Marcela tem uma trajetória marcada pelo cuidado, pela pesquisa e pelo amor às crianças.Divulgação

Olá, meninas!
Quando a gente fala em desenvolvimento infantil, é impossível não pensar também nas famílias que caminham junto com cada criança. Afinal, por trás de cada conquista, existe uma história, uma rotina, desafios e, muitas vezes, uma mãe ou um pai cheio de dúvidas, medos e esperança. Foi justamente com esse olhar mais amplo que Marcela de Oliveira Araujo, a quem eu considero um verdadeiro "mulherão" construiu sua trajetória na Neuroreabilitação Infantil.
Marcela tem uma trajetória marcada pelo cuidado, pela pesquisa e pelo amor às crianças. - Divulgação
Marcela tem uma trajetória marcada pelo cuidado, pela pesquisa e pelo amor às crianças.Divulgação


Fisioterapeuta, especialista em Reabilitação Aplicada à Neurologia Infantil pela UNICAMP e doutoranda em Movimento Humano e Reabilitação pela UniEVANGÉLICA, Marcela acumula mais de 20 anos de experiência na área. Em 2009, transformou um sonho em realidade ao fundar, ao lado de sua trajetória profissional, a Clínica Follow Kids, criada com a proposta de oferecer um atendimento especializado, individualizado e, acima de tudo, humanizado para crianças e suas famílias.

Mas a história de Marcela vai muito além da assistência clínica. Ao longo dos anos, ela também precisou aprender a empreender, liderar equipes, administrar uma empresa de saúde e tomar decisões difíceis sem perder de vista aquilo que a fez começar. Paralelamente, seguiu investindo em pesquisa, formação profissional e produção de conhecimento, incluindo o trabalho desenvolvido pelo NEPEN, Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão.

E é justamente essa mistura de mulher, profissional, gestora, pesquisadora e empreendedora que torna sua história tão interessante. Em nossa conversa, Marcela falou com muita sinceridade sobre os desafios de empreender na área da saúde, os momentos em que pensou em desistir, a importância da identificação precoce de sinais no desenvolvimento infantil e o sonho de transformar cada vez mais vidas por meio da ciência e do cuidado.

Agora, quero dividir com vocês esse bate-papo especial com uma mulher que acredita que crescer só vale a pena quando esse crescimento vem acompanhado de propósito:
Marcela, como nasceu a Follow Kids e o que despertou em você o desejo de trabalhar com desenvolvimento infantil e criar uma clínica voltada para as crianças e suas famílias?

Meu interesse pelo desenvolvimento infantil nasceu ainda durante a minha formação e se fortaleceu ao longo da prática profissional. Sempre fui apaixonada pelo universo da infância e percebi muito cedo que cuidar de uma criança não significa olhar apenas para uma dificuldade motora, cognitiva ou de comunicação. É necessário compreender sua história, sua família, seu ambiente e todas as possibilidades que existem naquele desenvolvimento.

A Clínica Follow Kids nasceu em 2009, a partir do desejo de construir um espaço especializado em Neuroreabilitação Infantil, no qual a criança pudesse ser acompanhada de forma integral e a família fosse verdadeiramente acolhida e incluída nas decisões.
Um espaço pensado para cuidar, acolher e transformar vidas - Divulgação
Um espaço pensado para cuidar, acolher e transformar vidasDivulgação
Começamos com uma estrutura muito menor do que temos hoje, mas com um propósito muito claro: oferecer um cuidado técnico, individualizado e humanizado.
Um olhar atento para cada fase do desenvolvimento infantil - Divulgação
Um olhar atento para cada fase do desenvolvimento infantilDivulgação
Ao longo dos anos, esse propósito cresceu. A Clínica Follow Kids ampliou suas unidades, suas equipes e suas áreas de atuação, mas a essência continua sendo a mesma: unir ciência, experiência clínica, respeito e amor para contribuir com o desenvolvimento e a qualidade de vida das crianças e de suas famílias.

Ao longo da sua experiência na clínica, quais são hoje os principais desafios relacionados ao desenvolvimento infantil que você percebe nas crianças e nas famílias que chegam até vocês?

Um dos principais desafios é a complexidade cada vez maior dos casos que chegam aos serviços especializados. Atendemos crianças com atrasos do desenvolvimento, transtorno do espectro autista, paralisia cerebral, síndromes genéticas, doenças raras e diferentes condições neurológicas. Muitas apresentam necessidades que envolvem simultaneamente movimento, comunicação, comportamento, aprendizagem, alimentação, sono e participação nas atividades cotidianas.

