Falha carta ao povo dos pregões

A política de ultra-arrocho monetário do Banco Central cumpre a função de carta de boas intenções de Dilma Rousseff ao mercado financeiro

Por bruno.dutra

Diante do afundamento do PIB, não há nenhum sentido em manter a Selic em 11%, a não ser o de continuar tentando conquistar a benevolência dos pregões. Não precisa mais fazer isso porque o mercado está amplamente “marinado”. As cem instituições que participam do Focus reduziram ontem suas projeções de expansão do PIB este ano de 0,70% para 0,52%.

Foi a 14° baixa consecutiva. Ainda não é o fundo do poço. A economia roda perto de zero e o BC insiste em pagar o maior juro real do mundo. A política monetária de brutal encarecimento do custo do dinheiro solapa o dia-a-dia das empresas, arrebenta as contas públicas e tem efeito mínimo na desinflação da economia, enquanto amplia os ganhos de instituições, investidores nacionais e especuladores internacionais. Em vão.

Em sua reunião de amanhã, não há, porém, nenhuma chance (muito menos risco) de o Copom, exercendo a sua autonomia operacional, reduzir a Selic. Foi-se o tempo em que a atual gestão surpreendia o mercado. A última decisão tomada em sentido contrário ao desejo dos investidores foi a do Copom de 31 de agosto de 2011. A Selic vinha subindo uma escada íngreme deste abril de 2010, quando o BC elevou a taxa de 8,75% para 9,5%. Ao longo de oito reuniões, o juro chegou a 12,50% em julho de 2011, e o mercado apostava em continuidade do ciclo de alta em agosto. Mas o BC, sem aviso prévio, baixou a Selic para 12%, iniciando um ciclo de queda que só viria a se encerrar em outubro de 2012, quando a taxa bateu nos históricos 7,25%.

A decisão intempestiva de reduzir o custo primário do dinheiro, à revelia dos clamores do mercado, decorreu da percepção de que o mundo estava à beira de uma recessão. A inflação brasileira cederia porque as exportações cairiam ampliando a oferta de produtos ao mercado interno. E o BC não precisaria manter o juro alto para atrair especuladores globais porque a recessão mundial empurraria liquidez para o Brasil. O quadro de agosto de 2011 é muito semelhante ao atual. Com uma diferença significativa: naquela época, o PIB brasileiro estava rodando a 2,7%.

Mesmo sendo a maior economia do mundo, os EUA são uma andorinha que não faz verão. Ainda que o PIB americano consiga fechar o ano com expansão de 3%, a inflação tende a persistir abaixo da meta de 2% do Federal Reserve (Fed). A razão é que, quanto mais os EUA se recuperam, mais o mercado americano é inundado por mercadorias e bens de todas as partes do planeta. Está todo mundo tentando vender nos EUA para minorar suas recessões. O choque de oferta positivo e a ampliação da concorrência amortecem a inflação americana. Como as recessões aumentam o risco das várias economias e como são, ao contrário do que ocorre no Brasil, combatidas por juros perto de zero, cresce a migração de capitais para os títulos do Tesouro americano. Essa abundante oferta de investimentos produtivos e de portfólio derruba os juros longos. E o Fed não tem como subir o juro curto em face desse movimento e também não tem justificativa se a inflação está anestesiada.

A Europa não consegue sair do atoleiro da estagnação em que foi colocada pelas políticas suicidas de austeridade fiscal. Os dados mais recentes vindos da zona do euro mostram que são urgentes providências do Banco Central Europeu (BCE) destinadas a alargar a liquidez. O índice geral PMI da indústria de transformação caiu de 51,8 pontos em julho para 50,7 em agosto. A principal defensora da eutanásia fiscal, a Alemanha, já experimenta os efeitos colaterais da injeção letal que impõe aos outros países da área. Como minou a capacidade de compra dos seus clientes, o seu PMI recuou de 52,4 para 51,4 pontos. O PIB alemão caiu 0,2% no segundo trimestre. O aumento frente ao mesmo trimestre do ano passado foi de modesto 0,8%.

Depois de baixar o juro para 0,15% e não colher nenhum resultado positivo, o BCE deverá escolher a via do afrouxamento quantitativo em sua reunião de política monetária desta semana. O BC fez o caminho inverso, com resultados igualmente nulos: mantém a Selic em injustificáveis 11% enquanto eleva a oferta de crédito em R$ 40 bilhões por meio do remanejo das alíquotas dos compulsórios bancários.

A segunda maior economia do mundo, a China, luta desesperadamente para conseguir crescer 7,5% este ano, uma expansão meramente pífia face aos costumeiros resultados acima de 10%. O PMI oficial do governo chinês foi de 51,1 pontos no mês passado, em queda tanto em relação ao mês anterior, de 51,7, quanto frente às previsões de 51,2 pontos. O PMI-Markit cedeu de 51,7 para 50,2 pontos.

O Copom poderia iniciar amanhã um ciclo de queda da Selic sem temer perda de credibilidade. Uma decisão de cortar a taxa de 11% para 10,5% em tese poderia ser malvista pelos mercados porque o BC sinalizou ampla e enfaticamente demais sua intenção de sustentar a taxa congelada no atual patamar até o final dos tempos. Só em tese. Na verdade, o BC não precisa temer perda de credibilidade porque, para o mercado, já não tem nenhuma, como demonstram as recomendações explícitas de “reconstrução” do BC e de “restauração da credibilidade do sistema de metas”. O Comitê nada fará amanhã porque não sabe o resultado das urnas nos dias 5 e 26 de outubro.

O raciocínio que prevalece pode ser o de que de nada adianta baixar a taxa agora se, vitoriosa Marina Silva, um novo BC — muito semelhante à “nova política” da candidata — decidir dar uma paulada na Selic para restituir a pureza liberal ao sistema de metas. Mas se Dilma se reeleger o primeiro Copom depois deste, agendado para 29 de outubro, não poderá fugir de suas responsabilidades em relação ao PIB.

O pregão de juros futuros da BM&F já iniciou a precificação de uma política monetária marinista: alta da Selic em 2015 e queda só a partir de 2016. Tanto é que o DI com vencimento em janeiro de 2016 — que reflete a expectativa para a conduta do BC ao longo do ano que vem — subiu ontem de 11,22% para 11,27%, enquanto a taxa para janeiro de 2017 recuou de 11,23% para 11,22%. O pregão desenha uma curva com inclinação negativa. Tal fenômeno ocorre quando há “confiança” no BC.

O mercado de câmbio foi o que mais se ressentiu ontem da ausência dos mercados americanos, fechados pelo feriado do Dia do Trabalho. O dólar oscilou muito pouco e fechou a R$ 2,2448, em alta de 0,26%. O giro de negócios foi de apenas US$ 800 milhões, ante giro médio diário de US$ 1,2 bilhão em agosto.

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