O Rio de Janeiro registrou cerca de oito roubos de caminhões por dia, totalizando 3.114 ocorrências em 2025, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Apesar de o número ainda ser elevado, esse foi o menor registro dos últimos 13 anos. Para entender os impactos desse tipo de crime na economia fluminense, O DIA ouviu representantes do setor e especialistas.
Evolução anual do roubo de carga no estado do Rio de JaneiroDivulgação / Firjan
De acordo com levantamento da Firjan, o roubo de cargas no Rio de Janeiro é considerado "altamente concentrado". Em 2025, 99% das ocorrências foram registradas na Região Metropolitana. Além disso, mais da metade dos casos aconteceu em apenas oito das 137 Circunscrições Integradas de Segurança Pública (Cisps) do Estado.
A Cisp 59 (Duque de Caxias) foi a unidade com o maior número de ocorrências em 2025, somando 399 registros. O número representa um aumento de 29% em relação a 2024, equivalente a 89 casos a mais. Na sequência, aparecem a Cisp 60 (Campos Elíseos), com 287 ocorrências, e a Cisp 64 (São João de Meriti), com 215 registros.
As perdas diretas provocadas pelos roubos de carga no Estado somaram cerca de R$ 314 milhões em 2025.
Apesar da melhora anual, dados preliminares de 2026 indicam que o problema segue instável. Indicadores de criminalidade divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), referentes a abril deste ano, mostram que os roubos de carga tiveram alta de 32,1% nos quatro primeiros meses de 2026.
Procurado pela reportagem, Samuel Rivero, especialista em Segurança Pública da Firjan, comentou os impactos dos roubos de carga na economia fluminense.
Samuel Rivero, especialista em Segurança Pública da FirjanPaula Johas / Firjan
"O estudo Custo Rio, da Firjan, estima que a insegurança e a ilegalidade geram um custo adicional de R$ 31,1 bilhões por ano para a economia fluminense. Reduzir esse custo é parte central da agenda de competitividade que o Rio de Janeiro precisa enfrentar", frisa Rivero.
"Embora o roubo de carga afete toda a cadeia produtiva, as micro e pequenas empresas são especialmente vulneráveis. Elas têm ainda menos capacidade de absorver os custos indiretos de prevenção, que representam cerca de 84% do custo total associado à insegurança, de acordo com a Sondagem Industrial da Firjan", acrescenta.
Ainda segundo levantamento da Firjan, dois em cada três empresários afirmam que as decisões de investimento no Rio de Janeiro são influenciadas pelas condições de segurança pública.
"Isso significa empregos que não são criados, empresas que escolhem outros estados e um potencial econômico que o Rio deixa de realizar", explica Rivero.
Consequências para o consumidor
O roubo de cargas gera impactos que vão muito além da perda da mercadoria, destaca James Theodoro, CEO da Korsa Riscos & Seguros, empresa especializada em seguros de transporte e gerenciamento de riscos.
James Theodoro, CEO da Korsa Riscos &SegurosArquivo pessoal
"Quando produtos roubados são revendidos por valores muito abaixo dos praticados pelo mercado formal, cria-se uma concorrência desleal que prejudica comerciantes, distribuidores e fabricantes", garante.
Esse crime também afeta diretamente os preços dos produtos que chegam ao consumidor final.
"O aumento dos riscos logísticos eleva custos com segurança, monitoramento, seguros e reposição de mercadorias. Esses custos acabam sendo incorporados à operação das empresas e, em alguma medida, podem ser repassados ao consumidor final, contribuindo para o aumento dos preços dos produtos", informa o especialista.
Segundo Marlon Glaciano, economista e planejador financeiro, "o roubo de cargas é um dos impostos invisíveis mais caros que a população paga".
Marlon Glaciano, economista e planejador financeiroArquivo pessoal
"Cada caminhão roubado aumenta os custos das empresas, reduz a competitividade do Estado e afasta investimentos. Os setores mais prejudicados são alimentos, medicamentos, bebidas, combustíveis e varejo, justamente aqueles que impactam diretamente o dia a dia da população", diz.
