Dólar e juro devem subir mais para conter inflação, dizem ex-dirigentes do BC

Em seminário sobre política monetária do FGV/IBRE, ex-dirigentes do Banco Central defendem que instituição reduza intervenções no câmbio

Por monica.lima

Ex-dirigentes do Banco Central defenderam ontem em seminário no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/IBRE), no Rio de Janeiro, que a política monetária do Brasil deve perseguir o centro da meta da inflação de 4,5% com mais depreciação cambial e aumento maior de juros para conter a demanda ainda alta. O seminário promovido pelo Centro de Estudos Monetários do IBRE/FGV analisou o ambiente macroeconômico global e as dificuldades que o Brasil enfrenta por andar na contramão, com aperto na política monetário, enquanto nas principais economias, o movimento é de flexibilização.

A conclusão dos especialistas presentes no seminário foi de que sair da crise econômica e reverter o cenário de estagflação, crescimento negativo, aperto monetário e descontrole fiscal, vai depender da capacidade do governo de resgatar algo que foi perdido ao longo do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff: credibilidade.

Para o ex-diretor do BC Sergio Werlang, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) tem uma postura reativa no controle da inflação. “Seja em virtude da composição do Copom, ou de governança, ou até mesmo por leniência, a maioria dos ciclos de aperto monetário têm início depois que a inflação já subiu”, disse

Para Werlang, embora o cenário traçado pelo BC, de levar a inflação à meta em 2016 seja “possível”, o mais provável é isso ocorrer em 2017. Segundo ele, como uma depreciação adicional do câmbio é esperada, para levar a inflação à meta de 4,5% será preciso conter a demanda por mais tempo. “Há um grande excesso de demanda”.

Também presente no seminário, o ex-presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore, disse que a depreciação do real não pode se dar apenas em relação ao dólar, mas também em relação aos seus pares, seus parceiros comerciais. “Numa situação como essa, você não pode usar a intervenção no mercado de câmbio para ajudar a chegar na meta. É preciso deixar o câmbio mais livre. Você pode usar a intervenção para conter a volatilidade, mas não pode impedir o real de alcançar um novo ponto de equilíbrio, que possibilite a redução do déficit em conta corrente”, afirmou.

Coube ao economista e chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV/IBRE, José Júlio Senna, situar o Brasil no cenário internacional, em que as principais economias ainda encontram dificuldades para retomar o crescimento.

“A recuperação é desequilibrada. Vem favorecendo os Estados Unidos e o Reino Unido, em certa medida. Isso leva investidores a buscar alternativas de investimento nesses países, o que pressiona para cima o dólar. E esse ciclo de alta da moeda norte-americana ainda vai perdurar por um bom tempo, pois fundamentos que sustentam esse fenômeno são sólidos e apontam para o longo prazo”, afirma Senna. Segundo ele, o dólar fortalecido tem efeito negativo para o Brasil, ao contribuir diretamente para a deterioração dos preços dos produtos da pauta de exportação brasileira. “Se o dólar continua se fortalecendo lá fora, e a China não recuperar o fôlego perdido, o que é muito provável, continuaremos a ver perdas significativas nos preços de nossas commodities”. Por isso, o caminho do comércio internacional como saída para a crise é muito difícil”.

No âmbito interno, Senna ressalta a necessidade de o Banco Central se preocupar não apenas com a meta, mas com a composição da inflação. “A responsabilidade do BC é redobrada. É preciso mudar a relação entre os preços transacionáveis e não transacionáveis para corrigir o balanço de pagamentos. Também é preciso uma depreciação ainda maior do real, o que exige uma mudança relevante na política de swap cambial”.

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