Médico gasta três minutos em exame e dez para convencer paciente a votar

Oftalmologista questionou voto de idosa de 89 anos. Episódio é exemplo do engajamento inédito dos médicos nas eleições

Por felipe.martins , felipe.martins

São Paulo - Arlette Fleury Teixeira, de 89 anos, entrou no consultório do seu oftalmologista, em Belo Horizonte (MG), para uma corriqueira consulta. Mas após três minutos de diagnóstico, a aposentada viu a sala em que estava se tornar um palanque político. Irritada e insatisfeita com a velocidade do atendimento, ela se encaminhava para deixar o consultório quando ouviu: “A senhora vai votar em quem, dona Arlette? Dilma ou Aécio?”. A pergunta deu início a um período de 10 minutos de argumentação. “Até avisei que já não voto há anos só para ele parar”, relata Arlette.

Com dificuldade na fala, a idosa, que já não é obrigada pela Justiça Eleitoral a ir às urnas por ter mais de 70 anos, define o encontro como “muito esquisito” e esclarece que nunca discutiu política com o médico em outras consultas. “Ele passava as letras tão depressa. Eu não tinha tempo para ler o que estava na minha frente”, reclama. O depoimento de Arlette, no entanto, é o exemplo claro do inédito engajamento da classe médica nas eleições presidenciais, em grande parte a favor do candidato do PSDB, Aécio Neves.

A aplicação do programa Mais Médicos%2C um dos pilares do governo Dilma Rousseff (PT)%2C é alvo de críticas de eleitores pró-Aécio (PSDB) Reprodução Facebook

As manifestações dos profissionais da saúde nas eleições eclodiram nas redes sociais. No Facebook, por exemplo, a velha polarização PT versus PSDB ganhou forma com a criação das páginas Médicos com Aécio e Médicos com Dilma, com 33 mil e 13 mil curtidas, respectivamente. A primeira chega a ser usada como vitrine com fotos de médicos e estudantes de medicina, que decoram os tradicionais jalecos brancos e roupas cirúrgicas com adesivos pró-tucano no ambiente de trabalho.

Trazer o assunto eleitoral aos corredores das clínicas e hospitais (públicos ou privados) pode gerar desconforto nos pacientes, que não necessariamente compartilham a posição política do médico, muito menos procuram um pronto-socorro com a intenção de debater as eleições presidenciais. A prática é defendida, no entanto, pela cardiologista C., fundadora da página Médicos com Aécio, que pediu para não ter o nome revelado por medo de perseguição eleitoral. Segundo ela, médicos são eleitores comuns e querem se manifestar.

“O pessoal está usando adesivos, bótons e faixas nas grandes cidades, onde o médico é um na multidão. O médico, o técnico de enfermagem, o fisioterapeuta é um cidadão, um eleitor normal. Ele vai usar [adesivos] aonde? Se for assim, uma pessoa que trabalha na biblioteca não poderia usar. O hospital é imaculado?", questiona C., que atua na rede do Sistema Único de Saúde (SUS) do Mato Grosso do Sul.

Questionada sobre o uso de material de campanha em salas de exames e cirúrgicas, como exibiram alguns profissionais nas redes sociais, C. aposta que os adesivos “provavelmente são retirados após as fotos”. Já o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Florentino Cardoso, classifica os registros como falsos. “Imagino que sejam montagens”. Para ele, os profissionais que querem se manifestar nessas eleições devem fazê-lo dentro dos limites das leis brasileiras. E minimiza ainda o que chama de uma conversa informal com um paciente e que "confia no julgamento do doutor".

"Se o doutor José está no consultório dele, que ele paga, pode decidir usar uma camiseta do Aécio Neves. Em períodos eleitorais, é muito comum os nossos pacientes perguntarem: 'doutor, o senhor vai votar em quem? ou 'doutor, eu voto em quem?'. Temos que respeitar a liberdade das pessoas”, justifica.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) foi procurado pelo iG para avaliar a postura dos médicos em campanha dentros de hospitais e clínicas. Mas o órgão não enviou um posicionamento até a publicação desta reportagem.

Mais Médicos e a revolta da categoria

O discurso é uníssono entre os médicos pró-Aécio ouvidos pelo reportagem: a aplicação do programa Mais Médicos, um dos pilares do governo Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, foi o estopim para despertar a revolta e o descontentamento da categoria. Com o objetivo de alocar médicos em regiões com carência desses profissionais para melhorar o atendimento básico, o programa gerou muita polêmica, especialmente pelo envolvimento de um grande contingente de médicos estrangeiros.

Desde que as regras do programa foram anunciadas, entidades médicas criticaram a eficiência dos exames de avaliação dos contratados. O Revalida, ao não ser aplicado a estes médicos, não comprovaria o conhecimento dos estrangeiros, segundo a AMB. Além do cenário conflituoso, uma declaração da presidente parece ter incendiado a relação com a comunidade médica.

Em abril deste ano, de acordo com reportagem de O Globo, Dilma explicou que os médicos cubanos são mais requisitados pelos prefeitos por serem “mais atenciosos que os brasileiros”. A fala gerou reação oficial do Conselho Federal de Medicina (CFM), que divulgou uma carta aberta considerando o episódio como uma “agressão direta e gratuita”.

Para Cardoso, presidente da AMB, o governo federal “tenta demonizar e responsabilizar” os médicos brasileiros pela qualidade da saúde pública, adotando ainda uma “política de agressividade e desconstrução da classe” com o Mais Médicos. A cardiologista e administradora da página Médicos com Aécio concorda com a AMB e aponta Dilma como responsável por 'criar uma lenda' de que médicos brasileiros são elitistas.

“Somos muito mal vistos pela população. O povo acreditou nessa lenda que foi criada de que médico é elitista, que só gostamos de atender os ricos, que não pensamos nos pobres e que não somos humanitários”, desabafa. E continua: “Vamos dizer que Deus me livre e guarde Aécio Neves perca. A perseguição da classe vai ser implacável.”

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