Outro desafio é a demora entre a percepção dos primeiros sinais e o acesso a uma avaliação adequada. Algumas famílias percorrem um caminho longo até encontrarem profissionais especializados e conseguirem organizar um plano de cuidado coerente.

Também existe uma sobrecarga muito grande sobre os pais. Eles precisam lidar com consultas, terapias, escola, autorizações, questões financeiras, expectativas e inseguranças sobre o futuro. Muitas vezes, chegam até nós cansados e com a sensação de que precisam resolver tudo sozinhos.

Por isso, o trabalho com desenvolvimento infantil não pode estar restrito à aplicação de técnicas. Precisamos construir objetivos que façam sentido para a vida real, promover a comunicação entre os profissionais e acolher a família sem responsabilizá-la por todo o processo.

Existe uma preocupação cada vez maior dos pais com o desenvolvimento dos filhos. Quais sinais indicam que uma criança pode precisar de um acompanhamento especializado e por que buscar ajuda no momento certo é tão importante?

Cada criança possui seu próprio ritmo, mas existem marcos esperados para cada fase do desenvolvimento. Os pais devem procurar uma avaliação quando perceberem, por exemplo, dificuldade para sustentar a cabeça, sentar, engatinhar ou caminhar; pouca interação com pessoas; ausência ou atraso da fala; dificuldade para compreender comandos; pouca resposta ao nome; perda de habilidades que a criança já havia adquirido; movimentos muito rígidos ou muito flácidos; assimetrias corporais; dificuldades persistentes de alimentação ou alterações sensoriais e comportamentais que prejudiquem sua rotina e participação.
Cada passo no desenvolvimento é motivo para comemorar - Divulgação
Cada passo no desenvolvimento é motivo para comemorarDivulgação


Um sinal isolado não determina necessariamente um diagnóstico. O mais importante é observar o conjunto do desenvolvimento e buscar uma avaliação especializada quando existir alguma dúvida. A família não precisa esperar que a dificuldade se torne mais evidente para procurar orientação.

A infância é um período de intensa plasticidade e aprendizado. Quando identificamos uma necessidade precocemente, temos a oportunidade de orientar a família, acompanhar a evolução e iniciar intervenções quando forem realmente indicadas. Buscar ajuda no momento certo não significa rotular a criança; significa oferecer a ela a oportunidade de receber o suporte adequado às suas necessidades.

Por trás do trabalho realizado na clínica, existe também uma mulher que precisou empreender e construir o próprio negócio. Quais foram os maiores desafios que você enfrentou nessa jornada?

Empreender na saúde foi um processo de muito aprendizado. Eu comecei movida pela vocação clínica e pelo desejo de cuidar, mas rapidamente compreendi que um serviço de saúde também precisa de gestão, planejamento financeiro, processos, indicadores, liderança e capacidade de tomar decisões difíceis.

Um dos maiores desafios foi aprender a equilibrar o olhar da profissional de saúde com o olhar da gestora. Como fisioterapeuta, minha primeira preocupação sempre foi a criança. Como empresária, precisei entender que, para garantir a continuidade desse cuidado, era necessário construir uma instituição sustentável.
Na neuroreabilitação infantil, Marcela encontrou uma missão para a vida - Divulgação
Na neuroreabilitação infantil, Marcela encontrou uma missão para a vidaDivulgação


Também precisei ocupar espaços de liderança, formar equipes e aprender a confiar em outras pessoas sem abrir mão dos princípios e dos padrões assistenciais nos quais acredito. Para uma mulher, esse caminho ainda envolve cobranças adicionais. Frequentemente precisamos demonstrar, muitas vezes mais de uma vez, nossa capacidade técnica, administrativa e financeira.

Além disso, precisei conciliar empresa, família, maternidade, vida acadêmica e formação profissional. Não existe equilíbrio perfeito todos os dias. Existe organização, renúncia, apoio e a necessidade constante de rever prioridades.

Empreender nessa área envolve custos altos, responsabilidades e muitas dificuldades que nem sempre aparecem para quem está de fora. O que foi mais difícil para você na construção e manutenção da Follow Kids?

Empreender na saúde suplementar é muito diferente de atuar em outros setores. Não estamos oferecendo um produto comum. Trabalhamos com vidas, com crianças que necessitam de continuidade assistencial e com famílias que dependem daquele atendimento. Isso amplia enormemente nossa responsabilidade.

