Flávio Bolsonaro participa de sabatina na TV GloboGlobo/ Manoella Mello

O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, foi entrevistado pela jornalista Renata Lo Prete na noite desta sexta-feira (16), em sabatina exibida pela TV Globo após o Jornal Nacional. Ao longo da conversa, ele falou sobre propostas para as contas públicas, a mudança de posição sobre o fim da escala de trabalho 6x1, a duração do mandato presidencial, alterações no Judiciário, recursos destinados a um filme sobre Jair Bolsonaro, segurança pública e os atos de 8 de janeiro de 2023.
Assim que a entrevista começou, foram registrados panelaços em bairros do Rio de Janeiro e de São Paulo, em protesto contra a sabatina. A manifestação remete a episódios de 2015, quando moradores também bateram panelas durante a exibição de falas da então presidente Dilma Rousseff no Jornal Nacional e em pronunciamentos do governo. Naquele período, os protestos contra a gestão petista se espalharam por diferentes regiões do país.  

Redução de despesas públicas

No início da entrevista, Renata Lo Prete questionou como Flávio pretende promover um ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões sem alterar os reajustes do salário mínimo, a correção das aposentadorias ou os pisos constitucionais de saúde e educação. O candidato afirmou que manterá os reajustes do mínimo acima da inflação, não desvinculará o benefício previdenciário e não pretende eliminar os pisos de gastos das duas áreas.

Como alternativas, ele citou a redução de pelo menos dez dos 39 ministérios, o combate à corrupção, mudanças na gestão das estatais e a utilização de imóveis públicos e dívidas que a União tem a receber para obter recursos. Também mencionou a exploração de petróleo na Margem Equatorial.

“Tem de onde tirar, tem muito corte de despesas, em especial no combate à corrupção”, afirmou.

Ao falar sobre os imóveis públicos, Flávio disse que o patrimônio poderia ser reunido em um fundo e utilizado para gerar receitas. Também estimou que a securitização de valores devidos à União poderia ampliar a arrecadação. As cifras apresentadas pelo candidato foram questionadas pela entrevistadora, que lembrou que, segundo a própria Petrobras, a exploração na Margem Equatorial não deve começar antes de 2033.

Flávio também atribuiu o aumento dos juros e das despesas com a dívida pública à gestão de Lula. Ao longo da resposta, apresentou estimativas sobre o impacto das taxas de juros e as perdas das estatais, sem detalhar como todas as medidas citadas seriam convertidas em economia anual suficiente para alcançar o ajuste prometido.

Mudança de posição sobre escala 6x1

A mudança de posição de Flávio sobre o fim da escala de trabalho 6x1 também foi abordada. Lo Prete lembrou que ele havia criticado a proposta, classificado a medida como eleitoreira e, posteriormente, votado a favor da emenda que prevê a redução da jornada sem corte salarial.

O senador disse que sempre defendeu maior liberdade para o trabalhador organizar sua jornada e citou o caso de mães que precisam conciliar o emprego com os cuidados dos filhos. Segundo ele, a decisão de votar a favor ocorreu depois de ouvir trabalhadores durante viagens pelo país.

“Eu ouvi muitos trabalhadores e eu votei conforme o que eu ouvi nas ruas”, declarou.

Flávio afirmou que não pretende reverter a decisão do Congresso. “Todos os direitos trabalhistas estão garantidos”, disse. Também prometeu ampliar a oferta de creches e criar um sistema de vouchers para famílias que não encontrem vagas na rede pública.

O candidato acrescentou que pretende associar a redução da jornada a medidas de segurança pública e de recuperação do poder de compra. Ele afirmou que a folga adicional precisa vir acompanhada de condições para que os trabalhadores possam aproveitar o tempo livre com mais segurança e tranquilidade financeira.

Sem reeleição

Questionado sobre a proposta de acabar com a reeleição presidencial e a possibilidade de ampliar o mandato de quatro para cinco anos, Flávio afirmou que pretende exercer apenas um mandato, caso seja eleito. Ele explicou que a proposta de emenda à Constituição apresentada por sua equipe prevê o fim da reeleição, enquanto a definição sobre a duração do mandato dependeria da tramitação no Congresso Nacional.

“Eu só preciso de um mandato para começar a consertar o nosso país de verdade”, afirmou.

Lo Prete observou que a proposta mencionada não prevê, por si só, a extensão do mandato presidencial. O candidato respondeu que aceitará a duração definida pelo Congresso, mesmo que permaneça em quatro anos.

Ele também afirmou que a regra contra a reeleição deveria alcançar parentes até terceiro grau e disse que não apoiaria uma mudança que permitisse ao pai ou aos irmãos concorrerem à sua sucessão.

