Analu se reconhece nas dores e delícias de suas personagensReprodução

Olá, meninas!
Sabe aquela mulher que parece carregar o mundo nas costas, mas ainda assim encontra leveza pra rir, criar, questionar e reinventar a vida? Essa é Analu Prestes.
Em um papo sincerão, ela fala sobre suas duas novas peças — "Senhor Diretor" e "A Criança" — e se mostra mais viva e afiada do que nunca.
Com aquele olhar sensível que só as grandes atrizes têm, Analu se reconhece nas dores e delícias de suas personagens, fala sobre envelhecer num país que ainda não sabe lidar com a maturidade feminina, e solta verdades que muita gente não quer ouvir.
Uma entrevista pra refletir, rir, se emocionar e, principalmente, se inspirar. Porque mulherão mesmo é quem tem coragem de ser inteira — com suas memórias, contradições e sonhos. E isso, minha amiga, Analu tem de sobra.
Confira a entrevista abaixo:
Analu, em relação à peça "Senhor Diretor", o que mais te tocou na Maria Emília? Teve alguma parte do texto que você leu e pensou: “isso aqui sou eu todinha”?
O que mais me tocou na Maria Emília foi a indignação com o desrespeito às pessoas, à cidade. Uma mulher que, por uma educação reprimida e preconceituosa, deixou de viver e passou a vida invejando a liberdade de sua melhor amiga.
Eu me vejo assim totalmente Maria Emília, revoltada, quase louca quando ando e tenho de lidar com bikes e motos que circulam nas calçadas, na contramão, sem parar nos sinais de trânsito…. uma coisa que me tira do sério!!! As pessoas sem a menor educação que furam as filas dos caixas, do trânsito, que jogam lixo no Jardim Botânico, nas praias, nas calçadas… me deixam furiosa!!! Daí eu me falo: Olha isso aí, Senhor Diretor!!! Olha isso aí!!!!! (fala recorrente da peça)

A personagem está com 62 anos, lidando com solidão, envelhecimento, fantasias, memórias… Você se reconheceu nela em algum momento? Ou pensou em alguma mulher da sua vida?
Me reconheço nela na solidão muitas vezes difícil… apesar de adorar minha companhia, dos meus livros e ter muito prazer em criar no meu ateliê, pois sou também artista plástica e tenho um mundo interior muito rico. Envelhecer é outra questão. Difícil, não é fácil você envelhecer num país preconceituoso como o nosso. A sociedade te vê como uma mulher que já era.
Como se você não tivesse mais o direito de sonhar, de ser alegre, dançar, fazer sexo, ter prazer, enfim todas as coisas normais que uma mulher pode fazer, sempre. Mas eu penso muito na quantidade de mulheres que se aprisionaram ao longo da vida por medo, por educação reprimida, moralista, e nunca fizeram o que realmente sonharam ou desejaram. Eu conheço essas mulheres…. tenho até na minha família… e sinto pena, pois a vida é muito curta e linda pra se viver plenamente e com asas para poder voar bem alto e muito longe!

Sobre sua outra peça, "A Criança"... ela lida com temas como responsabilidade ambiental e passagem do tempo. O que essa história diz para você, como artista e como pessoa?
Essa peça fala muito fundo sobre as nossas responsabilidades com o planeta, com as pessoas, com as amizades, os afetos mal resolvidos, a criação dos filhos, o amor, as amizades, as traições e a finitude. Como pessoa, eu sou o oposto da personagem, a Dayse, que teve 4 filhos, casou com um homem engravidando dele porque queria muito ter uma família.
Não tive filhos e não me casei, mas sou como ela na minha preocupação com o lixo ambiental, na vontade de me manter saudável, me exercitando, em contato com a natureza, com os animais e com o pensamento de que ainda não vivi tudo o que eu posso viver. Não me entregar à passagem do tempo e sim vive-lo seguindo em frente, sonhando.
Como foi o processo de construção da Dayse? O que mais te desafiou neste papel?
Eu me apaixonei por esse texto na primeira leitura e pela Dayse também! Viver uma mulher que trabalhou e criou 4 filhos e teve uma filha gay super protegida por ela. Que já é avó de 4 netos, foi uma engenheira nuclear, trabalhou numa Usina Nuclear a vida toda e, quando se aposenta, vira uma fazendeira de produtos orgânicos, cria vacas, faz Yoga e tem uma relação forte com a natureza, e de repente um acidente nuclear destrói absolutamente tudo ao seu redor e a coloca num estado de solidão e carência total de sobrevivência. Sem luz praticamente, com pânico da contaminação nuclear, de cara com a morte. Quando aparece uma velha amiga pra colocar tudo isso em xeque.
Como fazer essa mulher diante desse cenário assustador, lidar com tudo que acontece com a chegada dessa amiga, que foi amante do seu marido a vida toda, e vem revelar tantas coisas e propor ir embora naquela mesma noite, diante de uma catástrofe que está pra acontecer, deixar tudo por responsabilidade com os mais jovens, com o planeta. Eu defendi sempre essa mulher por entender o quão difícil pra ela é partir. QUERER MENOS. Difícil encarar o fim. Saltar no abismo… A direção do Rodrigo Portella também foi fundamental para a criação e condução dessa mulher. Tudo se passa dentro dela como um vulcão prestes a explodir e quando explode…... Eu passo por muitas, muitas camadas de sentimentos…. Prato cheio para uma atriz deitar e rolar!!

Você tem mais de 50 anos de carreira. O que ainda te emociona no palco como se fosse a primeira vez?
O palco sempre foi a minha casa, sempre. Eu nasci com a vocação para o teatro, para a arte. Entrar num teatro sempre me emociona e me traz muitas memórias de vida. Eu quero sempre estar em cena representando, contando histórias, vivendo outras vidas. Entrar em cena com uma personagem que toca as pessoas, que possa fazê-las se espelharem, se emocionarem, se divertirem. Sempre é uma emoção quando dá o terceiro sinal e a gente entra em campo pra jogar!!! Teatro é jogo e isso sempre me emociona!

Depois de tantos papéis, o que faz você dizer “sim” para um novo projeto hoje? É o texto, a personagem, a equipe... ou uma intuição mesmo?
Olha, é o conjunto todo. Primeiro um bom texto. Fundamental! Depois, claro, um personagem que me inspire, que me emocione e desafie. Adoro desafios. Uma equipe também! Porque teatro a gente não faz sozinho, a gente precisa do outro, mesmo sendo um solo. Uma boa equipe já é meio caminho andado depois de um bom texto. E sabe o que mais: uma boa coxia!!!! A gente se sente muito feliz quando se tem uma boa coxia, sinal de que o jogo vai ser muito prazeroso e potente.

Analu, o que é ser um mulherão?
Ah… ser um mulherão pra mim é ser uma mulher aberta, livre, corajosa, inteligente, antenada com seu tempo, com a natureza, com as artes. Ter um compromisso com a ética, ser responsável com suas escolhas e atitudes. Ter humor, porque humor é fundamental, e saber rir de si mesma.
"As Crianças" estará em cartaz em diversas cidades do Rio de Janeiro: Barra Mansa (14/08), Teresópolis (15/08), Valença (22/08) e Nova Iguaçu (23/08). Já "Senhor Diretor" ficará em cartaz no último fim de semana de setembro e no primeiro fim de semana de outubro, no Sesi Jacarepaguá.