Mais especulação do que medo

O dólar subiu ontem 1,24%, cotado a R$ 2,2699, acumulando em julho valorização de 2,71%

Por bruno.dutra

A disparada se deveu a um conjunto de fatores, todos sem muita consistência. A componente especulativa teve peso preponderante: ontem, no último dia do mês, o vencimento dos contratos de derivativos cambiais na BM&F coincidiu com o resgate pelo Banco Central de US$ 2,81 bilhões em swaps cambiais. A puxada só se tornou plausível e justificável porque balanços ruins de empresas europeias e americanas desencadearam uma rodada de realizações mal-humoradas nas bolsas globais.

Mas no mercado que de fato interessa, o secundário de títulos do Tesouro americano, tudo tranquilo. A taxa da T-Note de 10 anos subiu levemente de 2,56% para 2,57%, ou seja, nem arrancou por medo de um atropelo súbito dos planos monetários do Federal Reserve (Fed), nem despencou por excesso de demanda denunciadora de uma aversão a risco.

Houve um ambiente vagamente propício para que os “comprados” (fundos estrangeiros) em cupom cambial e dólar futuro manobrassem o preço à vista de forma a favorecer os contratos futuros. A argumentação na qual se escoraram carece de firmeza. Os analistas acreditam que o comunicado pós-Fomc de quarta-feira sugeriu uma mudança na visão da autoridade, que, se ainda não pode ser chamada de “mais hawkish”, pelo menos pode ser definida como “menos dovish”. E os players contam com novos números positivos sobre o mercado de trabalho – possivelmente hoje, com a divulgação do “payroll”, o relatório oficial de emprego referente a julho – para consolidar a guinada do Fomc. Mas ainda é uma torcida.

O clima para um esticão de fim de mês do dólar também se mostrava favorável por causa da decisão do BC de negar hedge no valor de US$ 2,81 bilhões este mês. Dos US$ 9,457 bilhões em swaps cambiais que vencem hoje, ele rolou para frente US$ 6,65 bilhões, ou seja, deixou de renovar 29,7% do lote. Equivale a dizer que, ao fazer uma compra de US$ 2,81 bilhões no mercado futuro, retirou proteção cambial a quem estava coberto. Os investidores agora desprotegidos terão de buscar esse montante em outro lugar.

Afinal, ninguém quer ficar descoberto nesse momento de estranheza geopolítica, incerteza americana e atrito argentino com a banda mais sangrenta dos predadores globais. O Brasil só é afetado pela moratória argentina pelo lado comercial, o que não é pouco, dada a importância do mercado de lá para as nossas exportações. O contágio é direto, via balança comercial, e não por restrição do acesso brasileiro ao mercado global.

Mas o fato é que, praticamente desde o inicio do mês, todo mundo sabia que o BC iria em julho diminuir a oferta de hedge. Iniciou julho vendendo 7 mil contratos por dia de swaps destinados a repor os que serão resgatados hoje. Feitas as contas dos dias úteis do mês, ficariam de fora US$ 2,81 bilhões, ou seja, o BC deu tempo de sobra para a busca de outras opções de hedge mais baratas. Quem esperou até o último dia útil do mês teve de pagar mais caro.

Essa aparente falta de instrumento de proteção pode ser suprida facilmente em agosto. Basta o BC sinalizar a intenção de renovar todos os US$ 10,07 bilhões em swaps que vencerão em 1° de setembro. Se, mesmo assim, o mercado de câmbio persistir assanhado o BC pode voltar a leiloar as linhas de crédito em dólar com compromisso de recompra. Ontem, já deu sinais de alteração de sua postura em relação a essas linhas. Ele vinha todo mês esterilizando aos poucos o estoque de US$ 16,99 bilhões. Restavam nos bancos apenas US$ 2,25 bilhões, e ontem, em dois leilões, aceitou propostas de rolagem. O caminho agora é voltar a oferecer novos empréstimos.

O pregão de juros futuros da BM&F tentou acompanhar o quanto pôde a corrida do dólar, mas não teve fôlego suficiente. A taxa para janeiro de 2016, depois de avançar até 11,21%, fechou a 11,15%, levemente acima dos 11,13% do encerramento anterior. O contrato para janeiro de 2017 subiu de 11,42% para 11,49%, sem ímpeto para sustentar a máxima de 11,55%.

Para fomentar a agitação especulativa do câmbio e dos juros, brotaram em algumas mesas o comentário de que, diante da situação das contas públicas exposta ontem pelo BC, alguma agência de rating poderia não respeitar a trégua pré-eleitoral e já rebaixar a nota brasileira. Depois de amargar em maio o pior resultado da história – déficit de R$ 11 bilhões – o setor público consolidado mostrou em junho a pior performance da série para meses de junho, com déficit de R$ 2,1 bilhões. No acumulado de 12 meses, o superávit primário como proporção do PIB caiu de 1,52% em maio para 1,36% em junho.

Para os especialistas, está patente que o governo só cumprirá a meta de superávit primário para o ano, equivalente a 1,9% do PIB, se fizer uso mais uma vez da “contabilidade criativa”, um procedimento que irrita mais o mercado do que a pura e confessa redução do saldo. Para as classificadoras e o mercado em geral, isso não satisfaz. Do ponto de vista da solvência da dívida brasileira tanto faz se o alvo for alcançado ou por corte de gastos públicos, já que é impossível aumentar a arrecadação dada a debilidade da economia, ou por meio de expedientes mágicos. De uma forma ou de outra, a relação entre a dívida pública e o PIB estaria estabilizada na faixa entre 58% e 59%, ou seja, não cresceria o risco de o governo aplicar uma moratória. Mas do outro ponto de vista, o macroeconômico, faz toda a diferença.

Uma coisa é trilhar o caminho da austeridade. Outra bem distinta é o recurso ao malabarismo contábil. Os dados do BC mostram que a política fiscal é hoje inequivocamente expansionista. A velha metáfora segundo a qual enquanto o BC freia o carro com um pé o governo aperta o acelerador com o outro, e o resultado é que o veículo se desgasta mas não sai do lugar, foi ressuscitada ontem. A política fiscal mina os esforços anti-inflacionários do BC. Este tem de perpetuar a Selic num nível produtivamente nefasto porque a ordem no governo é queimar lenha e ganhar a eleição. A contradição é que a política monetária contracionista depaupera as finanças públicas ao expandir o dispêndio do Tesouro com os títulos da dívida. E as classificadoras globais não observam apenas o critério da solvência.

Quando convém, a visão se desloca para as decisões capazes de desorganizar a economia no médio e longo prazo. As três agências mais conceituadas mantêm perspectivas estáveis para a nota brasileira, com a Standard and Poor’s conservando o Brasil um degrau abaixo daquele reservado pela Moody’s e Fitch. O governo quer que permaneçam quietas até 26 de outubro. Qualquer manifestação de desagrado sobretudo depois do início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, em 19 de agosto, irá inflamar ainda mais as campanhas.

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