Crime organizado
O economista Natale Papa Jr. chama atenção para a recorrência desses crimes e para o envolvimento de organizações criminosas nas ações.
Economista Natale Papa Jr.Arquivo pessoal
"Em muitos casos, há atuação de organizações criminosas que utilizam inteligência prévia sobre rotas, horários e tipos de carga. O objetivo normalmente não é apenas o roubo em si, mas a rápida inserção desses produtos em mercados ilegais de revenda. Isso transforma o roubo de cargas em uma atividade econômica do crime organizado", expõe.
"Enquanto houver demanda por produtos roubados, o incentivo econômico para esse crime continuará existindo", diz.
O CEO da Korsa Riscos & Seguros, James Theodoro, afirma que esse tipo de crime geralmente é planejado com antecedência:
"Em muitos casos, as quadrilhas atuam com planejamento e informações detalhadas sobre as operações logísticas. É comum a identificação antecipada de rotas, horários e cargas de maior valor agregado. Em algumas situações, há infiltração de informações dentro da cadeia logística, o que demonstra um nível elevado de organização dos grupos criminosos."
Segundo ele, o roubo de cargas no Rio de Janeiro é um problema "multifatorial".
"Entre os principais fatores estão a atuação estruturada do crime organizado, a existência de canais de receptação de mercadorias roubadas, desafios relacionados à fiscalização e à segurança pública, além da percepção de baixo risco para quem compra ou comercializa produtos de origem ilícita", aponta.
Para reduzir o número de casos, é necessário investir em políticas públicas, de acordo com o CEO.
"As medidas mais eficazes passam pela integração entre inteligência policial, investigação financeira, aumento da fiscalização sobre receptadores e reforço da presença das forças de segurança em áreas críticas", destaca. "Também é fundamental combater os mercados informais que comercializam produtos roubados, pois a receptação é um dos principais motores econômicos desse tipo de crime."
Seguradoras
De forma geral, o mercado segurador adota condições mais conservadoras para operações com destino ao Rio de Janeiro ou realizadas integralmente em seu território, afirma Carlos Eduardo Polízio, superintendente de Seguro Aeronáutico, Casco Marítimo e Transporte da Mapfre, empresa especializada em serviços nos segmentos de seguros, finanças, saúde e assistência.
Carlos Eduardo Polízio, superintendente de Seguro Aeronáutico, Casco Marítimo e Transporte da MapfreArquivo pessoal
Segundo ele, isso se reflete na aplicação de taxas mais elevadas, franquias diferenciadas e, em alguns casos, restrições específicas de cobertura.
"Essas condições variam conforme fatores como o tipo de mercadoria transportada, as rotas utilizadas, o perfil da operação e as medidas de gerenciamento de risco implementadas. Dessa forma, o custo do seguro para operações no Rio de Janeiro tende a ser superior ao de operações semelhantes realizadas em outros estados", aponta.
Questionado sobre as mercadorias mais visadas por criminosos em roubos de carga, o superintendente lista:
- gêneros alimentícios em geral, com destaque para carnes;
- produtos eletrônicos, especialmente televisores, computadores, notebooks, tablets, monitores, aparelhos de som e videogames, incluindo peças e acessórios;
- aparelhos de telefonia celular, bem como seus acessórios e componentes;
- eletrodomésticos;
- utensílios domésticos;
- bebidas em geral;
- café em grão e beneficiado;
- produtos de higiene e limpeza;
- brinquedos;
- placas e inversores solares;
- autopeças em geral.
Polízio também explica que, dependendo do valor transportado, do tipo de mercadoria e do perfil da rota, podem ser exigidas medidas adicionais, como a contratação de escolta armada, o uso de veículos blindados e restrições de horários de circulação.
"Essas exigências têm como objetivo reduzir a exposição ao risco e proporcionar maior controle e segurança às operações de transporte", afirma.
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