Crítica a ministros do STF e comentário sobre caso Master

A reforma do Judiciário foi outro tema da sabatina. Lo Prete citou propostas incluídas no plano de governo de Flávio, como retirar do Supremo Tribunal Federal (STF) o julgamento de processos criminais contra parlamentares, reduzir decisões individuais de ministros e restringir situações envolvendo familiares de magistrados na advocacia perante o tribunal.

Flávio defendeu a redução de privilégios nos três Poderes e direcionou críticas ao ministro Alexandre de Moraes. O senador acusou o magistrado de perseguir adversários políticos e de atuar em favor de Lula, mas não apresentou, na entrevista, comprovação para essas acusações.

Ao ser questionado sobre Kassio Nunes Marques, ministro indicado por Jair Bolsonaro, diante de informações sobre possíveis relações financeiras com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, Flávio respondeu de forma geral que todos devem estar submetidos à lei.

“A lei vale para todo mundo”, afirmou. Ele defendeu que ministros do Supremo respondam caso cometam crimes de responsabilidade.

A entrevista também abordou o dinheiro solicitado por Flávio a Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Lo Prete perguntou sobre a diferença entre os R$ 134 milhões solicitados e os R$ 75 milhões atribuídos ao custo da produção em uma perícia mencionada na entrevista. A jornalista também questionou a transferência dos recursos para um fundo nos Estados Unidos e a falta de informações públicas sobre a destinação do dinheiro.

Flávio afirmou que o contrato não foi cumprido integralmente e que os recursos de Vorcaro, somados aos de outros investidores, permitiram concluir o filme. Ele classificou o financiamento como uma relação privada, sem contrapartida ligada ao seu mandato de senador.

Durante a resposta, o candidato fez acusações contra Lula e mencionou supostas irregularidades relacionadas a outro filme. Lo Prete interrompeu a discussão para afirmar que a entrevista estava baseada em fatos respaldados por investigações ou apurações jornalísticas e que aquelas alegações não tinham, naquele momento, base suficientemente estabelecida para serem tratadas como fatos.

Flávio nega que pai vá ocupar cargo no governo

Ao ser questionado sobre a possibilidade de Jair Bolsonaro ocupar um cargo em um eventual governo seu, caso a condenação do ex-presidente fosse anulada, Flávio criticou o julgamento e afirmou que considera a condenação injusta. A Justiça condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado.

O senador não confirmou que nomearia o pai para um posto no governo. Disse que Jair Bolsonaro nunca conversou com ele sobre a possibilidade de assumir um cargo e que poderia consultá-lo como ex-presidente.

“Eu tenho o privilégio de, a hora que eu precisar consultar um ex-presidente da República, eu tenho um dentro de casa de confiança”, afirmou.

Sobre o irmão Eduardo Bolsonaro, questionado a respeito da possibilidade de assumir o Ministério das Relações Exteriores, Flávio foi direto: “Ele não vai ser meu chanceler”. O candidato chamou o irmão de perseguido político e elogiou a atuação dele junto a lideranças conservadoras no exterior.

Forças Armadas contra o crime

Ao falar sobre segurança pública, Flávio prometeu convocar os comandantes das Forças Armadas e chefes das polícias estaduais para uma reunião no início de um eventual governo. A proposta, segundo ele, seria coordenar ações contra o narcotráfico e reforçar o controle das fronteiras.

O senador disse que pretende classificar o Comando Vermelho, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e milícias como organizações narcoterroristas. Também defendeu a atuação da Marinha no Porto de Santos e o emprego do Exército e da Força Aérea na região amazônica e nas fronteiras com a Bolívia.

Flávio afirmou ainda que o Brasil deveria integrar o chamado Escudo das Américas, com intercâmbio de informações e inteligência para combater o terrorismo na região da tríplice fronteira.

Punição aos envolvidos no 8 de janeiro

Lo Prete perguntou como deveriam ser punidas as pessoas que invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. A jornalista citou danos ao patrimônio público, ataques a policiais e o roubo de armas.

Flávio respondeu que as punições devem ocorrer de acordo com a lei e a gravidade dos crimes cometidos. “A depredação de patrimônio público, agredir um policial é inaceitável, não tem justificativa para isso”, declarou.

