância da representatividade lembrando estrelas como Lázaro Ramos e Milton Gonçalves, com quem contracena bastante no folhetim.

"É uma alegria trabalhar com o Milton porque nunca tínhamos feito algo juntos. Ele é um homem negro e tem uma história importante na televisão", valoriza Edson, sem nem precisar dizer que a admiração não fica só nos bastidores. Quem acompanha a trama atentamente vê que o personagem de Milton, embora seja discreto, já salvou Dom Sabino de várias roubadas. O catador de papelão, mesmo sem condições financeiras, abrigou a família do desconhecido em sua casa e foi quem teve paciência para explicar alguns avanços sociais ao ex-congelado.

"Eles têm valores parecidos, mesmo sendo de épocas diferentes. O Eliseu é um homem íntegro, e essa comunhão foi o que aproximou os dois", diz Celulari. A convivência com o catador, no entanto, será responsável por um grande conflito envolvendo os personagens. Nos próximos capítulos, a filha de Eliseu contará para o pai de Marocas (Juliana Paiva) que a empresa de Samuca (Nicolas Prattes), na verdade, fica em um terreno que pertencia a família Sabino Machado. A revelação deixará o homem revoltado e, por conta disso, o casamento da mocinha com o empresário será impedido.

CHEIO DE VIDA

Embora esse seja um papel especial para Edson Celulari, 'O Tempo Não Para' está longe de ser o último trabalho do ator de 60 anos. Sem data para se aposentar, ele afirma que ainda tem muita lenha para queimar e sonha em dirigir cinema e televisão. Com simplicidade, Celulari também lembra que nasceu no interior de São Paulo, em Bauru, e diz que aprendeu ao longo desses anos que o mais importante é manter a essência simples, de alguém que ainda tem muito a aprender, como seu personagem anda fazendo na novela.

"A gente não muda, a gente adquire e perde coisas. Eu morei na zona rural até os meus 20 anos e tinha uma visão de mundo diferente, vivia com os animais. Carrego essa simplicidade até hoje e com ela conquistei informação e espaço, mas ainda quero conquistar mais", afirma. Sem querer exaltar a experiência, o artista é humilde e diz que se esforça para interpretar Dom Sabino, que exige muito fisicamente.

"Ele briga com todo mundo e tem uma adrenalina alta. Há muito tempo não vejo um personagem como esse na TV. Improvisar fica difícil por causa do número de informações que o texto trás, por isso preciso estudar bastante. No século 19, era comum verbalizar demais, e a gente não pode esquecer que esse homem veio daquela época", defende.

Por mais que dê trabalho, viver essa rotina puxada é um prazer para Celulari. Em 2016, o ator foi diagnosticado com um câncer linfático e imaginou que não sobreviveria. O tratamento, porém, foi bem-sucedido, e o artista não parou de trabalhar por muito tempo. No ano passado, inclusive, ele aceitou o convite de Gloria Perez para participar de 'A Força do Querer' e também chegou a aparecer no primeiro capítulo da atual temporada de 'Malhação'.

"Na época, eu disse que poderia estar careca ou inchado, e a Gloria falou que me queria de qualquer jeito. Aquilo, para mim, foi um grande estímulo para superar a doença. Mas é claro que foram só participações. Agora, com esse personagem, é que estou ativo novamente", revela, feliz da vida com o feedback.

Ligado na tecnologia e motivado com os elogios que está recebendo pela atuação na trama das 19h, o ator diz que até está tentando manter as redes sociais atualizadas, mas não gosta de cobranças para fazer postagens. Vira e mexe, ele publica fotos dos bastidores do folhetim e mostra que não tira Dom Sabino da cabeça, principalmente quando o assunto é inovação.

"Eu me lembro de um aparelho celular que era um tijolo e quem ri disso é porque já tem idade para isso", diverte-se. "Enfrento essas mudanças tecnológicas com muita naturalidade, confesso que fico até procurando coisas novas, pensando se ainda não criaram uma coisa melhor para determinada função. Me identifico com o Dom Sabino nesse sentido. Ele sempre foi curioso. Há cem anos, investiu em estradas de ferro, telefonia, acompanhou o Thomaz Edison com a eletricidade", completa, aos risos, comprando o discurso da ficção.

Casado com Karin Roepke desde o ano passado, o ator conta que Dom Sabino também o ensina como não agir quando vê os ataques de ciúme que o homem tem com Marocas e diz que, ao contrário dele, confia na filha que teve com Claudia Raia, Sophia, que já tem 15 anos ele também é pai de Enzo, de 20. "O cuidado que todo pai tem está em preparar o filho da melhor maneira, mas a cada esquina tem o inesperado. Se a gente soubesse o que vai encontrar todos os dias, a vida perderia a graça", diz ele, realizado.

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