Rio - Aclamada pelo público por papéis icônicos na TV, como Heleninha Roitman, da primeira versão de "Vale Tudo" (1988) e Nazaré Tedesco, de "Senhora do Destino" (2004), Renata Sorrah está em cartaz no Rio com a peça "Ao Vivo [dentro da cabeça de alguém], de quinta-feira a domingo, até 31 de maio, no Teatro Carlos Gomes, no Centro.
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"O teatro é tudo, hoje em dia, nessa era da internet, das pessoas sozinhas, se comunicando, mas cada uma no seu lugar, você poder ir ao teatro que é ancestral, assistir ali, ao vivo, com outras pessoas falando, te oferecendo coisas, oferecendo sentimentos, doando experiências para você e tendo trocando com o público, é muito importante", destaca.
No espetáculo, ela atua com mais quatro atores: Rodrigo Bolzan, Rafael Bacelar, Bárbara Arakaki e Bixarte, da Companhia Brasileira de Teatro, fundada em 2000. Com texto original e direção-geral de Marcio Abreu, a obra é, também, uma ficção sobre uma suposta biografia de uma artista. A atriz e o diretor se conhecem há 14 anos e já viajaram juntos pelo Brasil e mundo. Foi em uma das muitas conversas entre os dois que surgiu a ideia de escrever a peça.
"Eu não estava percebendo que ele estava praticamente anotando essas histórias que eu contava. Uma dessas é um dos embriões dessa peça, que é a epifania (revelação). Estava indo para ensaio, fazendo 'A Gaivota' (obra de Anton Tchekhov), isso faz 50 anos. E, de repente, a minha cabeça abre e entendo tudo. Começo a entender, a perceber o que a gente está fazendo aqui, quem somos nós, o que a filosofia nunca conseguiu responder, sobre a natureza, o tempo, o universo, a finitude, o que vem depois. Tive todas as respostas", explica.
A peça convida o público a entrar na cabeça dessa pessoa e conhecer suas memórias, sonhos e imaginário, projeções de futuros, percorrendo imagens recentes da história do Brasil e do mundo com um olhar para as situações singulares e coletivas da sociedade brasileira.
"São as memórias, os sonhos, as coisas que aparecem na vida da gente, ficam claras e depois somem, ficam distantes. O público é convidado a fazer essa viagem, a ir junto nesses sonhos, nessas memórias que estão dentro da cabeça de uma atriz", complementa.
E já que o assunto é mente, Renata, 78 anos, conta o que alguém encontraria se mergulhasse em suas recordações e sonhos. "O mais valioso que encontraria é a minha vida, minha família, meu trabalho, minha filha, meus dois netos, meus amigos, tudo que está dentro da minha cabeça... E todos os personagens que fiz da minha vida, todos os trabalhos, eu tenho sempre muito orgulho dessas minhas escolhas no trabalho, com todas essas atrizes e atores com quem eu trabalhei", frisa.
A artista diz que todas essas lembranças e colegas de elenco são preciosos quando ela está no palco ou em gravações para TV e cinema. "Quando você está num set de televisão, de filmagem, você está junto com os atores, trocando com eles, isso é precioso demais. E o meu maior sonho é continuar trabalhando, é ver o mundo mais justo e com mais alegria".
Para manter a memória saudável, ela gosta de se manter conectada com os amigos, família e fazer programas culturais e passeios. "Ir ao cinema. ao teatro, lendo, fazendo exercício, andando, fazendo ginástica, fazendo fisioterapia, nadando, andando no Jardim Botânico, fazendo uma respiração profunda de manhã, mantendo a cabeça ligada no mundo. Acho que é importante estar ligada em tudo que está acontecendo, mas também podendo dar calma para a cabeça. É você poder ir para um lugar e ficar sozinha um pouco com você mesma, desfrutar da sua companhia", destaca.
'Nazaré é uma das personagens mais maravilhosas'
Apesar de não estar no ar em novela atualmente, - e até recusou um convite por causa da peça -, a atriz apareceu recentemente no "Encontro das Vilãs", no show de 60 anos da Globo, caracterizada de Nazaré Tedesco, sucesso em "Senhora do Destino", exibida em 2004. A cena repercutiu bastante e o público amou rever a vilã, que gostava de empurrar seus rivais da escada.
"Nazaré Tedesco foi uma das personagens mais maravilhosas, uma vilã incrível e engraçada. Eu fazendo a Nazaré, eu não sabia que estava fazendo uma vilã que ia atravessar 20 anos e que as pessoas ainda iam falar sobre a Nazaré. Nem que a personagem viraria um meme mundial, não tinha noção disso. Era ali todo mundo um elenco incrível, todos os atores com uma direção primorosa", diz.
Sorrah considera "Vale Tudo" e "Senhora do Destino" algumas das melhores novelas da teledramaturgia brasileira. "Tive a sorte de fazer as duas. Então essa personagem (Nazaré) é muito querida para mim. E quando passa de novo, todo mundo gosta dessa vilã maravilhosa, que tem humor. Ela é engraçada, as coisas não dão certo para ela. Ela se acha o máximo, autoestima bombando: se acha gostosa, maravilhosa, incrível", analisa.
Em "Vale Tudo", a veterana interpretou Heleninha Roitman, atualmente vivida por Paolla Oliveira no remake do folhetim. Embora a primeira versão da novela tenha sido exibida originalmente em 1988, as cenas marcantes da personagem embriagada viraram memes até hoje.
"É um papel muito incrível, muito importante e acho que a Paolla está fazendo muito bem. Ela é estudiosa, eu admiro muito a Paolla como atriz e como posicionamento na vida dela, ela como mulher, como pessoa. E ela traz isso para o personagem, então é muito bom, está muito lindo", avalia.
"O remake todo é muito bom, é difícil fazer remake ainda mais de uma das melhores novelas que já foi escrita, é muito difícil. Os atores estão muito bem, a direção está muito boa, e eles sabem que eles enfrentaram muitas coisas. Paolla está ótima", conclui.