Por monica.lima

De fevereiro até sexta-feira, o dólar caiu 6,34%. A moeda fechou janeiro cotada a R$ 2,4124 e, na sexta-feira, desceu a R$ 2,2594. Faltando um dia para terminar o mês, o dólar acumula em março uma desvalorização de 3,65%. O mergulho não pode ser atribuído a especulações de "vendidos". As causas são outras. A principal razão para a derrocada foi a virada na percepção do risco embutido em moedas e títulos de emergentes ocorrida no início de fevereiro. No final de janeiro, a Turquia promoveu um choque de juros e a Índia elevou a sua taxa básica. No Brasil, foi reafirmada a garantia de prosseguimento do aperto monetário.

As desconfianças dos investidores globais foram atenuadas. E passou a prevalecer o entendimento de que a condução da política monetária americana não seria alterada sob o comando de Janet Yellen. Iniciou-se uma nova etapa de busca de rentabilidade em países emergentes. O Brasil, sobretudo depois de firmado no dia 20 de fevereiro um compromisso fiscal tido como sério, foi eleito o principal destino dos recursos de portfólio. Sobretudo porque, seis dias depois do anúncio do esforço fiscal, o Copom do Banco Central subiu a Selic de 10,5% para 10,75%, e indicou que faria mais uma alta do mesmo tamanho no seu encontro seguinte, no dia 2 de abril, a próxima quarta-feira. O mercado acha em peso que vai cumprir a promessa.

Foi o suficiente para o mercado internacional passar a ver o país com outros olhos. Se o Brasil garante um superávit das contas públicas capaz de estabilizar a dívida pública como proporção do PIB, o que significa manter no mesmo lugar e sob controle o risco de se comprar ativos do país, e, ao mesmo tempo, paga um juro real de 5%, não há razão para medo. É o que basta.

Os famosos "fundamentos" em deterioração e rebaixamentos de rating não obscurecem o chamariz representado pelo juro alto e a estabilização da dívida. Os números sobre o fluxo cambial comprovam a preferência pelo Brasil. Em março, até o dia 21, a balança cambial mostra um superávit de US$ 5,47 bilhões. Os investidores estrangeiros postados na ponta de "compra" em contratos de derivativos cambiais negociados na BM&F perceberam a virada, mas demoraram um pouco para sair da posição. Os investidores externos utilizam o pregão de DDI (cupom cambial) como proteção cambial de suas posições.

Nele é possível auferir uma taxa de juro em dólar. O volume de contratos líquidos em DDI pouco muda. Está há muito tempo estabilizado em cerca de US$ 16 bilhões. E usam o pregão de dólar futuro da BM&F para as apostas unidirecionais, a favor do dólar e contra o real. E estas vem caindo pesadamente. Do recorde de US$ 14,68 estabelecido no dia 4 de fevereiro recuaram para US$ 7,05 bilhões na última quinta-feira.

Como o dólar cai no mercado à vista por causa da abundante oferta de moeda vinda de captações de empresas e de aplicações financeiras externas, os "comprados" em dólar futuro são obrigados a reverter a posição, sob pena de amargarem prejuízos diários. Não se pode atribuir a desvalorização da moeda a especulações tecidas pelos "vendidos" em dólar futuro, os bancos nacionais. Estes sempre fazem a contraparte financeira das posições assumidas por investidores estrangeiros e fundos nacionais.

O volume de contratos líquidos dos bancos se movimenta em função do posicionamento da outra parte. Se as posições "compradas" de estrangeiros e fundos crescem, aumenta na mesma medida as "vendidas" dos bancos. E vice-versa. Quem dita o ritmo dos mercados de derivativos cambiais não são os bancos.

Eles não fazem isso porque são bonzinhos. Se há alguém que quer ficar "comprado" necessariamente precisará existir alguém capaz de ficar "vendido", caso contrário não tem pregão. Os bancos ficam "vendidos" não porque acreditam que o dólar irá cair. Assumem a posição porque são pagos para isso. Exigem para tanto o pagamento de taxas robustas. Trata-se de uma engenharia financeira que anula a variação cambial.

Tanto faz para os bancos se o dólar está subindo ou caindo, pois da mesma forma que estão "vendidos" à vista e no "futuro" estão "comprados" em swaps cambiais colocados pelo BC. Os bancos nacionais são os maiores detentores desse instrumento de hedge vendido pelo BC. Em março, vão ganhar com suas posições vendidas em dólar futuro, mas vão perder nos swaps. Uma coisa zera a outra. Mas o juro cobrado na operação permanece intacto, e esse é o objetivo. É um contrassenso afirmar-se que os bancos estão forçando a queda do dólar no mercado à vista para aumentar seus lucros no mercado futuro de dólar da BM&F. Se fizerem isso, estarão aumentando, na mesma proporção, seus prejuízos em swaps cambiais.

Da mesma maneira, não se pode argumentar que o dólar está caindo porque os bancos carregam posições "vendidas" à vista no montante de US$ 13,1 bilhões. Estariam interessados em derrubar a cotação para comprar a moeda mais barato e saldar sua dívida. A alegação não resiste ao raciocínio básico de que se as instituições estivessem na ponta de compra a moeda não estaria caindo. De uma forma ou de outra, a "especulação" não teria efeito.

Essas posições "vendidas" à vista não são apostas direcionais de alta ou baixa do dólar. Como o BC não vende dólares físicos das reservas, alguém precisa abastecer o mercado. Quem faz isso são os bancos. Quando falta dólar, a posição "vendida" sobe, quando sobra, ela cai. Em dezembro, como o mercado global nutria ojeriza a ativos de emergentes, faltava moeda na praça para atender a importadores e multinacionais desejosas em remeter lucros e dividendos. E os bancos foram obrigados a elevar as posições "vendidas" a US$ 18,12 bilhões. No fim de fevereiro, a posição teve de ser elevada a US$ 18,6 bilhões. E, este mês, por causa do fluxo fortemente positivo, puderam ser reduzidas para US$ 13,13 bilhões.

Também aqui, ganham um juro gordo para fazer, sob a supervisão e normas rígidas do BC, a calibragem fina da liquidez cambial. Não procede também a suspeita de que o dólar, ao invés de estar cedendo, deveria estar subindo porque há um desequilíbrio estrutural de US$ 13,13 bilhões na balança cambial do ano. Isso é passado, e será liquidado no seu devido tempo, com lucro para os bancos. O dólar cai unicamente pela boa razão de que o fluxo presente é pesadamente superavitário.

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