Jorge Perlingeiro é a voz oficial do Carnaval do RioReprodução / Instagram
"Eu acredito que hoje é um hábito as pessoas assistirem a apuração. Eu digo sempre que é o momento mais aguardado do Carnaval, porque é o gran finale. Ano passado, a audiência bateu, pela televisão, quase 75 milhões de pessoas. É 1/4 da população desse país inteiro. As pessoas querem saber o que que aconteceu de resultado. Acho que é igual a uma final do Brasileirão, em que 40 times disputam o campeonato e dois chegam à grande final em um jogo que é esperado por todos. O momento da apuração é mágico. E ao mesmo tempo ele é tenso, ele é emotivo… É o trabalho de um ano que as escolas prepararam”, pontuou.
Embora assuma um dos cargos mais tensos do Carnaval, Perlingeiro diz, no entanto, que não tem uma preparação específica da voz para o dia da leitura das notas. Para ele, o momento já faz parte dele.
“Eu não me preparo para esse dia. Esse dia acontece, chega na minha vida a cada ano. E tem sido assim há 32 anos. Eu creio que já é uma marca do coração. Eu não sou um locutor de notas. Eu não sou um leitor de notas. Eu interpreto as notas que são dadas”, contou o dono da voz do Carnaval, que continuou:
"Acho que eu já falo tanto, que eu já tenho a voz, porque eu faço o meu podcast, o 'Só Se For Agora', toda semana ao vivo. No meu escritório, durante a semana, também falo. Eu não sou um aposentado, estou em plena atividade ainda, embora de forma mais moderada. Tenho uma vida relativamente regrada, não tenho noitadas e álcool em excesso, vou à academia duas vezes por semana, durmo tarde, mas também tenho 6, 7 horas de sono por dia… Acho que isso já é o suficiente para me manter. Já vou para 60 anos de carreira, desde a televisão, depois o rádio e agora podcast. Eu acho que se falasse menos, teria que vir numa crescente, fazendo um uma série de exercícios, mas, no momento, estou em atividade diária, acho que isso já vem naturalmente É uma coisa que ainda me encanta muito, eu faço com muito prazer".
'É uma responsabilidade muito grande'
De acordo com Perlingeiro, ainda que o a leitura das notas já faça parte da rotina dele há mais de 30 anos, a familiaridade com a apuração não anula o peso e a tensão do momento. A cerimônia decide o ano de pelo menos duas escolas, já que uma é consagrada campeã enquanto outra é rebaixada para a Série Ouro.
"É uma responsabilidade muito, mas muito grande. Ali está em jogo a história de 12 grandes agremiações que se prepararam. Eu não posso, de forma nenhuma, errar. Antes da leitura de cada nota, eu olho duas vezes, porque existem jurados que dão a nota de com letra de médico, que você quase não entende, mas é obrigatório colocar o numeral e depois ainda em extenso. Eu olho para as duas para não ter esse problema, porque já existiu vezes em que houve questionamento", explicou ele, que revelou qual foi o momento descrito como o "mais traumático".
"Teve um ano em que a Porto da Pedra estava concorrendo no Grupo Especial e estava muito bem na apuração. Nesse ano, me questionaram muito e foi o momento mais traumático da minha vida. Não me lembro bem, mas se a escola tirasse 8,7 – ou algo assim –, voltaria no Desfile das Campeãs. E quando eu chegou a vez da leitura de um dos quesitos, eu parei, porque quando vi a nota, deu vontade de não falar nada. Era 8,4. Foi uma infelicidade deste julgador. Eu não sei qual foi o critério que ele teve para dar essa nota, e os demais deram notas boas", contou Perlingeiro, que descreveu como ficou o ambiente após a leitura.
"Ficou um breu, um silêncio, uma lacuna na apuração. E eu olhei para o semblante do presidente e ele não tinha nenhum movimento. Eu só vi que ele levantou, subiu onde a gente estava, foi até mim, chegou no meu ouvido baixinho e disse: 'Você leu essa nota errada, não leu?'. Disse para ele: 'Presidente, eu gostaria muito de ter lido errado para eu poder me desculpar e o senhor não ser penalizado da maneira que foi, mas infelizmente a nota foi essa'. Aquele foi um momento de muita muita tensão", disse.
Mudanças no Carnaval carioca
Ex-presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), Jorge Perlingeiro celebrou as mudanças recentes do Carnaval, como a transferência da apuração para a Cidade do Samba, em 2024, e a extinção do carro de som da Sapucaí, pela primeira vez neste ano.
