Rio - Uma querida amiga, torcedora bissexta e feminista, acredita ter descoberto o segredo de seu locutor favorito. Para ela, ao microfone, Galvão Bueno é mulher. Calma, não lanço aqui qualquer suspeita sobre a masculinidade do campeão de audiência que tanto nos emocionou ao narrar as vitórias de Ayrton Senna e conquistas da Seleção. A história é outra.
Para a amiga, Galvão sacou que o público dos jogos do Brasil é diferente do que segue campeonatos regionais e o Brasileirão. Nos dias de partidas da Seleção, sentam-se diante da TV pessoas que não têm a menor ideia de quem seja o lateral direito do Botafogo, do Flamengo ou do Barcelona. Alguns nem sabem o que é um lateral esquerdo. Neste grupo há muitas mulheres — não trato aqui, ressalto, das que acompanham futebol, capazes até de apontar um impedimento.
Visto com reservas pelos que preferem uma narração mais discreta e atenta a detalhes técnicos da partida, Galvão joga para uma plateia mais ampla e deixa aflorar o tal lado feminino, emotivo, que não se contém diante do menor perigo de gol. E tome de “Olha o que aconteceu!”, “Quem é que sobe?”, “É do Brasil!”. Gritos parecidos com os que escutamos ao assistir a um jogo numa reunião de família. Ele reage — me desculpem, moças — como muitas mulheres (e alguns homens também, admito).
Galvão não se preocupa muito em identificar jogadores do time adversário. Na partida contra Camarões, ficou um bom tempo sem se referir a nenhum dos atletas individualmente. Sabe que para a maioria do público não faz a menor diferença saber se aquele ali é o Nguemo ou o Moukandjo — em jogo do Brasil, são eles contra nós. Animador de um auditório virtual imenso, ele investe na emoção até para impedir que o público troque de canal ou deslique a TV. Assim, se a Seleção vai mal, age como um torcedor, e se antecipa às nossas queixas (“Ninguém sabe o que faz!”, “Ai complica!”). Como ele fala o que diríamos, acabamos ficando por lá mesmo. Enfim, homens ou mulheres, hoje é dia. Haja coração.