Por douglas.nunes

O aperto monetário para frear o consumo e conter a inflação, ancorado na alta da taxa básica de juros, pode ser o motivo do movimento de inflexão nas linhas de inadimplência do crédito no país. Segundo especialistas, o efeito gradual do aumento da Selic, em ciclo de alta desde abril do ano passado, é uma das causas apontadas para explicar o repique verificado em março nos indicadores de atraso no pagamento de dívidas de 15 a 90 dias. Para eles, o mercado de trabalho aquecido é o que tem evitado males maiores à capacidade de pagamento dos tomadores.

Segundo dados do Banco Central (BC), na categoria crédito livre para a pessoa física, 6,8% das operações apresentavam atraso em março, contra 6,2% na medição feita no mês anterior. Entre as empresas, também houve deterioração no período; de 2,4% para 2,8%.

“Usando a linguagem do BC, a inadimplência está estável mas com viés de alta”, parafraseia Luiz Rabi, economista da Serasa Experian. Pela métrica usada no mercado, só é considerado inadimplente quem tem dívida em aberto há mais de 90 dias.

Para Luiz Rabi, há quatro variáveis que afetam claramente a inadimplência do consumidor: a taxa de juros, a inflação, o comprometimento da renda com pagamento de dívidas e o desemprego. “Nesse momento, as duas primeiras estão jogando contra a capacidade do tomador de honrar seus compromissos em dia”, contextualiza.

A Selic 3,75 pontos percentuais mais alta do que há um ano encarece o crédito, dificultando a contratação de novas dívidas para quitar passivos antigos, enquanto a inflação corrói o poder de pagamento dos salários. “A inadimplência ainda segue estabilizada porque o mercado de trabalho continua aquecido”, acredita Rabi. O economista da Serasa Experian conta, entretanto, que variações de curtíssimo prazo podem ser afetadas pela sazonalidade. Ele lembra que o mês de março, por fechar o primeiro trimestre, carrega parte de dívidas natalinas e de gastos com impostos e materiais escolares típicos do início de ano.

Com ele concorda Thiago Souza, analista do setor bancário da XP Investimentos. “Não dá para concluir muita coisa de uma avaliação mensal. Tem a questão da Selic, que influencia negativamente a capacidade de honrar compromissos, e a inflação. Mas vale acompanhar os próximos dados para ver se o atraso se transforma em inadimplência”.
Para Souza, a subida dos juros começa a afetar o consumo mais nitidamente. Isso pode afetar a taxa de desemprego nos próximos meses o que tem mantido a inadimplência controlada.

Apesar disso, o indício parece não preocupar os bancos, que vêm diminuindo suas provisões para o devedor duvidoso (PDD) nos últimos meses. No Santander, o recuo dessa conta ao fim de março foi de 30,4%, em comparação há um ano. O Bradesco, por sua vez, reservou 8% a menos para a provisão. Já o Itaú Unibanco destinava R$ 4,25 bilhões para essa linha no fim de março, volume 13,9% inferior do que há um ano. No mesmo período, a carteira total de crédito cresceu 11,4%. “Os bancos estão diminuindo a provisão por terem mudado o perfil da carteira de crédito para segmentos mais seguros. Tiraram o foco do financiamento de veículos, por exemplo, e migraram para o mobiliário”, conta Souza, da XP. No entendimento dele, a maior parte da redução das provisões já passou. “Se tiver variação nessa linha até o fim do ano, será algo marginal. Acredito que ficará estável até o fim do ano”.

Na divulgação dos resultados do Itaú, quarta-feira, o banco previu para os próximos trimestres uma pequena queda da inadimplência da sua carteira de crédito. A expansão latino-americana do banco deve ajudar nesse projeto. “Em comparação com o mundo, temos uma inadimplência bem alta. Em países como o Chile, por exemplo, o indicador chega a ser três vezes menor”.

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