Uma clínica especializada exige investimentos permanentes em estrutura, acessibilidade, equipamentos, tecnologia, materiais, capacitação, supervisão e equipes qualificadas. Ao mesmo tempo, enfrentamos processos burocráticos complexos, autorizações, auditorias, mudanças de regras, glosas e atrasos nos repasses. Muitas vezes, o atendimento já foi realizado, os profissionais já foram remunerados e todos os custos já foram assumidos, mas a clínica ainda não recebeu pelo serviço prestado.

Essa falta de previsibilidade financeira é um dos maiores desafios da saúde suplementar. A clínica precisa manter salários, impostos, aluguel, equipamentos e toda a estrutura funcionando, independentemente do prazo de pagamento das operadoras. Quando ocorre uma interrupção ou um atraso, o impacto não é apenas empresarial: existe uma criança que não pode ter seu cuidado interrompido de maneira repentina.

Talvez o mais difícil tenha sido aprender que propósito e sustentabilidade não são ideias opostas. Para cuidar bem e continuar cuidando, a instituição precisa ser organizada, responsável e financeiramente saudável. A excelência assistencial depende também de uma gestão sólida.

Muitas vezes, o empreendedorismo é apresentado apenas pelo lado do sucesso, mas pouco se fala sobre os momentos de insegurança, os erros e a vontade de desistir. Você passou por momentos assim? E o que eles ensinaram a você?

Sim, muitas vezes. Quem empreende atravessa momentos de medo, solidão e dúvida. Existem decisões que afetam centenas de profissionais e famílias, e nem sempre temos todas as respostas no momento em que precisamos decidir.

Já enfrentei períodos de grande pressão financeira, mudanças inesperadas, dificuldades com operadoras, crescimento acelerado, erros de gestão e situações nas quais precisei reorganizar processos e reconhecer que determinada decisão não produziu o resultado esperado. Também houve momentos em que pensei se conseguiria continuar sustentando tantas responsabilidades.

Essas experiências me ensinaram que liderança não significa acertar sempre ou demonstrar força o tempo inteiro. Liderar significa reconhecer os erros, corrigi-los com rapidez, ouvir pessoas competentes e não permitir que o orgulho impeça uma mudança de direção.

Aprendi também que uma empresa não pode depender exclusivamente da força de sua fundadora ou diretora. É necessário formar lideranças, criar processos, acompanhar indicadores e construir uma cultura institucional sólida.

Nos momentos mais difíceis, minha fé, minha família, o apoio das pessoas que caminham comigo e o propósito de transformar a vida das crianças me ajudaram a continuar. Hoje compreendo que o sucesso não é a ausência de dificuldades. É a capacidade de atravessá-las sem perder a essência, os valores e a responsabilidade.

Depois de toda essa trajetória, que conselho você daria para outras mulheres que desejam empreender, especialmente aquelas que estão começando, e qual é o seu maior sonho para o futuro da Follow Kids?

Eu diria que não esperem se sentir completamente prontas, porque essa sensação talvez nunca chegue. É importante começar com propósito, mas também estudar gestão, conhecer os números e compreender profundamente o setor em que desejam atuar.

Não romantizem o empreendedorismo. Ter um negócio envolve riscos, renúncias, responsabilidade e decisões difíceis. Procurem bons profissionais, construam uma rede de apoio e aprendam a separar faturamento de resultado. Uma empresa pode crescer e, ainda assim, enfrentar problemas se não tiver processos, reservas, governança e controle financeiro.

Também aconselharia essas mulheres a não tentarem provar força fazendo tudo sozinhas. Pedir ajuda, delegar e formar pessoas não diminui a liderança; fortalece a empresa. E, principalmente, não deixem que as dificuldades façam com que abandonem os valores que motivaram o início da caminhada.

Meu maior sonho para a Clínica Follow Kids é consolidar um modelo de Neuroreabilitação Infantil que integre assistência de qualidade, pesquisa científica, formação profissional e tecnologia. Desejo que o trabalho desenvolvido por nós produza conhecimento, forme novos profissionais e gere impacto para além das paredes da clínica.

Foi desse desejo que nasceu também o NEPEN – Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão. Quero que nossas conquistas acadêmicas, nossos projetos de mestrado e doutorado e as pesquisas em áreas como Neuromodulação Não Invasiva se transformem em benefícios concretos para as crianças.

Mais do que ampliar estruturas, desejo ampliar possibilidades: contribuir para uma infância com mais acesso, dignidade, participação e qualidade de vida. Crescer, para mim, só faz sentido se esse crescimento continuar sustentado pela ciência, pelo respeito, pela integridade, pelo amor e pelo compromisso com cada criança e cada família.