Com uma trajetória marcada por talento, dedicação e personagens inesquecíveis, atriz se despede aos 98 anosReprodução/Instagram
Laura morreu aos 98 anos, na noite de segunda-feira (17), em São Paulo, depois de uma vida praticamente inteira dedicada à arte. A notícia foi confirmada pela família nas redes sociais da atriz. E, diante de uma trajetória tão bonita, fica difícil falar em despedida sem falar, principalmente, em celebração. Afinal, Laura Cardoso deixa uma história que não termina com sua partida. Ela permanece em cada personagem, em cada geração de atores que ajudou a inspirar e em cada espectador que teve o privilégio de acompanhá-la.
Uma menina que já sabia que queria ser atriz
Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, em São Paulo, Laura descobriu muito cedo o encantamento pelo teatro. Ainda criança, transformava objetos em cenários e brincava de representar. Aos 15 anos, deu os primeiros passos profissionais no rádio, em uma época em que as radionovelas eram uma das grandes paixões do público brasileiro.
E olha que bonito pensar nisso: Laura começou sua carreira quando a televisão ainda nem fazia parte da rotina das famílias brasileiras.
Quando a TV chegou ao país, ela estava lá. Laura integrou os primeiros anos da televisão brasileira e passou pelos teleteatros da TV Tupi, tornando-se uma verdadeira pioneira da dramaturgia. Sua estreia na televisão aconteceu nos anos 1950, e dali em diante sua história se misturaria para sempre à história da própria televisão.
Mais de 80 anos fazendo o que amava
Ao longo de sua carreira, Laura Cardoso participou de mais de 100 produções e esteve em mais de 60 novelas, além de trabalhos no teatro e no cinema. Foram personagens de diferentes épocas, estilos e personalidades, sempre com aquela capacidade rara de fazer uma participação ganhar vida própria.
Na Globo, onde estreou em *Brilhante*, em 1981, Laura construiu uma coleção de personagens inesquecíveis. Entre eles estão trabalhos em novelas como *Mulheres de Areia*, *A Viagem*, *Chocolate com Pimenta*, *Caminho das Índias*, *Gabriela*, *O Outro Lado do Paraíso* e *A Dona do Pedaço*.
E talvez esse seja um dos maiores presentes que uma atriz pode deixar: personagens que continuam vivendo na memória de quem assistiu.
Quem não se lembra da força de Laura em cena? Ela não precisava de exageros. Muitas vezes, bastava um olhar, uma pausa ou aquela maneira tão particular de dizer uma frase para entregar tudo o que a personagem precisava.
Do rádio ao cinema, uma artista completa
Mas reduzir Laura Cardoso à televisão seria pequeno demais para uma carreira tão gigante.
Ela também construiu uma trajetória respeitadíssima no teatro e no cinema. Nos palcos, recebeu dois Prêmios Shell de Melhor Atriz, por *Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu* e *Vereda da Salvação*. No cinema, esteve em mais de 30 filmes e recebeu importantes reconhecimentos por trabalhos como *Através da Janela*.
Seu talento foi reconhecido inúmeras vezes. Laura recebeu prêmios como APCA, Grande Otelo e Troféu Imprensa, além do Troféu Mário Lago pelo conjunto da obra. Em 2006, foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural por sua contribuição à cultura brasileira. Em 2023, recebeu o Troféu Oscarito, uma das principais homenagens do Festival de Gramado.
Laura nunca quis parar
E existe uma característica de Laura que talvez explique tanto de sua longevidade artística: ela simplesmente amava trabalhar.
A atriz não gostava da ideia de aposentadoria e, ao longo dos anos, deixou claro que não se enxergava como alguém que deveria parar de atuar por causa da idade. Para ela, a arte continuava sendo parte essencial de quem era.
Mesmo longe das novelas nos últimos anos, Laura continuou próxima do público. Em 2025, participou da tradicional vinheta de fim de ano da Globo. E, em um momento especialmente bonito, fez questão de se levantar da cadeira para cantar ao lado dos colegas durante a gravação.
Também em 2025, seu nome foi eternizado na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, reconhecimento que chegou depois de décadas de contribuição para a televisão brasileira.
Uma estrela que não precisa de despedida
Laura Cardoso deixa duas filhas, Fátima e Fernanda, além de uma família enorme no sentido mais bonito da palavra: colegas, admiradores, atores, atrizes e milhões de brasileiros que cresceram acompanhando seu trabalho.
E talvez seja por isso que a despedida de Laura seja tão difícil.
Porque algumas pessoas passam pela nossa televisão. Outras ajudam a construir a televisão que conhecemos.
Laura fez parte de uma geração que abriu caminhos, enfrentou décadas de transformações e mostrou que talento não tem idade. Foi rádio, foi teatro, foi cinema, foi televisão. Foi mocinha, vilã, mãe, avó, mulher forte, mulher simples, personagem engraçada, personagem dramática. Foi muitas.
Mas, acima de tudo, foi Laura.
Uma atriz que dedicou mais de oito décadas àquilo que amava e que deixa uma das trajetórias mais bonitas da dramaturgia brasileira.
Hoje, fica a saudade. Mas fica também a gratidão por tudo o que ela nos deu.
E que sorte a nossa ter vivido na mesma época que Laura Cardoso.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.