Muito além do primeiro passo: proteção, autonomia e novas oportunidades para mulheres
Secretária das Mulheres de Maricá, Ingrid Bastos fala sobre os sinais da violência, os caminhos para buscar ajuda e as iniciativas que ajudam mulheres a reconstruir suas vidas
Entender os diferentes tipos de violência é também uma forma de proteção para mulheres - Divulgação
Entender os diferentes tipos de violência é também uma forma de proteção para mulheres Divulgação
Quando a gente fala em violência contra a mulher, é comum pensar logo na agressão física, naquela cena que deixa marcas visíveis. Mas a realidade é bem mais complexa. Muitas vezes, a violência começa de um jeito silencioso, em uma crítica, uma ameaça, um controle, uma tentativa de afastar a mulher de quem ela ama ou até de decidir por ela. E reconhecer esses sinais pode ser o primeiro passo para romper esse ciclo.
Em Maricá, a rede de proteção busca justamente acompanhar essa mulher não apenas no momento da denúncia, mas também no caminho de reconstrução da própria vida. Para entender como esse trabalho funciona e quais caminhos estão disponíveis para quem precisa de ajuda, conversei com a maravilhosa Ingrid Bastos, secretária de Políticas e Defesa dos Direitos das Mulheres de Maricá, que fala sobre acolhimento, proteção, informação e, principalmente, autonomia para que cada mulher possa recuperar a confiança em si mesma e escrever uma nova história.
Confira meu bate-papo com esse verdadeiro mulherão:
Ingrid Bastos explica como funciona a rede de proteção de Maricá e reforça a importância da informação, do acolhimento e da autonomia femininaDivulgação
Ingrid, quando falamos em violência contra a mulher, muita gente ainda pensa apenas na agressão física. Quais são os principais sinais de que uma mulher pode estar vivendo uma situação de violência e que, muitas vezes, acabam passando despercebidos?
Infelizmente, a violência contra a mulher nem sempre deixa marcas visíveis. A agressão física costuma ser a forma mais conhecida, mas ela geralmente é precedida ou acompanhada por outros tipos de violência igualmente graves, como a psicológica, a moral, a patrimonial, a sexual e a violência virtual.
Alguns sinais merecem atenção: quando a mulher passa a ser constantemente humilhada, ofendida ou ameaçada; quando é controlada em relação às roupas que veste, aos lugares que frequenta ou às pessoas com quem conversa; quando perde o acesso ao próprio dinheiro ou é impedida de trabalhar; quando vive com medo das reações do companheiro; quando é isolada da família e dos amigos; ou quando tem sua autoestima destruída por críticas e manipulações constantes. Muitas mulheres sequer percebem que estão vivendo um relacionamento abusivo, porque a violência costuma acontecer de forma gradual.
Ela começa com pequenas atitudes de controle e desrespeito, que acabam sendo naturalizadas, até evoluir para situações mais graves.
Por isso, nosso trabalho também é de conscientização. Precisamos mostrar que violência não começa no primeiro tapa. Ela começa quando a dignidade, a liberdade e o direito de escolha de uma mulher passam a ser violados. Quanto mais cedo esses sinais forem identificados, maiores são as possibilidades de romper esse ciclo antes que ele se agrave.
Para uma mulher que está vivendo uma situação de violência e não sabe a quem recorrer, qual deve ser o primeiro passo? Como funciona a rede de acolhimento e proteção oferecida pela Prefeitura de Maricá?
O primeiro passo é saber que ela não está sozinha. Muitas mulheres permanecem em situação de violência porque acreditam que não terão apoio ou porque sentem medo, vergonha ou dependência emocional e financeira.
Nosso papel é mostrar que existe uma rede preparada para acolhê-las com respeito, sigilo e sem qualquer julgamento. Em Maricá, a Secretaria de Políticas e Defesa dos Direitos das Mulheres coordena uma rede integrada de proteção que trabalha em conjunto.
O atendimento é humanizado e individualizado, porque entendemos que cada mulher possui uma história e necessidades diferentes.
Na Casa da Mulher, ela encontra atendimento jurídico, psicológico e de assistência social, além de toda a orientação necessária sobre seus direitos e os encaminhamentos adequados para cada situação.
Quando há risco iminente, essa articulação acontece de forma rápida com os órgãos competentes para garantir sua proteção. Nosso objetivo não é apenas oferecer um atendimento de emergência.