Em seguida, contestou a ideia de que todos os participantes dos atos tivessem envolvimento em uma tentativa de golpe e citou pessoas que, segundo ele, estavam no local sem participar diretamente dos ataques. O candidato voltou a classificar o processo contra o pai como uma farsa e afirmou que a história ainda demonstrará que houve uma tentativa de afastar Jair Bolsonaro da vida pública.
Endurecimento penal
Questionado sobre a proposta de retirar a marcação de identificação de cápsulas e munições, Flávio não respondeu diretamente como a medida ajudaria a combater o crime organizado. O candidato afirmou que a prioridade seria endurecer as punições e citou o projeto de lei antifacção e a PEC da Segurança Pública. “O que a gente tem que trabalhar aqui é para acabar com a impunidade de verdade”, declarou.

Flávio voltou a defender que facções criminosas e milícias sejam classificadas como organizações narcoterroristas. “Vão morrer presos na cadeia ou vão ser neutralizados pela polícia”, afirmou. Também prometeu investir em tecnologia e comprar mais de um milhão de câmeras com inteligência artificial, conectadas a equipamentos já existentes e a um cadastro de mandados de prisão. Segundo ele, o sistema permitiria localizar suspeitos em outros estados.

Ao ser questionado sobre o acesso a armas, o senador defendeu que cidadãos que cumpram os requisitos legais possam ter armamento para proteger a família e o patrimônio. Ele citou a queda de 17% na taxa de homicídios no primeiro ano do governo Jair Bolsonaro como argumento a favor de sua posição, mas não apresentou dados que demonstrassem uma relação direta entre a ampliação do acesso a armas e a redução dos homicídios.

Flávio disse que o Estatuto do Desarmamento precisa ser aprimorado, mas não detalhou se pretende revogá-lo. “O problema está nas armas na mão das pessoas erradas”, afirmou.

Prisão de aliados políticos no Rio

A entrevista abordou suspeitas envolvendo políticos com quem Flávio teve proximidade no Rio de Janeiro. Renata Lo Prete citou a prisão do deputado estadual Márcio Canella, aliado do senador que recebeu manifestações públicas de apoio dele, e as suspeitas de lavagem de dinheiro e ligações com milícias e tráfico. Também mencionou Rodrigo Bacellar, que chegou a ser apontado como candidato ao governo fluminense apoiado por Flávio e foi preso sob suspeita de comandar o braço político do Comando Vermelho, além do ex-governador Cláudio Castro, declarado inelegível e citado na discussão sobre o caso Master.

Questionado se as revelações o surpreenderam, Flávio respondeu que os investigados têm direito à defesa. “As pessoas têm o direito de se defenderem e provar a sua inocência, que é o que eu espero que todos eles façam”, disse. Em seguida, afirmou que não pretende proteger envolvidos em irregularidades.

“Se a pessoa cometeu algo de errado, ela vai ter que responder por isso”, declarou. O senador acrescentou que, em um eventual governo, pretende endurecer as punições para quem tiver envolvimento comprovado com organizações criminosas.
Padrão de hospital privado no SUS
Na área da saúde, Flávio foi questionado sobre a escolha do médico Cláudio Lottenberg para a equipe de um eventual governo. Lo Prete lembrou que, durante a pandemia de covid-19, ele havia criticado a demora do governo Jair Bolsonaro na compra de vacinas. Perguntado se o futuro ministro teria autonomia para tomar decisões em uma nova emergência sanitária, o candidato respondeu afirmativamente.

Flávio afirmou que pretende aproveitar experiências do Hospital Israelita Albert Einstein, que Lottenberg presidiu, para melhorar o atendimento público. “É para o SUS ter padrão Einstein”, declarou.

Entre as propostas, citou a ampliação da telemedicina, ferramentas digitais para localizar unidades de saúde com atendimento mais rápido e a criação de um prontuário eletrônico único, integrando informações das redes municipal, estadual, federal e privada. O candidato também disse que pretende usar vagas ociosas da rede particular para atender pacientes que aguardam procedimentos pelo sistema público.

Como exemplo, mencionou pessoas que esperam meses por uma cirurgia de catarata e que poderiam ser encaminhadas para uma vaga disponível na rede privada, com pagamento do governo federal. “Então, é assim que eu vou fazer o Brasil sem filas”, afirmou.

Promessas para economia e segurança

Nas considerações finais, Flávio pediu votos para o segundo turno e apresentou três compromissos: não prometer o que não possa cumprir, recuperar a economia e devolver segurança à população. “Eu vou devolver o seu poder de compra. Você vai ter dinheiro no bolso de novo”, disse.

O candidato também afirmou que pretende se dedicar a ampliar a segurança nas ruas e pediu que eleitores indecisos ou que não compareceram ao primeiro turno votem nele. Durante a fala, voltou a criticar Lula e acusou o presidente de fazer promessas que não cumpriria. Flávio encerrou pedindo votos para sua candidatura, identificada pelo número 22, e afirmando que pretende promover uma mudança no país.