Por marta.valim

Apartados dos fundamentos da economia brasileira, os mercados de câmbio e juros se locomovem quase exclusivamente em função das expectativas e resultados das pesquisas eleitorais e do comportamento do mercado secundário de títulos do Tesouro americano. E os dois fatores condicionantes se mostram muito instáveis, sujeitos a dúbias interpretações. Mas, por enquanto, apontam na mesma direção, a da baixa do dólar e dos juros futuros. O dólar abriu maio exibindo a mesma fragilidade com que fechou abril. Depois de ter se desvalorizado 1,74% no mês passado, caiu 0,48% na sexta-feira, cotado a R$ 2,2193.

O mercado futuro de juros da BM&F, na volta do feriado do 1° de maio, não conseguiu juntar forças próprias para contrariar a tendência de queda imposta pelas treasuries e pelo dólar. Se tivesse autorização dos seus dois mercados de referência poderia, em alta, exibir toda a sua contrariedade com o discurso fortemente desenvolvimentista proferido por Dilma Rousseff na noite de quarta-feira. Se, num segundo mandato, a presidente seguir a linha econômica defendida no pronunciamento, o sonho de um governo “mercadista” a partir de 2015 pode ser engavetado.

Foi por isso que o mercado redobrou na sexta-feira a fé no declínio da candidatura oficial e no crescimento da do senador Aécio Neves. A comemoração antecipada de uma pesquisa Sensus/Isto É intensificou o viés primário vindo do dólar. Nesta semana, outra corrida antecipatória será deflagrada em função de pesquisa de intenção de voto que será feita pelo Datafolha. A taxa do contrato negociado para janeiro de 2017 cedeu de 12,26% para 12,16%.
Esta semana, além da pesquisa Datafolha, o pregão de DI futuro prestará atenção ao IPCA fechado de abril, a ser divulgado na sexta-feira. A previsão é de queda do 0,92% de março para algo próximo de 0,80%. A pressão dos alimentos foi menos intensa. Uma taxa abaixo de 0,80% irá consolidar de vez a expectativa de manutenção da Selic em 11% na reunião do Copom do dia 28.

O mercado de câmbio experimentará esta semana uma incerteza própria e doméstica. O Banco Central deve enviar sinais de suas intenções acerca da rolagem dos swaps cambiais que irão vencer no começo de junho. O volume, de US$ 9,653 bilhões, não é pequeno. Se mantiver a mesma disposição de março e abril — a não renovação de 25% do montante a vencer — a influência sobre a taxa de câmbio pode ser neutra.

De todos os fatores condicionantes o que vem se mostrando menos previsível é o comportamento do mercado de títulos do Tesouro dos EUA. O maior pregão do mundo enlouqueceu na sexta-feira. A intensa ciclotimia dos dias anteriores — estampada na oscilação do rendimento da T-Note de 10 anos, que tombou de 2,71% no dia 29 para 2,62% no dia 1° pela frustração trazida pelo desempenho do PIB no primeiro trimestre — se intensificou com a divulgação do relatório oficial de emprego relativo a abril.

Nos primeiros minutos após a veiculação de um “payroll” que parecia excepcionalmente positivo, a taxa deu um salto para 2,70%. Poucas horas depois, os analistas se convenceram de que os dados não eram assim tão vistosos, e o papel de 10 anos inverteu a mão e literalmente despencou, para 2,5730%. Em questão de horas, o mercado saiu do purgatório, ascendeu ao céu para, logo em seguida, lançar-se ao inferno. A insanidade do secundário de treasuries é preocupante porque se trata do principal mercado de referência dos segmentos brasileiros de câmbio e juros futuros.

Uma análise menos apaixonada do relatório de emprego mostra que não havia razão para tanta piração. Os números em si de fato foram muito bons. Foram gerados em abril 288 mil novos empregos nos EUA, superando largamente a previsão (218 mil) dos especialistas, e a taxa de desemprego cedeu de 6,7% para 6,3%, também melhor que o prognóstico de 6,6%. Está certo que o desemprego diminuiu porque, desanimadas, menos pessoas procuraram trabalho no mês passado. Tecnicamente, a queda registrada pela PEA (população economicamente ativa) foi maior que a redução da PO (população ocupada). Mas, inegavelmente, quem procurou emprego encontrou 288 mil novas vagas.

Não, a economia dos EUA não está bombando, mas também já saiu faz tempo do fundo do poço. Nada justifica uma T-Note abaixo de 2,60%. Só justificaria se houvesse uma letal aversão global a ativos de emergente, capaz de carrear montanha de capital para os títulos americanos. Não é o caso, mesmo na presença do temor de que a crise ucraniana se transforme em guerra civil. Se houvesse uma aversão desse tamanho, as moedas emergentes teriam naufragado em bloco. Pelo contrário, quem caiu foi o dólar.

Caiu porque o “payroll” não alterou a impressão geral de que o Federal Reserve (Fed) não tem como acelerar o desmonte do seu programa de socorro à liquidez em meio a um conjunto avassalador de indicadores contraditórios. Diante dele, a sua clássica avaliação de que a economia segue entre “modesta e moderada” pode até ser considerada bondosa demais. Um dia antes do “payroll”, saiu o índice de inflação mais observada pelo Fed quando toma suas decisões de política monetária, o PCE, o índice de gastos de consumo pessoal dos americanos. E o PCE de março subiu apenas 0,2%, acumulando em doze meses alta de 1,1%.

Ou seja, o índice está na metade do caminho entre a deflação indesejada a ser combativa com mais estímulos monetários e a inflação desejada de 2%, a que deslancharia planos mais palpáveis de um futuro aperto de juros. Não há nenhuma garantia por enquanto de que o PCE andará na direção querida. Mas também não é o caso de se rifar a rentabilidade da T-Note.

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