A Copa do Mundo de 2026 promete impulsionar a economia carioca. Segundo pesquisa do Clube dos Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDLRio) e do Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro (SindilojasRio), o comércio da cidade deve registrar um aumento de 2,5% nas vendas. O jornal O DIA ouviu especialistas para analisar como os jogos podem impactar o cenário econômico do Rio.
Entre os setores analisados pelo levantamento, o de eletrônicos se destaca, impulsionado sobretudo pela maior demanda por televisores, cuja expectativa de aumento nas vendas pode chegar a 10%. A Copa do Mundo de 2026 será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, entre os dias 11 de junho e 19 de julho.
"Além dos setores de vestuário esportivo e acessórios, decoração e dos serviços de alimentação e bebidas, que irão agitar os festejos da Copa do Mundo, o comércio de televisores pode surpreender", aponta Aldo Gonçalves, presidente do CDLRio e do SindilojasRio. O estudo ouviu 250 lojistas da cidade.
No panorama nacional, estima-se que cerca de 60% dos consumidores pretendem ir às compras ou contratar serviços para a Copa, aponta a pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil).
Os produtos de consumo mais procurados serão bebidas não alcoólicas (68%), petiscos (62%), carnes para churrasco (60%) e cervejas (59%). Além disso, 61% dos consumidores planejam comprar camisas oficiais ou temáticas, bem como adereços como bandeiras e cornetas (42%).
O setor de serviços também será beneficiado pela Copa. A sondagem revela que 61% dos entrevistados utilizarão delivery de comida e bebida, e 39% disseram que vão acompanhar os jogos em bares e restaurantes. A pesquisa entrevistou 600 pessoas que têm a intenção de gastar na data.
O sócio-fundador do Grupo Impettus, Bruno Gorodicht, responsável por marcas como Espetto Carioca, Mané e Buteco Seu Rufino, conta que os estabelecimentos já estão trabalhando nos preparativos para as transmissões das partidas.
Bruno Gorodicht, sócio-fundador do Grupo ImpettusDivulgação
"Estamos nos preparando com uma programação especial para os dias de jogos, incluindo promoções temáticas, reforço no estoque dos produtos de maior saída e ampliação das equipes de atendimento nas unidades. Além disso, investimos em ambientação e ações promocionais para tornar a experiência do cliente ainda mais atrativa durante o período da Copa", ressalta.
Sobre o aumento do número de clientes, Bruno destaca que a previsão é positiva:
"A expectativa é de um aumento significativo no fluxo de clientes, principalmente nos dias de jogos do Brasil. Historicamente, eventos esportivos desse porte impulsionam bastante o movimento, especialmente em bares e restaurantes voltados para confraternização e transmissão esportiva."
"A logística envolve organização antecipada das operações, testes de equipamentos, reforço de equipe e planejamento de estoque, garantindo que os clientes tenham uma experiência confortável e de qualidade durante as transmissões", completa.
Na hora de escolher o estabelecimento para acompanhar as partidas, o levantamento da CNDL indica que 37% dos consumidores escolhem o lugar pelo preço das comidas, 34% por ser bem frequentado, 34% pela qualidade das bebidas e comidas e 33% pelo preço das bebidas.
Para quem quer acompanhar os jogos fora de casa, há alternativas para todos os públicos. Em Jacarepaguá, por exemplo, a hamburgueria Bless Burguer aposta em um ambiente mais familiar e confortável para quem prefere aproveitar com mais tranquilidade e segurança.
"Nós somos uma hamburgueria cristã/gospel e não trabalhamos com venda de álcool. Então nosso foco durante a Copa é oferecer um ambiente familiar, confortável e seguro para quem quer assistir aos jogos com tranquilidade", afirma o proprietário Caio Josuá.
Caio Josuá e Carol Di Mare, proprietários do Bless BurgerDivulgação
"Muitas famílias, pessoas com crianças, adolescentes e até grupos de igreja procuram lugares onde possam torcer sem precisar ir para ambientes com bebida, confusão ou excesso de muvuca. Queremos justamente atender esse público que busca um espaço acolhedor para viver a Copa de uma forma leve e divertida", explica.
Caio Josuá também frisa que a Copa é muito importante para o comércio local. "A Copa movimenta o comércio local porque ela incentiva as pessoas a saírem de casa e consumirem em grupo. O brasileiro gosta dessa experiência coletiva, de vibrar junto, torcer junto e estar em ambientes cheios de energia."
