Nós passamos séculos lutando para conquistar espaço. Lutamos para estudar, trabalhar, votar, ocupar cargos de liderança e, também, para ter o nosso lugar no esporte.
Quantas mulheres ouviram que eram fracas demais? Quantas desistiram de um sonho porque disseram que aquele esporte era “coisa de homem”? Quantas treinaram até a exaustão para provar que eram capazes?
E agora, uma atleta está sendo julgada no mundo inteiro porque decidiu não competir contra uma mulher trans. A jogadora que viralizou nesse caso é a esgrimista americana Stephanie Turner. Independentemente de você concordar ou não com a decisão dela, uma pergunta precisa ser feita: por que uma mulher não pode mais expressar aquilo que acredita ser justo para ela sem ser imediatamente rotulada?
O que mais me chamou a atenção foi uma declaração que ela deu depois de toda a repercussão. Ela disse: “recebi muitos comentários negativos dizendo que eu odeio pessoas trans. E eu penso: ‘Eu nunca disse isso’. Acho que estou aqui para espalhar amor. Mas também acredito que, junto com o amor, vêm a verdade e a honestidade. E eu quero proteger meninas e jovens nos vestiários e no esporte, que não deveriam ter que competir contra homens biológicos.”
Depois, ela completou:
“Não me importo com o que os outros têm a dizer. Eu sei quem eu sou. As pessoas que me conhecem sabem quem eu sou. Espero estar abrindo caminho para um futuro melhor para as crianças do que aquele que tivemos.”
Essas palavras me fizeram refletir.
Eu respeito qualquer ser humano. Respeito quem é trans. Respeito o direito de cada pessoa viver a vida da forma como acredita que deve viver. Mas respeito não significa concordar.
Uma mulher trans merece dignidade. Merece respeito. Mas isso não muda um fato: homens e mulheres apresentam diferenças biológicas que, em muitas modalidades esportivas, podem influenciar força, potência, velocidade e desempenho.
Defender isso não é discriminar ninguém. É defender mulheres que passaram a vida inteira treinando para competir em condições que consideram justas.
Antes de chamarem uma atleta de preconceituosa, perguntem quanto ela renunciou para chegar até ali. Quantas lesões enfrentou. Quantas horas de treino acumulou. Quantos sonhos depositou naquela competição.
Por que a dor de umas passou a valer menos que a dor das outras?
Nós, mulheres, sabemos o que é lutar para sermos ouvidas. Sabemos o que é pedir igualdade. E igualdade não pode significar que uma mulher seja impedida de manifestar sua preocupação com as regras da modalidade em que compete.
Discordar de uma regra não é odiar pessoas.
Eu posso defender o respeito às pessoas trans e, ao mesmo tempo, defender que o esporte feminino preserve aquilo pelo qual tantas mulheres lutaram durante décadas.
Porque respeito não exige concordância.
Se amanhã eu não puder dizer isso sem ser atacada, então deixamos de viver em uma sociedade onde o diálogo é possível e passamos a viver em uma sociedade onde apenas uma opinião pode existir.
Eu escolho respeitar todas as pessoas.
Mas também escolho defender o direito das mulheres de serem ouvidas.
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.