Com uma carreira marcada pelo pioneirismo, Léa Garcia abriu caminhos para artistas negros na televisão, no cinema e no teatroDivulgação

Olá, meninas!
Três anos depois de sua partida, Léa Garcia continua sendo lembrada e celebrada de diferentes formas. Nos últimos dias, a atriz foi homenageada pela Globo na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, reconhecimento recebido por sua família, e também ganhou um tributo especial que marcou os três anos de sua morte, com o lançamento do site, do Museu Virtual, do e-book e do documentário BrasiLéa.
Léa Garcia segue viva na memória e no coração de quem a admirava - Reprodução/ Revista Ella
Léa Garcia segue viva na memória e no coração de quem a admiravaReprodução/ Revista Ella
E, em meio a tantas homenagens, conversar com seu filho, Marcelo Garcia, é também uma oportunidade de conhecer um lado ainda mais íntimo dessa mulher que fez história na arte brasileira: a Léa mãe, mulher, avó, contadora de histórias e, acima de tudo, alguém que nunca deixou de abrir caminhos para quem veio depois.
Confira meu bate-papo com o Marcelo a respeito de Léa, esse verdadeiro mulherão que deixou um legado incrível para todos nós:
Léa Garcia acompanhada de seu filho, Marcelo - Divulgação
Léa Garcia acompanhada de seu filho, MarceloDivulgação
O que esses reconhecimentos representam para você e para a família?

Para mim e para a minha família, esse reconhecimento tem uma importância enorme. É o reconhecimento de todo o amor e de toda a dedicação que minha mãe entregou às artes, ao teatro, ao cinema e à televisão durante tantos anos.

E quando uma empresa da importância da Globo, que fez parte de uma parcela tão grande da trajetória dela, presta uma homenagem como essa, isso nos emociona muito. A estrela na Calçada da Fama representa o reconhecimento de uma vida inteira dedicada à cultura brasileira.

Para mim, pessoalmente, também tem um significado muito grande porque, desde que assumi esse trabalho de cuidar do legado dela, venho tentando manter essa memória viva. Então, a equipe Léa Garcia in memoriam e eu, estamos trabalhando muito para manter viva sua história e memória, então quando acontecem homenagens assim, eu sinto que esse trabalho está funcionando.

Ela dedicou a vida à arte e à cultura nacional. Ver todo esse reconhecimento depois de sua partida mostra que aquilo que ela construiu permanece. Para nós, filhos e familiares, é motivo de muito orgulho.
A atriz que transformou sua trajetória em legado - Divulgação
A atriz que transformou sua trajetória em legadoDivulgação


O que te motivou a transformar essa memória em um projeto tão grande e o que você gostaria que as novas gerações encontrassem ao conhecer Léa Garcia?

Já são praticamente 3 anos de um parceria que vem dando frutos como o título do Carnaval de SP, e com um portfólio de vários produtos em memória dela. Renata Maria, diretora desse projeto e Raíssa Lobo coordenadora geral, estão desde o começo ao meu lado, me motivando a ousar, trazendo e desenvolvendo estratégias e ações para continuidade desse nome, e o museu era um dos nossos desejos, e com a entrada do Vinicius Azevedo na equipe, teremos a chance de lançar um site extremamente lindo e eficiente.

Esse museu digital faz parte desse trabalho que já vem sendo construído presencialmente, através da realização de exposições, pois é um acervo muito grande, com mais de 1.500 itens ligados à vida e à carreira da minha mãe, e continuamos trabalhando para que esse material possa chegar cada vez mais às pessoas.

A ideia do site e do museu virtual surgiu justamente dessa vontade de aproximar essa história do público. Nem todo mundo consegue estar fisicamente em uma exposição. No ambiente digital, uma pessoa em qualquer lugar pode conhecer quem foi Léa Garcia, ver sua trajetória e entender a importância que ela teve para a cultura brasileira.

E isso é ainda mais importante quando pensamos nas próximas gerações. Minha mãe, como tantos artistas negros de sua geração, nem sempre recebeu em vida toda a valorização que merecia. Muitas vezes a história dos artistas negros foi colocada de lado.

