Ex-capitão da PM e roteirista de 'Tropa de Elite', Rodrigo Pimentel lança canal com dicas de segurança

"Percebi que a gente não tinha, no Rio de Janeiro, um tutorial que nos orientasse a viver em uma cidade em guerra"

Por Juliana Pimenta

Rodrigo Pimentel
Rodrigo Pimentel -

Rio - Assalto, arrastão, bala perdida… O carioca convive todos os dias com as mais absurdas adversidades. Mas, e se, alguém decidisse dar dicas de como lidar com cada um desses problemas a fim de minimizar os danos da violência? Essa foi a ideia de Rodrigo Pimentel, ex-capitão da PM e roteirista dos filmes ‘Tropa de Elite’ e ‘Tropa de Elite 2’, que lança hoje o seu canal no Youtube. “Eu percebi que a gente não tinha, no Rio de Janeiro, um tutorial que nos orientasse a viver em uma cidade em guerra. Dicas de como se comportar numa cidade com arrastões, vias fechadas. Uma cidade na qual o bandido rouba o seu carro e não te deixa tirar o seu filho antes”, explica.

Apesar de dizer que algumas dicas podem ser aplicadas a outros estados do Brasil, Pimentel reafirma que o conteúdo da série ‘Conduta Inteligente’ é direcionado aos moradores da cidade. “Vão ter dicas de como viajar, de como proteger os seus filhos, mas outras são bem peculiares do Rio, como por exemplo, o melhor jeito de se proteger de um tiro de fuzil. Isso não parece razoável em cidades como Porto Alegre e Belo Horizonte, mas com o carioca pode acontecer a qualquer hora e em qualquer lugar, é típico de uma cidade em guerra”.

TV

Ainda morando no Rio, Pimentel afirma que só não deixou a cidade por causa dos três filhos. “Eu ainda moro aqui porque meus filhos estudam no Rio, mas já pensei várias vezes em sair da cidade pela violência urbana. Eu até estou tentando convencer o mais novo a prestar vestibular para universidades de São Paulo, por exemplo”. Enquanto continua aqui, o ex-capitão aproveita a entrada no Youtube, parceria com a produtora Media Brigde, para remontar aos tempos em que comentava sobre segurança pública na TV Globo.

“Eu fazia isso no ‘RJTV’ e no ‘Bom Dia Brasil’, mas eram tantas notícias ruins, que eu não conseguia ter tempo de passar todas as dicas que eu queria”. A saída da emissora, aliás, foi pacífica e veio com o convite de participar da produção da série ‘O Mecanismo’. “O Miguel Athayde [diretor de jornalismo] me ofereceu a oportunidade de fazer o serviço e voltar, mas aí o Padilha [diretor da série] falou que precisava de mim. Mas saí na hora certa, eu não teria oportunidades e nem tempo de fazer um filme estando na Globo”.

Cinema

O filme do qual Pimentel se refere é o ‘Intervenção’, com estreia prevista para setembro. O longa, estrelado por Marcos Palmeira, debate o fracasso das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) na cidade. “A polícia foi maravilhosa pra mim, graças à polícia, eu consegui fazer ‘Tropa de Elite’, continuar no cinema e ir para a TV Globo, mas o que eu gosto de fazer hoje é filme”, confessa.

Até porque, além de atrair fãs, Pimentel também atrai polêmicas. O longa policial, por exemplo, ganhou importantes prêmios internacionais de cinema, como o ‘Urso de Berlim’, mas até hoje é alvo de duras críticas. “O filme foi rotulado de fascista, mas a nossa resposta para isso é que quando acaba o ‘Tropa de Elite 2’, o Capitão Nascimento condena a polícia”.

O ex-capitão ainda afasta qualquer ideia de semelhança com o protagonista dos filmes. “Eu nunca disse que o Capitão Nascimento era herói. Acho uma análise equivocada, uma imbecilidade tremenda”. Pimentel também aproveita para esclarecer aos fãs que não há o interesse em fazer uma continuação. “O ‘Tropa de Elite 3’ seria o ‘Mecanismo’ mesmo, até porque a próxima etapa é Brasília. Os filmes mostram a corrupção subindo da polícia para o governo”.

O roteirista complementa que, se lançado hoje, o filme teria uma percepção completamente diferente. “Quando saiu o primeiro ‘Tropa de Elite’, ainda não se tinha as milícias com tanta atuação. Inclusive, se fosse lançado agora, talvez as pessoas achassem a denúncia bem levinha. Nós já sabemos que por trás do policial corrupto tem muito mais coisa”.

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Rodrigo Pimentel Reprodução
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Violência

E para quem pensa o contrário, Pimentel faz questão de afirmar que critica, sim, os abusos policiais. “Muita gente não gosta, porque quando o policial faz uma coisa errada, eu não perdoo. Quando eu vejo uma atitude que me choca, eu não fico do lado do policial, eu fico do lado da sociedade. Eu não vou aplaudir uma operação policial onde tem civil baleado, onde menor foi morto por tiro da polícia, onde tem bala perdida”, destaca.

Sobre isso, o ex-capitão ainda lembra do caso dos ‘80 tiros’, que culminou no assassinato do músico Evaldo Rosa dos Santos e do catador de recicláveis Luciano Macedo, em abril. “80 tiros é uma lambança. Não tem explicação lógica, é falta de treinamento, é falta de coordenação. Mas eu não acho que ninguém tem que ser preso preventivamente por aquilo, porque a autoria é conhecida e ele tem que responder em liberdade como qualquer pessoa”, defende.

Além de comentar o caso, Pimentel garante que entende o que aconteceu. “Quem é policial entende. É o efeito manada. Algum policial deu o primeiro disparo e os outros foram na onda. Eles são assassinos inescrupulosos? Não. Eles não saíram de casa com a intenção de matar um músico com 80 tiros. Eles fizeram porque estavam com medo ou porque não tinham treinamento. Se eles estiverem errados, eu quero que sejam condenados, mas não crucificados”, posiciona.

Porte de Arma

Os tiros, no entanto, levaram Rodrigo Pimentel a comentar sobre outro tema atual, o porte de armas de fogo. “Esse vai ser o tema de um dos primeiros programas. Eu sou a favor do direito do cidadão ter uma arma de fogo, eu acho que é um direito do cidadão e o Estado não pode proibir isso. Mas não acho correto o porte de armas nas ruas”.

O ex-capitão recrimina o uso de armas nas ruas porque no Rio, por exemplo, não teria nenhuma vantagem. “Nós vivemos em uma cidade com muita briga de trânsito. É uma cidade violenta, nervosa. Mas para quem mora em fazenda ou em um sítio, tudo bem”.

Mesmo nesses casos, Pimentel diz que precisa haver um critério para o porte. “Não acho certo que seja liberado para pessoas fichadas, ou para condenados pela Lei Maria da Penha, ou que tenham filhos pequenos. Não faz sentido ter uma arma se ela precisar ficar escondida. Até porque você teria que procurar a arma quando o bandido chegasse na sua casa e não existe tempo para isso em uma situação dessas. Eu votei no Bolsonaro, mas o eleitor dele acha que sou de esquerda quando eu condeno o uso de armas, mas isso é apenas uma questão de lógica”, completa.

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