Rio - A eliminação do Brasil gerou a inevitável pergunta: para quem torcer hoje, afinal? A questão tem sido tema de intermináveis debates em bares, escolas, locais de trabalho e na internet. O fato de a Argentina ser uma das finalistas serviu para atiçar ainda mais a história. O engraçado é que a decisão de torcer por A ou por B — no caso, por A ou por A —, ganha uma importância semelhante a de um voto em eleição presidencial; quem manifesta preferência por um dos lados é obrigado a ouvir muitos argumentos contrários à sua opção.
Os que dizem não gostar dos nossos vizinhos são chamados de preconceituosos, acusados de falta de solidariedade com os povos da América Latina. Aqueles que afirmam preferir o time de Messi enfrentam a ira dos que não perdoam antigas manifestações racistas vindas da Argentina, a arrogância de sua torcida, a ironia cantada em versos que provocam os brasileiros.
Acima das razões de cada lado há a convicção de que o ato de torcer, mesmo se praticado fora do estádio, tem influência no resultado do jogo. É razoável supor que gritos e cânticos vindos da arquibancada possam estimular os jogadores, mas fica complicado admitir que gritar — diante de uma TV — em Realengo, Ipanema, Recife ou Manaus — algo como “Vai Higuaín!” ou “Pra cima deles Schweinsteiger!” — vai gerar algum efeito no Maracanã. Até porque vai ser difícil acertar a pronúncia do nome do alemão.
Torcer desse jeito, de longe, tem algo de religioso, de fé que remove obstáculos, que chuta para longe aquela bola que ameaça entrar no nosso gol, que faz o 10 argentino ser expulso aos 2 minutos do primeiro tempo. Acreditamos que a soma de nossos desejos — aquela história de energia, de força — será empacotada, pesada e enviada para aquele determinado grupo de 11 sujeitos que se esfalfa no gramado. O ato de torcer revela nosso desejo de controlar o imponderável e o inevitável, de alterar o rumo dos fatos. É também, no caso do jogo de hoje, uma tentativa de participar de uma festa em que fomos barrados.