Já em ritmo de Copa

Na véspera do início da Copa do Mundo, já houve ontem um informal miniferiado no mercado financeiro

Por bruno.dutra

Os volumes de negócios foram muito baixos nos segmentos de dólar e juros futuros. O mercado de câmbio não conseguiu girar mais do que US$ 900 milhões, quando, em dias normais, o montante oscila entre US$ 1,5 bilhão e US$ 2 bilhões. Com o feriado paulistano de hoje e consequente fechamento da BM&FBovespa, o movimento em outras praças, restrito ao período matutino, tende a ser irrisório. Até por causa do feriado, investidores tentaram ontem, comprando dólar, se proteger do risco de haver hoje alguma surpresa negativa nos mercados globais. Depois de passar a manhã inteira em baixa, o dólar tomou uma direção ascendente à tarde e fechou com valorização de 0,26%, cotado a R$ 2,2340.

A interrupção ontem de uma sequência de quatro quedas não representa uma inversão da rota primária do dólar. Amanhã, se nada mudar lá fora, o viés será retomado em função do fluxo positivo e das intervenções do Banco Central. Na semana passada, foi imediata a resposta dos investidores e das empresas ao anúncio do megapacote de estímulo à liquidez do Banco Central Europeu (BCE) e à decisão do Ministério da Fazenda de reduzir a zero o IOF cobrado nas captações externas com prazo de até um ano: o fluxo de entrada de dólares no Brasil no período de 2 a 6 de junho registrou superávit líquido de US$ 2,11 bilhões. O aporte de capitais financeiros, de US$ 2,5 bilhões, neutralizou a saída de US$ 391 milhões pela conta comercial. Apenas nos cinco primeiros dias do mês, o fluxo absorveu com sobras o saldo negativo de US$ 813 milhões registrado no acumulado de maio.

A situação de caixa em dólares dos bancos aliviou-se consideravelmente. Um dos objetivos da zeragem do IOF era facilitar a tomada pelos bancos de linhas externas destinadas a abastecer de dólares o mercado local, já que o BC, por princípio filosófico e salvaguarda técnica, não vende de jeito nenhum moeda estocada nas reservas. As instituições fecharam maio com posições vendidas à vista de US$ 14,342 bilhões e logo na primeira semana de junho já puderam reduzi-las para US$ 12,23 bilhões. Trata-se da posição mais baixa desde os US$ 9,58 bilhões do final de novembro.

A diminuição do endividamento externo dos bancos fornece um conforto adicional ao BC na hipótese de irromper de fora algum choque que desencadeie disparada do dólar. Os bancos têm agora mais espaço em suas carteiras para a tomada de recursos no exterior e hoje em condições bem favorecidas graças ao ciclo de distensão monetária global inaugurado pelo BCE. Estão agora bem distantes do recorde de US$ 18,6 bilhões em posições vendidas em dólar estabelecido na crise de aversão global a risco de fevereiro.

Desse ciclo de afrouxamento monetário global também se aproveitam empresas brasileiras para captar moeda estrangeira. De segunda-feira até ontem, acessaram o mercado global o Grupo Virgolino de Oliveira (emissão de bônus de US$ 135 milhões), frigorífico Marfrig (US$ 850 milhões), Odebrecht Óleo e Gás (US$ 400 milhões) e Banco do Brasil (US$ 2,5 bilhões). JBS e Votorantim Participações estão em fase de preparação de lançamentos.

De janeiro a junho — período que coincide com a retirada pelo Federal Reserve (FED) de incentivos à liquidez no montante de US$ 40 bilhões — houve uma sobra de US$ 6,14 bilhões no Brasil. Apesar de todo o pessimismo doméstico sobre os rumos da economia, entrou muito mais dólares aqui do que saiu.

Os mercados de câmbio e juros não se escoram na cena eleitoral para promover agitações. O efeito das mais recentes pesquisas de intenção de voto às eleições presidenciais sobre o ânimo dos investidores é tênue. A corrida sucessória começará mesmo depois da Copa, propriamente em agosto, com o início do horário eleitoral gratuito nas tevês. Até agora, as pesquisas são pouco conclusivas. E apostas sobre o que cada um dos candidatos irá fazer em caso de vitória são temerárias. Sobretudo em relação aos dois preços fundamentais da economia, taxa de câmbio e juro.

As duas pesquisadas divulgadas entre a noite de terça-feira e a manhã de quarta mostraram resultados muitas vezes contraditórios. Enquanto para o Ibope a opção por Dilma Rousseff encolheu dois pontos, de 40% para 38%, pelo Vox Populi a candidata sustentou a fatia de 40%. O principal opositor, Aécio Neves, cresceu nas duas sondagens, dois pontos na primeira, cinco na segunda. Mas não se trata de um avanço avassalador nem irreversível. Há no mercado hoje muita torcida e pouca convicção.

Os contratos futuros de juros negociados na BM&F perderam ontem o seu principal motivador para movimentos de altas. As taxas de 10 anos dos títulos do Tesouro americano recuaram de 2,65% para 2,64%. O ataque de sinceridade do secretário do Tesouro, Jacob Lew — para quem milhões de americanos continuam na batalha uma vez que o desemprego é muito alto e o crescimento econômico muito lento — foi acolhido respeitosamente pelos analistas, enquanto rechaçavam como pouco técnica a previsão da agência S&P de que a taxa básica de juros dos EUA começará a subir ainda no primeiro trimestre de 2015.

Internamente também não há justificativas para elevações de juros. Dados sobre a apatia econômica se sucedem (ontem foram divulgados indicadores ruins sobre venda de motocicletas, produção de cimento e circulação de veículos pesados). O IBGE confirmou o mau momento da indústria ao constatar uma queda de 0,3% nos empregos oferecidos pelo setor em abril. Das 14 regiões pesquisadas, em 11 ocorreu redução das horas pagas. Tanto a ponta curta quanto a longa dos contratos futuros, caíram no pregão da BM&F. O contrato para a virada do ano cedeu de 10,82% para 10,81%, enquanto a taxa para janeiro de 2017 recuou de 11,56% para 11,54%.

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