Dólar sobe 1%. Acabou o namoro?

Ao menor sinal de fumaça no cenário global, os investidores mais paranoicos saem correndo em busca da saída

Por bruno.dutra

Pode nem ser um princípio de incêndio, pode ser uma fumacinha que saiu da cozinha, mas eles não esperam para ver. A função exercida pelos assustadiços é essencial ao funcionamento dos mercados: a fuga deles permite a entrada dos que estavam na fila só olhando a festa de longe. Houve ontem venda importante e generalizada de moedas de países emergentes e compra de dólar. Dentre elas, o real puxou a lista das mais desvalorizadas. O dólar fechou cotado a R$ 2,2385, em valorização de 1,07%.

As fumaças vieram de três fogos de chão: um arremedo de repique da inflação americana; expectativa de números ruins sobre o crescimento chinês; e aumento da tensão na Ucrânia. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês, o correspondente americano ao nosso IPCA) subiu 0,2% em março, acima das expectativas. Dobrou a velocidade de alta, já que tinha avançando 0,1% tanto em janeiro quanto em fevereiro. Ou seja, estava quase parado e começou a se locomover a passo de tartaruga. Em doze meses, o CPI acumula 1,5%. Estaria em tese ainda distante da meta de inflação do Federal Reserve (Fed), de 2%.

O problema é que o Fed não olha para o CPI pleno, olha para o núcleo do indicador, expurgado de energia e alimentos. E o core em 12 meses sobe 1,7%. Já está, portanto, bem mais perto do objetivo. Mas a expectativa dos analistas americanos é de que o Fed só pensará em subir a taxa básica de juros quando estiver numa faixa entre 2,2% e 2,4%, dependendo de quanto o mercado de trabalho estiver sancionando esta alta da inflação. Ainda não há risco de inflação nos EUA. Depois do CPI, “a percepção é de menos risco de deflação”, nas palavras do economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

O impacto do CPI mais elevado foi parcialmente neutralizado pela frustração com um dado sobre atividade industrial. O índice Empire State da indústria de Nova York recuou de 5,61 pontos em março para 1,29 ponto em abril quando os especialistas previam alta para 8 pontos. A instituição que errou redondamente nessa previsão e saiu vendendo “treasuries” e encontrou paranoicos em fuga de emergentes dispostos a comprá-las. E o rendimento do papel de 10 anos acabou caindo de 2,65% para 2,62%.

As moedas que mais sofreram ontem foram as dos países exportadores de commodities para a China: Brasil, Chile, Austrália e Canadá. Dos três focos de calor que provocaram a escalada global do dólar foi o chinês o mais abrasivo. Horas antes de o governo divulgar, na passagem da noite para a madrugada no horário brasileiro, informações sobre o desempenho do PIB no primeiro trimestre, produção industrial e vendas no varejo relativas a março, o capital arredio estava prevendo a confirmação do declínio chinês tantas vezes já profetizado. Para aumentar o clima de terror, o banco central chinês diminuiu a liquidez do sistema bancário, indicando uma menor propensão do governo de tomar medidas compensatórias à desaceleração da economia.

O retorno da tensão na Ucrânia forneceu sua parcela de contribuição para a valorização do dólar. Kiev parece estar reagindo a lenta ocupação do país por militantes pró-Moscou, supostamente financiados pelo governo russo. Para combater a invasão branca, criou uma “operação antiterrorista” destinada a retomar prédios públicos conquistados pelos simpatizantes de Putin. Mas o teatro ucraniano precisa piorar muito para fazer preço no mercado global de câmbio.

Acabou o namoro do capital estrangeiro especulativo com o Brasil? Ainda é cedo para se dizer. Mas certamente o preço correto do dólar não são os R$ 2,1975 do dia 9 deste mês, o piso recente. Mas também não são os R$ 2,4371 de 3 de fevereiro, auge da crise de confiança pela qual passaram as economias emergentes.

Para ajudar no esforço anti-inflação do BC, melhor seria se o dólar ficasse mais perto de R$ 2,20 do que de R$ 2,30. Mas o mercado suspeita que a moeda teria de ir muito além de R$ 2,30 para o BC alterar seus planos de encerramento imediato do ciclo de alta da Selic. Dados não muito auspiciosos sobre o comportamento do comércio varejista brasileiro em fevereiro ajudaram a evitar o repasse da valorização do dólar para os juros futuros. As vendas cresceram apenas 0,2%, abaixo da mediana das expectativas, de 0,3%. E a perspectiva geral é de novas desacelerações.

“A expansão da massa salarial real tende a continuar beneficiando o consumo, mas o crescimento deve continuar mais moderado que em anos anteriores. Os juros em alta e o recuo na confiança do consumidor são outros fatores que contribuem para um desempenho mais moderado das vendas no varejo e do consumo”, diz Luka Barbosa, economista do Itaú.

Como os indícios são de perda de fôlego da economia brasileira, o DI futuro se sentiu desconfortável em prosseguir na rota altista dos juros. As taxas dos contratos futuros, quando se movimentaram, foram para baixo. A taxa para a virada do ano recuou de 11,08% para 11,07%. E a do contrato com vencimento em janeiro de 2017 permaneceu estável em 12,46%.

Se o pregão vier a depender hoje exclusivamente dos indicadores domésticos, também não será dia propício a altas. A segunda prévia do IGP-M deve confirmar o caráter transitório do choque de alimentos. E o IBC-Br de fevereiro, proxy do comportamento do PIB calculado pelo BC, deve confirmar um crescimento modesto.

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