Rio - Candidatos ao governo do estado, Anthony Garotinho (PR) e Marcelo Crivella (PRB) têm perfis semelhantes em alguns pontos de vista, opostos em outros casos. Já Luiz Fernando Pezão (PMDB) e Lindberg Farias (PT), que até o início do ano eram aliados e brigavam um pelo apoio do outro, agora disputam o voto do eleitor.
Líder nas últimas pesquisas de intenção de voto, Garotinho tem base eleitoral entre evangélicos e as camadas mais pobres do eleitorado. Mesmo público de Crivella. Isto, no entanto, não é suficiente para colocar as duas candidaturas no mesmo perfil, de acordo com o cientista político Ricardo Ismael, da PUC.
“São muitas diferenças. Crivella é mais discreto, tenta passar um tom mais conciliatório. Garotinho é mais provocador, gosta do conflito. Talvez até por isso tenha uma rejeição maior do que o senador” compara Ismael.
Questionados pelo DIA sobre suas diferenças e semelhanças, Garotinho e Crivella, adotaram um tom diferente do habitual, mostrado pelo cientista político. Bispo licenciado da Igreja Universal e sobrinho do fundador, Edir Macedo, Crivella diz que as semelhanças com o ex-governador se resumem ao fato de serem evangélicos.
“Eu nunca escolhi o Cabral para ser meu sucessor. Ele, sim. Eu trabalho em parceria. Ele, não. Por isso os projetos dele, que até são importantes, se resumem a restaurante e farmácia a R$ 1. Eu ajudei a construir a aliança que fez o governo federal investir milhões no Rio. Ele pensa pequeno. Eu, grande”, provoca Crivella.
Garotinho, que se apresenta como teólogo presbiteriano, evitou o confronto. Mas mandou um recado irônico ao senador. “Não vou fazer com ele o que ele tem feito comigo, dizendo que vou acabar com a UPP e falando mal do restaurante popular. Como pastor ele deveria saber que na Bíblia está escrito que mentir é pecado”, diz o deputado.
O desafio de Pezão e Lindberg é mostrar que são diferentes não na forma, mas no conteúdo. Ligados por uma aliança nacional entre o PT e o PMDB, eles têm rebolado no discurso para garantir não apenas o apoio formal, mas a atenção da presidenta Dilma e de Lula. Pezão não vê problemas em se apresentar como candidato da situação. Lindberg procura encaixar um discurso que mescle oposição e continuidade.
“A grande questão do Lindberg é também um pouco a do Crivella, que é mostrar ao eleitor que é oposição. Neste quadro, apenas o Garotinho é opositor ao atual governo”, conclui Ismael.
Garotinho: Ex-governador que virou pastor
A ligação entre Garotinho e a religião surgiu em 1994, após um grave acidente de carro na Via Dutra, durante a campanha para o governo do estado. Na ocasião, se converteu ao presbiterianismo.
Garotinho, no entanto, já militava politicamente desde o início dos anos 80, primeiramente no PT, mas logo depois no PDT de Leonel Brizola.
Em 1989, foi eleito prefeito de Campos, cargo que voltou a ocupar em 1997. No ano seguinte, elegeu-se governador e, quatro anos depois, em 2002, elegeu no primeiro turno sua esposa, Rosinha Garotinho, como sucessora.
Neste ano, foi candidato à presidência da República, ficando em terceiro lugar com 15 milhões de votos.
Perdeu popularidade após o fim do governo Rosinha, em 2006, quando buscou apoio entre os evangélicos para seguir sua carreira. Dois anos depois, elegeu Rosinha prefeita de Campos e sua filha Clarissa vereadora do Rio. Em 2010 foi o deputado federal mais votado da história do Rio, com quase 700 mil votos, e agora tentará mais uma vez voltar ao Palácio Guanabara.
Crivella: O pastor que virou senador
O senador Marcelo Crivella tem com a religião uma relação distinta em relação a Garotinho. Fizeram caminhos opostos. Começou como pastor na Igreja Universal, depois foi elevado ao posto de bispo e só entrou na vida política nos anos 2000, candidatando-se ao Senado em 2002, para onde foi eleito juntamente com o ex-governador Sérgio Cabral.
Tentou, sem sucesso, se eleger prefeito do Rio em 2004 e 2008, além de governador em 2006, quando foi derrotado no primeiro turno e no segundo decidiu apoiar Sérgio Cabral numa aliança costurada também com o PT.
Em 2010, disputou mais uma vez o Senado e foi reeleito. Sempre fiel ao governo petista, foi nomeado Ministro da Pesca em 2012 e ficou n o cargo até março deste ano.
Decidiu concorrer ao Executivo pela quarta vez, agora tentando desvincular seu nome da Igreja Universal, mostrando capacidade de gestão com base na sua bem-sucedida articulação política no Senado, onde teve papel importante na captação de recursos federais para o Estado do Rio.
Lindberg: Um adversário de última hora
O senador Lindberg Farias foi aliado do PMDB de Luiz Fernando Pezão durante praticamente todo o mandato de Sérgio Cabral, tendo rompido com o governo apenas em março deste ano, alegando descontentamento com o rumo da atual gestão para lançar sua candidatura.
Tentou a todo custo ser o candidato da aliança PT-PMDB com o apoio de Pezão e Cabral, mas não teve a adesão da cúpula de seu partido, nem do ex-presidente Lula, nem da presidenta Dilma Rousseff, para alçar voo solo.
Ainda assim decidiu arriscar, com o apoio do diretório estadual do partido - unânime, bom que se diga - e do presidente Washington Quaquá.
Seu principal desafio na campanha é, justamente, se desvincular do governo Cabral/Pezão e mostrar ao eleitor que é oposição, que nem nos discursos tem ficado claro. Ora diz ser opositor, ora, para não desagradar Lula e Dilma, diz que pretende avançar em relação às conquistas do atual governo.
Sua maior briga com Pezão é pelo apoio tanto de Dilma quanto de Lula.
Pezão: Aliado fiel aos governos do PT
O governador Luiz Fernando Pezão tem como principal trunfo de campanha as realizações do PMDB no Rio nos últimos oito anos, primeiro sob o comando de Sérgio Cabral, e agora sob sua própria batuta, mas sempre em parceria com o PT do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma, provedores dos recursos sem os quais não teriam conseguido tocar tantas obras.
Se Dilma era chamada de “Mãe do PAC”, o Programa de Aceleração do Crescimento do governo federal, Pezão era uma espécie de pai, pelo menos no Rio de Janeiro, quando foi, além de vice-governador, Secretário de Obras.
Esteve lado a lado com Lindberg Farias na campanha de Eduardo Paes, reeleito prefeito do Rio em 2012, e esperava contar com o apoio do senador petista para tentar a reeleição, o que não foi possível.
Está em vantagem na briga com Lindberg pelo apoio de Lula e Dilma. Sua relação com a presidenta já é quase um noivado,uma vez que ela tem vindo ao Rio com frequência e, todas às vezes que isso acontece, é sempre a seu lado, nunca com o companheiro de partido.