Romário voltou ao futebol brasileiro para jogar no Flamengo em 1995Reprodução

Fala, Galera! O tema do momento em nosso futebol é algo que tem muito a ver com a minha própria história como jogador: o repatriamento. A volta ao nosso país ainda em alto nível, quando existe futebol pra entregar e decidir jogo, fome de títulos e comprometimento dentro de campo.
Há 31 anos, em janeiro de 1995, eu era o melhor jogador do mundo, eleito pela FIFA, depois de trazer para o Brasil a taça de tetracampeão da Copa de 94, e jogava numa das camisas mais pesadas do planeta, a do Barcelona. Estava no auge. Mas não estava completamente feliz. Depois de seis anos e meio na Europa, sentia muito a falta da família, do convívio diário com os amigos, do clima, do sol e da praia do lugar onde nasci e pelo qual sou apaixonado, o Rio de Janeiro.
Foi aí que apareceu o Kleber Leite com uma proposta para jogar no Flamengo. No começo, os caras do Barça não botaram fé. Mas o Kleber foi raçudo e determinado, e eu também tinha decidido que queria voltar. O resto da história todo mundo já sabe.
Sinceramente, hoje em dia, acho quase impossível que role algo parecido, um time brasileiro repatriar o jogador que foi eleito o melhor do mundo daquela temporada. Mas os clubes mais estruturados do país, como Flamengo, Palmeiras e até mesmo o Cruzeiro, têm mostrado força para trazer de volta jogadores da seleção ainda no auge, e não mais em fim de carreira, como era comum até pouco tempo atrás.
O Palmeiras trouxe recentemente Vitor Roque, do Barcelona. O Cruzeiro repatriou Gerson, e o Flamengo parece estar perto de trazer sua cria, Paquetá. Todos eles com muita lenha para queimar e bem valorizados no mercado. Isso dá uma boa amostra dos reflexos do processo de modernização pelo qual vem passando o nosso futebol, com a chegada de novos investimentos e gestão mais profissional.
Não há dúvidas de que ainda somos um país basicamente formador. Ainda ocupamos o posto de maior exportador mundial de “pé-de-obra”, com o maior número de jogadores atuando no exterior. Essa condição vem se consolidando ano após ano, desde que a exploração comercial do jogo ganhou força e a realidade econômica do futebol, sobretudo da Europa, começou a se distanciar da nossa.
Ao mesmo tempo em que o futebol europeu se desenvolvia, o nosso patinava em desorganização e roubalheira. Os dirigentes amadores não tinham estabilidade nem expertise para gerar novas receitas e negociar bons contratos de televisão e exploração comercial. Isso tudo, aliado às próprias dificuldades econômicas do Brasil, acabou deixando o nosso futebol para trás.
Felizmente, ainda que aos poucos, começamos a recuperar o tempo perdido. Falta muito para avançar: não temos uma liga única e autônoma para gerir o nosso principal campeonato, e há muita interferência política nos bastidores da bola. Mas as reformas e os investimentos recentes nos dão a certeza de que finalmente estamos caminhando para frente, com mais organização, especialização e recursos.
Um bom exemplo disso é o Flamengo, que hoje figura entre os vinte clubes mais ricos do mundo, em receita anual. E não deve ser exceção. Queremos ver cada vez mais clubes brasileiros com força para manter nossos maiores talentos e também para atrair os melhores jogadores de fora. O futebol brasileiro tem tamanho, mercado e torcida de sobra para isso.