Então, o que eu quero é justamente o contrário: que essa história seja conhecida, estudada e passada adiante. Que os jovens entendam quem foi Léa Garcia, o que ela enfrentou, o que conquistou e quantas portas ajudou a abrir.

Porque existe uma frase dela que resume muito do que estamos tentando fazer: “Temos que resistir e abrir espaços para as gerações vindouras.”

Dentro de casa, ela falava sobre as dificuldades que enfrentou e sobre a importância de ocupar esses espaços?

Falava muito. Esse nunca foi um assunto distante da nossa família, porque nós também sentimos muitas dessas dificuldades na pele.

Ela conversava conosco sobre racismo, sobre as dificuldades que uma pessoa negra enfrentava na escola, na faculdade, no trabalho, nos círculos sociais e, principalmente, dentro de uma profissão como a dela.

Minha mãe rompeu muitos paradigmas ao longo da carreira. Ela entrou em espaços em que uma mulher negra dificilmente conseguia entrar naquele momento e sempre fez questão de se colocar como mulher negra e como atriz negra. Ela não fugia dessa discussão.

Ao longo da trajetória dela, vieram Cannes, o teatro, o cinema, a televisão, os grandes palcos e personagens que desafiaram aquilo que se esperava de uma atriz negra naquela época. E isso abriu caminhos.

Nós, filhos e familiares, crescemos conhecendo essas histórias. Por isso sentimos tanto orgulho.

Acho que um dos maiores ensinamentos que ela deixou foi justamente esse: não aceitar que digam qual é o seu lugar. Resistir, conquistar espaço e, depois de conquistar, procurar abrir caminho para quem vem depois.

Qual é a lembrança da Léa mãe, mulher e pessoa que mais ajuda a explicar quem ela realmente era longe dos holofotes?

A Léa que existia dentro de casa era uma mulher maravilhosa.

Minha mãe criou os filhos com muita força e, em muitos momentos da vida, teve que assumir praticamente o papel de mãe e pai. E mesmo trabalhando muito, viajando, fazendo novelas, cinema e teatro, ela sempre foi extremamente presente.

Ela gostava muito de estar com a família. Gostava de reunir os filhos, conversar, contar histórias e contar os causos que viveu. Cada encontro acabava trazendo uma história, uma lembrança, alguma coisa que ela tinha aprendido ou vivido.

E ela adorava cozinhar para a família. Gostava de preparar festas, encontros, datas comemorativas. No Natal, por exemplo, era capaz de passar dias na cozinha preparando tudo, muitas vezes sem querer ajuda de ninguém. Era o jeito dela de cuidar.

Então, quando penso na minha mãe longe dos holofotes, penso nessa mulher amorosa, muito carinhosa, muito protetora, que gostava de reunir a família e fazer as coisas com amor.

Talvez essa seja a melhor maneira de explicar quem ela era: uma grande atriz para o Brasil, mas, para nós, acima de tudo, uma grande mãe.
Um dia de homenagens para uma mulher que fez história - Divulgação
Um dia de homenagens para uma mulher que fez históriaDivulgação


Se pudesse escolher uma única mensagem para deixar registrada no museu, qual seria?
O tempo passa, mas algumas histórias continuam vivas - Divulgação
O tempo passa, mas algumas histórias continuam vivasDivulgação


Eu gostaria que as pessoas entendessem uma coisa muito simples: eu sou porque ela foi.

E isso não vale apenas para mim.

Muita gente que está ocupando espaços hoje só consegue estar ali porque antes existiram pessoas como Léa Garcia, Ruth de Souza, Milton Gonçalves, Abdias do Nascimento, Haroldo Costa e tantos outros que enfrentaram uma época em que esses espaços praticamente não existiam para artistas negros.

Eles conquistaram espaço para quem veio depois.

Então, se existe uma mensagem que eu gostaria que ficasse registrada nesse museu é essa: conheçam quem veio antes de vocês. Entendam o que essas pessoas enfrentaram e não deixem que essa história desapareça.

E, principalmente, não esmoreçam e não desistam.

Porque o verdadeiro legado da minha mãe não está apenas nos filmes, nas novelas ou nas peças que ela fez. Está também nas portas que ela ajudou a abrir para que outras pessoas pudessem passar.

É isso que eu gostaria que as próximas gerações levassem da história de Léa Garcia.