"A apuração é um espetáculo. Na minha gestão, eu tive muita felicidade quando consegui tirar de lá do Sambódromo e trazer para Cidade do Samba, porque deu para fazer um espetáculo. Lá na Apoteose, no passado, foi bom. Mas além do calor insuportável, não tem nenhum tipo de atrativo, estrutura de bar… não tem nada. Ao mesmo tempo, as escolas já preparam uma festa em suas quadras. Televisão já monta a equipe lá, barracas funcionando, cerveja, chopp de graça... A torcida já está dentro da quadra aguardando para comemorar. Não tem muito público para ir para a Apoteose", explicou.
Durante a conversa, Perlingeiro também citou o fato de que, pela primeira vez, o som da Sapucaí será 100% digital. “"gora o puxador vem com o microfone digital e ele pode circular. Ele vai ser visto por todos os lados da Avenida. Acho que isso vai dar um ganho maior", afirmou.
Série Ouro
Embora atualmente participe apenas da apuração do Grupo Especial, Jorge Perlingeiro não deixa de pensar na Série Ouro, que tem menos investimento do que a elite do Carnaval carioca. Segundo ele, a leitura das notas é ainda mais tensa quando se pensa que uma das agremiações será rebaixada à segunda divisão.
Segundo Perlingeiro, ele fica muito impactado com a forma com que a leitura das notas impacta na vida das escolas. "Eu sei que, no final, uma comunidade vai comemorar 24 horas, mas quem chegar em 12º lugar, é o pior momento. É muito mais fácil você permanecer no Especial do que vir para o Especial. Para permanecer, basta ganhar de uma. Se chegar em décimo primeiro, continua no grupo. Mas no outro lado, tem que ganhar de 14", refletiu.
"E lá o equilíbrio é muito grande. O pouco dinheiro dá um equilíbrio maior ainda. Lá, tem grandes agremiações que já passaram pelo especial. É muito difícil. O título do acesso da Série Ouro tem que ser muito mais comemorado. No fundo, o cara comemora o passaporte carimbado para vir para o Especial no ano seguinte. Vem para o céu. Vai chegar aqui para gozar de todos os benefícios que se pode oferecer, um barracão decente na Cidade do Samba, dinheiro que dê para fazer grande Carnaval, ampla cobertura… Eu torço muito para que a Cidade do Samba dois saia, o mais rápido. Que eles já possam, no Carnaval do ano que vem, se apresentarem em um desfile melhor, com melhores condições. Tomara", torce Perlingeiro.
Escola do coração
Apesar de não ser mais o presidente da Liesa e não possuir obrigações diretas durante os desfiles das escolas de samba, Jorge Perlingeiro assume não conseguir ficar de fora da Sapucaí.
“Pela primeira vez na minha vida, no ano passado, eu assisti o desfile. Normalmente, eu coordenava, colocava as escola para dentro, tocava sirene, dava sinal, fazia a locução de entrada de escola. Sempre foi assim. Com a chegada do Gabriel na presidência, agora sou um espectador”, contou ele, que ainda revelou para qual escola vai sua torcida.
“Nos dias do desfile eu vou para assistir com muita atenção, torcendo para a minha Vila Isabel. O pessoal não acredita que eu torço para alguma escola. Hoje, eu não sou fanático pela Vila, mas eu tenho um carinho especial e torço por ela. Acredito que ela vai fazer um belíssimo desfile. Inclusive, não só ela. Quase todas as escolas estão preparadas”, afirmou Perlingeiro, que admitiu não ter nenhuma grande aposta para o título deste ano.
"Acho que quem diz qual escola será a campeã ou é aprendiz de Mandrake, ou é sobrinho de David Copperfield, ou deve fazer algum trabalho mágico… alguma coisa. Não existe a menor possibilidade. A liga hoje dá a condição para que as 12 agremiações disputem o título com igualdade de condições. Hoje, seria leviandade apontar quem vai ser a campeã. O diferencial é o que vai acontecer na Avenida. Quem errar menos, vai chegar no final da apuração e ouvir um ‘Dez, nota dez’”, declarou.
Embora seja apaixonado pelo que faz, Perlingeiro, no entanto, não sabe se ocupará o posto de voz do Carnaval carioca por muito tempo. "Meu trabalho depende também da análise feita pelos dirigentes atuais. De certa forma, o meu trabalho tem sido satisfatório ou ou analisado de uma maneira positiva, senão já teriam, obviamente, me excluído, porque isso não é um cargo vitalício. Se me deixaram esse ano mais uma vez, eu agradeço. Mas o ano que vem é uma nova história. Eu dependo primeiro de longevidade de saúde e desse dom que Deus me dá, de continuar ainda produtivo. Hoje sou um ex-presidente e um grande benemérito da entidade, mas não tenho nada que me garanta a eternidade nem o vitalício dentro de qualquer atividade", afirmou.










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