O novo álbum já está disponível nas plataformas digitais e resgata a essência das boas rodas da cidadeReprodução / Instagram

Rio - O grupo Bom Gosto está celebrando 20 anos de carreira com o lançamento do álbum "O Samba Que Eu Vou", já disponível nas plataformas digitais. Gravado no Rio, o projeto resgata a essência das boas rodas da cidade, misturando músicas inéditas e regravações. Tudo isso com as participações de Alcione, Mosquito, Carlos Caetano, Zé Roberto, além de homenagens ao Fundo de Quintal. Em entrevista ao MEIA HORA, Fábio Beça, vocalista do quinteto, que conta, ainda, com  Flávio Regis, André Neguinho, Fernando Macaé e Mug Aragão, fala sobre a escolha do repertório, bastidores das gravações e planos para 2026.
MH: O que representa lançar 'O Samba Que Eu Vou' justamente no ano em que o grupo completa 20 anos de carreira?
FÁBIO BEÇA: É uma celebração dupla: mais um projeto de carreira e o marco dos 20 anos. O disco traduz o momento de vida dos cinco integrantes, já que escolhas de repertório mudam com o tempo, dez anos atrás seriam outras músicas, outras ideias. Registrar um audiovisual é registrar esse momento. E completar 20 anos, que não são 20 dias, é algo que precisa ser respeitado. Seguimos trabalhando para conquistar mais 20, como nossos ídolos e referências.
Vocês gravaram o álbum em uma roda de samba em Curicica. O que essa escolha diz sobre as origens e identidade do Bom Gosto?

Curicica é como um sub-bairro de Jacarepaguá, nossa área de origem. O local é um bar que frequentamos, onde nos sentimos em casa, com clima de boteco, chope gelado e proximidade com o público. Por ser pequeno, trouxe de volta aquela sensação dos palcos próximos de 20 anos atrás. É nossa raiz: o bairro, os amigos, o lugar onde sempre estivemos. Ali está nossa identidade, nossa fonte e nosso conforto.
O disco mistura inéditas e regravações. Como vocês pensaram esse equilíbrio entre memória, raiz e novidade?

É o modo operante do Bom Gosto misturar referências antigas com novidades. Gostamos de resgatar nossa raiz, mas também de olhar para novos compositores. Se a música tem a ver com nossa identidade, gravamos, independente de ser recente ou de 30 anos atrás. Em alguns projetos há mais inéditas, em outros mais regravações, mas estamos sempre nessa órbita, ouvindo nossas referências e atentos aos novos sotaques.
O single 'Magoou, Abusou' marca um encontro histórico com Alcione, um sonho antigo de vocês. Como foi viver esse momento?

Foi um dia inesquecível, um dos mais importantes da nossa vida e carreira. Alcione é uma grande referência, uma professora, uma estrela da música brasileira. Difícil até explicar o que sentimos naquele dia. Foi uma catarse, uma explosão de emoção que ficará guardada para sempre. Foi um presente de Deus para nós.

Como a presença da Alcione transformou a faixa e o projeto? E o que aprenderam com ela?

Ela transforma tudo. É um ser iluminado, diferenciado, que veio ao mundo para cantar. Só a presença já carrega sua história e sua carreira. Quando canta, é uma aula de interpretação, afinação e improvisação. Sua força e energia mudam completamente o ambiente. Sem ela, a música seria outra. Tivemos a bênção de ter Alcione transformando todo o projeto. Aprendemos muito sobre entrega, generosidade e respeito à música. A Alcione é gigante não só pelo talento, mas pela postura, pela humildade, pela forma como trata todo mundo. A gente saiu maior dessa experiência.

Mosquito, Jorge André, Carlos Caetano e Zé Roberto também participam do disco. O que motivou essas escolhas?

Todos eles fazem parte da nossa história como sambistas de alguma forma. São artistas que representam a tradição, a resistência e a qualidade do samba. E gostamos de cantar com gente assim, que nem a gente, que está antes de tudo, pelo samba.

Tem algum momento das gravações que consideram inesquecível?

Sim. Teve um momento em que todo mundo, músicos, participações, equipe e público, estava cantando junto, sem microfone, só no coro. A gente se olhou e percebeu que aquilo ali era exatamente o motivo de tudo existir. Foi arrepio do começo ao fim.

Qual música do álbum sintetiza o espírito atual do Bom Gosto?

A primeira faixa, "Tá Nas Mãos de Deus / Malandro Sou Eu", sintetiza muito bem. Fala de fé, de seguir em frente e de acreditar, refletindo exatamente a fase que vivemos hoje.

2025 foi um ano simbólico para o grupo. Como resumiriam este ano profissionalmente?

Foi um ano de celebração, fechamento de ciclo e também de recomeço. Intenso, cheio de trabalho, emoção e conquistas importantes.

O que o público pode esperar do Bom Gosto em 2026? 
Dia 4 de janeiro faremos o lançamento do disco no Renascença Clube, que foi fundado em 1951 por um grupo de negros de classe média que buscavam um espaço de convivência social e cultural diante da exclusão em clubes tradicionais. O clube se consolidou como um reduto de resistência cultural afro-brasileira, promovendo principalmente o samba, e hoje é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio. Para nós, é muito especial que a nossa primeira roda de samba de 2026 seja lá.