Já para quem prefere acompanhar de casa, mas sem abrir mão de conforto, também há opções. Lennon Mendes, conhecido como LennonBBQ, trabalha como gastrônomo assador e diz que gosta de reunir os amigos para acompanhar os jogos.
"Principalmente em finais. Acaba sendo a oportunidade de rever alguns amigos que não fazem parte da rotina", conta. "Com o dia a dia corrido, às vezes acaba acontecendo no improviso mesmo, mas sempre que posso antecipo a galera e já deixamos marcado! Como costumo ser o cara que organiza os eventos, sempre sobra para mim, até estranham quando não menciono fazer algo."
fotogaleria
Lennon diz que sente uma variação nos preços durante o período da comemoração.
"Como trabalho no setor de eventos, consigo acompanhar isso de perto. Mesmo com promoções para incentivar o consumidor, ainda assim é perceptível que o churrasquinho fica cada vez mais caro. Ainda assim, nessas épocas os mercados e bares sempre estão mais cheios."
Varejo
O período também traz ganhos para as grandes varejistas. Mariana Figueiredo, head comercial da Americanas, diz que, além de snacks, bebidas, acessórios de torcida, TVs, itens de utilidade doméstica e o álbum de figurinhas, a tendência "brasilcore" também tem grande demanda.
Mariana Figueiredo, Head Comercial da Americanas Rayanne Abreu
"Entre os itens com maior potencial de venda estão figurinhas e álbuns, snacks, chocolates, bebidas, acessórios de torcida, camisetas temáticas, chinelos nas cores do Brasil, além de categorias voltadas para consumo em casa, como fritadeiras elétricas, churrasqueiras portáteis e TVs", pontua.
"Grandes eventos esportivos, como o Mundial de Futebol, têm impacto direto no varejo e movimentam diferentes categorias de consumo. O período estimula compras ligadas à convivência, entretenimento e praticidade, tanto no ambiente físico quanto digital. Além disso, o campeonato gera engajamento emocional, amplia o fluxo nas lojas e favorece compras recorrentes."
A economista Enivalda Pina destaca a importância da Copa do Mundo de 2026 para a economia carioca.
Economista Enivalda Alves da Silva PinaDivulgação
"Grandes eventos como a Copa do Mundo movimentam a economia das cidades ao atrair mais turistas, aumentar o consumo em hotéis, restaurantes, transporte e lazer, além de gerar empregos temporários", garante.
"No Rio de Janeiro, a Copa de 2014 impulsionou investimentos em infraestrutura, como melhorias em aeroportos, transporte público e projetos urbanos, deixando impactos que permaneceram após o evento, como a revitalização da região do Porto Maravilha e a expansão dos corredores de BRT", lembra.
Segundo a economista, o turismo interno e externo costuma ser fortalecido durante o período.
"O Rio de Janeiro, por exemplo, registrou um incremento de 390 mil turistas estrangeiros em 2014 em comparação com o ano anterior, totalizando 1,59 milhão de visitantes internacionais. Os meses de junho e julho, período da Copa, foram os de maior entrada de estrangeiros, com 251 mil e 159 mil, respectivamente", comenta Enivalda.
"Os principais países emissores foram Argentina, Estados Unidos e França. Esse aumento não se restringe apenas aos estrangeiros; o turismo doméstico também é impulsionado, com brasileiros viajando para as cidades-sede ou para destinos próximos para acompanhar o evento."
O economista Arthur Cassemiro Bispo ressalta que os impactos na economia não ocorrem apenas durante os jogos.
Economista Arthur CassemiroDivulgação
"O impacto começa antes do primeiro jogo e, quando bem aproveitado, dura muito depois do último. Uma Copa exige preparação em várias frentes simultâneas: obras, mobilidade, segurança, hotelaria, tecnologia e serviços urbanos", afirma.
"No Rio, esse efeito é amplificado porque a cidade tem uma economia muito ligada ao turismo, à cultura e à projeção internacional. O movimento gerado pelo evento não fica restrito ao estádio. Ele alcança o hotel, o restaurante, o transporte, o comércio de bairro, a segurança privada e a publicidade."
A reportagem entrou em contato com o Sindicato Patronal de todos os meios de hospedagem da cidade do Rio de Janeiro (HotéisRIO) e com o Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio), mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.