É caminhar ao lado dessa mulher durante todo o processo de reconstrução da sua vida, oferecendo acolhimento, proteção e oportunidades para que ela possa recomeçar com dignidade.
A Casa da Mulher e outros equipamentos, como a Casa da Mulher Itinerante, a Sala Lilás e a Tenda Lilás, ampliam esse atendimento. Como esses espaços funcionam e de que forma ajudam a levar informação e proteção para mais mulheres?
Nós acreditamos que a política pública precisa chegar até onde as mulheres estão. Nem sempre elas conseguem procurar ajuda, por isso também levamos a rede de proteção até elas.
A Casa da Mulher é o principal equipamento da nossa rede. Funciona como um espaço de acolhimento integral, onde a mulher recebe atendimento jurídico, psicológico e de assistência social, além de participar de atividades voltadas ao fortalecimento da autoestima, da saúde e da autonomia. Entendemos que romper um ciclo de violência não acontece apenas no momento da denúncia; é um processo que exige acompanhamento e suporte contínuo. Mas sabemos que muitas mulheres enfrentam dificuldades para acessar esse atendimento.
Foi pensando nisso que ampliamos nossa atuação com outros equipamentos. A Casa da Mulher Itinerante percorre diferentes bairros do município, levando orientação, acolhimento e acesso aos serviços para mulheres que vivem mais distantes dos equipamentos públicos.
A Sala Lilás é um espaço de acolhimento humanizado destinado às mulheres em situação de violência, oferecendo escuta qualificada e os primeiros encaminhamentos necessários, garantindo que elas sejam atendidas com respeito, privacidade e segurança. Já a Tenda Lilás está presente em eventos, ações sociais e grandes mobilizações da cidade.
Ela tem um papel fundamental na prevenção, na conscientização e na divulgação dos direitos das mulheres, aproximando os serviços da população e alcançando mulheres que, muitas vezes, sequer conheciam a existência dessa rede de proteção. Cada um desses equipamentos fortalece uma mesma missão: garantir que nenhuma mulher fique sem informação, sem acolhimento e sem acesso aos seus direitos.
Além do acolhimento e da proteção, a autonomia também é fundamental para que muitas mulheres consigam reconstruir suas vidas. Como Maricá trabalha com qualificação profissional, geração de renda e outras iniciativas para fortalecer a independência dessas mulheres?
Nós entendemos que enfrentar a violência também significa construir autonomia. Muitas mulheres permanecem em relações abusivas porque dependem financeiramente do agressor. Por isso, proteger também é criar oportunidades.
Na Secretaria de Políticas e Defesa dos Direitos das Mulheres, desenvolvemos diversas iniciativas voltadas à qualificação profissional, ao empreendedorismo e à geração de renda. Criamos o Conselho Municipal de Empreendedorismo Feminino, o Conselho Municipal de Políticas de Cuidados e a Cooperativa de Mulheres, fortalecendo espaços de participação, desenvolvimento econômico e construção coletiva.
Também oferecemos cursos e capacitações que ampliam as oportunidades de inserção no mercado de trabalho e de empreendedorismo, como os cursos de Mulheres Bilíngues, Política Feminista, oficinas de artesanato e feltro em parceria com o Instituto Jacintho, workshops sobre empreendedorismo e desenvolvimento profissional, além do nosso novo Curso de Costura.
Recentemente, lançamos ainda a Escola de Liderança Feminina “Mulheres que Transformam”, porque acreditamos que autonomia também passa pelo acesso ao conhecimento, pela formação de lideranças e pela ocupação dos espaços de decisão.
Além disso, Maricá conta com o programa Auxílio Recomeçar sem Violência, um importante instrumento de proteção social que oferece suporte financeiro temporário às mulheres que atendem aos critérios legais, permitindo que elas tenham condições concretas para romper o ciclo de violência e reconstruir suas vidas. Nosso compromisso é olhar para a mulher de forma integral.
Acolher quem sofre violência é essencial, mas oferecer condições para que ela recupere sua independência, sua autoestima e seu projeto de vida é o que torna essa transformação verdadeiramente duradoura. Hoje, trabalhamos para que cada mulher que passe pela nossa rede não encontre apenas proteção, mas também oportunidades para escrever uma nova história.
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